ECONOMIA & NEGÓCIOS

 
6 de abril 2017 - às 16:02

PRODUÇÃO DE TOMATE DILUÍDA EM PRAGA AGRESSIVA

Benguela, uma província que produz 30 toneladas em cada um dos cerca de dois mil hectares disponíveis para o tomate continua à procura de soluções. Especialistas temem que a fábrica de concentrado de tomate possa não ter matéria-prima. Também o Namibe, outro grande produtor, está a ser afectado 

 

Em época da trégua dada pela ‘’praga das enchentes’’ no rio Coporolo, comuna do Dombe Grande, sem chuva há vários meses, vários agricultores são confrontados com uma outra praga, responsável pela destruição de 30 mil toneladas de tomate. 

A ‘’tuta absoluta’’, que estará já a devastar outras culturas, afectou parte considerável dos mais de mil hectares disponíveis para o tomate, num sinal de alerta para uma região prestes a ganhar uma fábrica que vai transformar o produto em concentrado. 

Conhecida também por ‘’traça do tomateiro’’, a praga devastou outras 18 mil toneladas, no vale agrícola do Cavaco, com 600 hectares para a cultura em causa, e tantas outras na Catumbela, com uma área de cultivo similar. 

Trata-se, segundo o agricultor Roque Figueiredo instalado no Dombe Grande, a 60 quilómetros da cidade de Benguela, de uma ‘‘borboletina’’ que impede o desenvolvimento da planta. 

Entre a classe produtora, realça o empresário, prevalece o ambiente de medo, sendo certo que a maldição estará já a afectar a melancia. ‘’Todos nós, agricultores, perdemos muito. Perdi 20 hectares é grande o prejuízo, mas o Dombe é tão grande… ‘’, realça. 

Do outro lado da barricada, António Figueiredo lembra que o Cavaco é atacado de forma tão intensa pela primeira vez, como se não bastasse numa altura em que existirá uma lagarta a destruir o milho. “É a tuta que ataca o tomate, mas há uma lagarta, que muitos chamam de ‘lagarta do cartuxo’, a estragar o milho. Ninguém consegue fazer tomate, é um ataque muito intenso’’, realça o agricultor, que diz ter estagnado em 40 hectares. 

Em reacção, o sector da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, ciente de que o tomate é feito de forma ininterrupta, sustenta que os camponeses e agricultores devem diversificar as culturas. Desprovido de fitofármacos devido a limitações financeiras, o MINADER sugere, segundo Orlando Maciel, técnico da instituição, uma forte aposta em outros produtos, capazes de equilibrar as contas no que conformaria a almejada rotação nas plantações.      

Soou o alarme na ONU - A ‘’tuta absoluta’’ é a designação científica desta praga transfronteiriça – está instalada em Angola há já dois anos, mas apenas agora ‘’tira o sono’’ às autoridades que andaram sem a preocupação do momento enquanto não existiam condições para uma apreciação baseada em estudos. 

Os estragos são tão acentuados que a caixa de tomate chegou a custar 25 mil Kwanzas, contra os mil e quinhentos anteriores. Agora, conforme dados fornecidos por consultores, o preço médio é de 15 mil Kwanzas, valor que pode baixar à medida da solução do problema.  

À hora do fecho desta edição, permanecia intacta a possibilidade de uma intervenção de especialistas da FAO, Fundo das Nações Unidas para Agricultura. Enquanto isso, Orlando Maciel salientava que o combate devia ser delineado de forma integrada, com produtores vizinhos em sintonia. 

Maciel, que tem estado a visitar campos afectados, alerta que, mesmo os agricultores com dinheiro para comprar fitofármacos, devem ter em atenção os colegas que os ladeiam. ‘’Eles conseguem afastar temporariamente a praga, é certo, mas ela regressa quando o efeito do medicamento estiver a desaparecer. Esconde-se no campo do produtor sem o antídoto, regressando mais tarde aos outros campos’’, resume.     

Seca, a velha maldição  - Enquanto os municípios do litoral lamentam os estragos causados pela ‘’tuta absoluta’’, o interior, com seis municípios, faz contas à destruição de culturas em consequência da estiagem.  

Especialistas do ramo agrícola consideram que o espectro de carência alimentar, como também se verifica nas províncias do Cunene e Namibe, deve servir de reflexão para a necessidade de medidas que garantam o fim da dependência da chuva na actividade produtiva. 

Após vários gritos de socorro, há quem olhe para o ‘’mísero’’ orçamento para a agricultura face ao acordado a nível da SADC. 

Consumado o desperdício de vinte mil hectares, com o milho entre as culturas sem proveito, camponeses da Ganda, a 200 quilómetros da cidade de Benguela, fazem soar o alarme com previsões que apontam para uma crise alimentar entre várias centenas de famílias. ‘’A falta de