SOCIEDADE

 
25 de June 2019 - às 07:35

PSICOLOGIA FUGA À PROGENITURA É DOENÇA DE FÓRUM MENTAL

• "Terceiro Psychologist talk – Conversas sobre saúde mental" levou Encarnação Pimenta ao Auditório da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, onde foi corroborar com uma conversa distintamente descarada, como nos habituou, sobre fuga à paternidade e maternidade 

 

O “Quem produz delinquentes” sempre foi o meu preferido, pela verdade satirizada que traz. “Amantes concubinas ou esposas?”, traz algo muito especial também e oportuno à sociedade, o desvendar de uma farsa bem comum entre nós. Mas quando li o “Fuga à Paternidade e à Maternidade em África do Berço Negro”, foi como que o completar de algo que faltava para compreender o choque social que há algum tempo vivemos.

Uma obra dedicada à crianças fortes, abandonadas e/ou abandalhadas pelos próprios progenitores e que se não são preparadas por si mesmas, aumentam na medida que tornam as sociedades africanas mais doentes, débeis e essas pessoas quando adultas em “pessoas da merda”.

Os casos de fuga à paternidade na nossa sociedade, assim como em quase toda a dimensão do continente berço, vão crescendo alarmantemente. E não é por se ser responsável. É por se ser tão imbecil, que se passa a responsabilidade dos adultos às crianças que acabam por crescer a sua própria sorte.

O primeiro capítulo deste importante documento retrata a fuga paternal e maternal interna e externa:

Nas formas e níveis de fugas à paternidade e maternidade, Maria da Encarnação Pimenta debruça-se sobre quatro tipos, a saber a afectiva, a fuga a pensão de alimentos, fuga póstuma à Paternidade e a fuga parental em ajudar a criança com os deveres escolares.

O chamado “Pai boneco” radiografado pela autora, traz ao de cima 34 personagens de pais do mundo virtual da violência infantil, que elas elegem em substituição dos pais reais.

Pela ausência da figura do pai nas suas vidas, as associações mentais que os filhos fizeram em relacção à figura do pai foram as seguintes:

-Ben 10; Batman; American Dragon; Pokémon; Panda; Ruça; Shin-chan; Spider-Man, Naruto; Brave-Indomável... The Charlie Challenge; Maria Sandrenta e para não falar da famosa Baleia Azul e a Baleia cor de Rosa e tantos outros jogos que comandam o mundo da violência infantil.

Cada boneco aqui evocado, representa um pai virtual que a criança elege para seu pai ideal em substituição do seu pai real ou seja biológico. (PIMENTA Encarnação, 2017, p. 81)

A prestação de cuidados básicos (forma de violência contra a criança), que começa pelos cuidados de saúde mereceu algumas páginas bem reflectidas em “Fuga à Paternidade e à Maternidade em África do Berço Negro”.

A requintada forma de fuga às Instituições escolares por parte dos pais, traz na pessoa da psicóloga Encarnação Pimenta uma abordagem do que tem provocado graves dificuldades na ajuda às crianças por mera negligência dos pais:

Depois de uma criança de três anos ter sido sucessivamente observada pela psicóloga da creche, chegou a fase de se ouvirem os pais, como é da praxe em Psicologia Clínica Infantil ou do Desenvolvimento. Nesta conformidade, encetaram-se todas as diligências, enviando convocatórias, a fim de se trazer os "pais" à referida instituição escolar para uma conversa de bons amigos com a psicóloga e os educadores da sua filha.

Primeira tentativa: Escrita e enviada na mochila da filha; egunda tentativa: Telefónica;terceira tentativa: Verbal (recado dado por amigos e conhecidos);quarta tentativa: Por e-mail;quinta tentativa: Escrita e enviada em envelope contratando os serviços postais; sexta tentativa: Escrita e anexada na vitrin da instituição; sétima tentativa: Redes sociais;oitava tentativa: Radiofónica;

 

Nova tentativa: Contrafé policial (sem comparência nos serviços policiais para responder ao solicitado pelas autoridades); décima tentativa: Mais uma vez telefónica. Desta vez atendeu o prófugo-progenitor do sexo masculino, que alegou não poder comparecer em virtude de se encontrar "bastante ocupadíssimo na elaboração do Relatório do Orçamento Geral do Estado, e assim ausentar-me por uma hora para falar com os professores da minha filha levaria o país à banca rota!". (PIMENTA Encarnação, 2017, p. 129-130).

Infelizmente, e para desgosto desta sociedade que se quer idónea, o discurso continua como forma a exaltar e defender os interesses do Ministro de quem era fiel assessor, diminuindo assim o facto da Paternidade.

Diante de tudo isso, é sim chegada a hora de se levar as mãos à cabeça e reflectir-se sobre o tema e a ligação que este alberga para o desenvolvimento do homem e quiçá, da Nação em si. Mas não é apenas isso. A importância da presença dos progenitores na hora do sono da criança, bem como o reflexo naquilo que é o rendimento escolar delas...

“Ter filho não é quando se quer, mas sim quando se está preparado para. Por este mesmo motivo, todo o indivíduo deve saber se nasceu ou não para ser pai ou mãe”, declarou a Psicóloga clínica Elsa Mbumba. Catarino Luamba, por sua vez falou que a insistência em querermos nos posicionar como pais e mães, provoca o transtorno social que temos hoje. “A demente sociedade que temos, é da total irresponsabilidade daquelas pessoas que mesmo não estando preparadas, pensam que devem ser pais ou ter filhos. Podemos ver problemas psico-sociais tanto vindos dos pais, como nas crianças, infelizmente”, referiu.

Não foge à Paternidade e Maternidade, apenas o pai que abandona o seu filho na maternidade ou num contentor de lixo. Foge de igual forma, aquele que dentro de casa, com o seu filho, dá mais valor a outras distracções, como é o caso das TIC’s, que hoje muitos vêem como muito mais importantes que as suas próprias criações. No seu livro, Maria da Encarnação Pimenta refere-se a estas como sendo boas até certo ponto, mas também como um veneno mortífero entre relações pais e filhos:

As TICs ajudaram também a recrudescer o espírito individualista de pais e filhos... Neste conceito, quer pais quer filhos se isolam mais, tornando-se ilhas dentro de lares, escolas e demais instituições... (PIMENTA Encarnação, 2017, pag 155), o que vem provocando também às crianças muitos problemas, tais como o baixo nível de rendimento escolar. As páginas seguintes: 156 e 157 trazem ainda uma reflexão muito profunda sobre a maneira como muitas crianças por meio das TICs e de outros factores sociais condicionam o relaccionamento , desenvolvimento e empenho pelas várias actividades lectivas, desportivas, sociais e outras.

Desta forma, a autora da obra “Fuga à Paternidade e à Maternidade em África do Berço Negro, conclui que no domínio da análise sociológica, existem ... tipos de família na África Negra:

 

Família pimpérrima - Hoje muitas crianças são abandonadas, entregues pelos seus pais ao mundo da da prostituição e algumas até são vendidas a troco de alguns tostões (p. 203).

Famílias abastadíssimas, tendem a ser avarentas - Dão mais bens materiais aos seus filhos do que bens afectivos e dificultam a assimilação, pela criança de bens espirituais por parte dos seus educandos (p. 205).

Famílias monoparentais -  Comandadas por um só progenitor,  perfazem mais de 70% dos lares citadinos. A África do Berço Negro tem muitas famílias monoparentais, devido a razões obviamente conhecidas: a guerra armada que dizimou e, em alguns pontos do Continente, continua a dizimar mais homens que mulheres, a fazer de viúvas e a somar mais órfãos (209).

Famílias feminino-multigeracionais, onde durante cinco ou seis gerações são comandadas por mulheres.

Famílias zungo-camponesas, fazem mutação de dois estilos familiares. Um estilo de família nuclear e outro feminino-multigeracional.

Famílias pasto-urbanas - Esta é uma designação que convencionei dar a outro novo grupo de indivíduos que alcançam a grande cidade. Chegam por meios próprios, trazendo o gado da selva para a capital, passando por ravinas, colinas e montes, procurando atingir a cidade. (p. 223).

Famílias hetero, homossexuais e bissexuais e Famílias bastante supersticiosas - As crianças que se parecem mais problemáticas acabam sendo vítimas ou da sanha assassina dos adultos da família supersticiosa ou acaba sendo corridas e/ou abandonadas em lugares de onde nunca sairão para voltar para casa. (p. 227).

Tendo ainda deixado a sua modesta sugestão aos governos, para que estes passem a ter todo o cuidado para os casos de fuga a paternidade, e feito uma profunda análise do que isso pode influenciar na saúde mental e no rendimento escolar dos educandos e, em suma no homem do futuro que essa criança se pode vir a tornar.

1 Aconselhamos as autoridades familiares, jurídicas e religiosas a negarem qualquer estatuto de competência ou idoneidade conjugal, paternal ou laboral a alguém que aparente estar no seu “pleno juízo”... desejamos arduamente que o estado deixe de fazer vista grossa a isso, passando a deixar de recompensar o indivíduo com cargos de responsabilidade quando este não demostre perfil nem capacidade;

2  Mal o indivíduo acabe de nascer, pai ou mãe que abandone o seu filho, em qualquer circunstância deve ter um julgamento sumario.

3  Mal o indivíduo acabe de nascer, seja automaticamente um cidadão de África do Berço Negro;

4  A entrada da maternidade, fazer um registo e aí anotar os nomes dos supostos progenitores e sua localização espacial do Planeta Terra, visando evitar a fuga do outro progenitor, ou dos dois;

5  Trabalhem em conjunto, já que as consultas pré-natais nas maternidades devem ser abordadas de forma multidisciplinar. (p. 229 - 235).

E justamente porque no país não se fala em Psicologia sem que se refira ao contributo da imensa Encarnação Pimenta, e isso, os mais jovens psicólogos reconhecem, o Terceiro Psychologist talk – Conversas sobre saúde mental, levou Encarnação Pimenta ao Auditório da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, onde foi corroborar com uma conversa distintamente descarada, como nos habituou, sobre fuga à paternidade e maternidade, que é dos assuntos que mais vem desestruturado famílias na sociedade angolana.

Uma conversa que elucidou todos os presentes sobre a necessidade da luta contra a fuga parental, que tem adoecido Angola e não só. Foi uma manhã de verdadeiro aprendizado, como referiu a assistente Maria do Céu “Eu pensava que fuga a paternidade, era só deitar filhos. Hoje sei que muitas vezes cometi esse mal. É mesmo bom vir a estas conversas. Aprendemos todos os dias”, disse.

Sobre a participação deste ícone, José Almeida disse que “Maria da Encarnação Pimenta, como sempre mostrou o que sabe fazer de melhor e como sabe. Foi um diálogo revitalizante, na medida em que alargamos os nossos horizontes sobre essa matéria. Encarnação Pimenta é um nome sem igual da Psicologia”, concluiu. 

 

Texto: Júlia Mbumba / Fotos: Arquivo NET

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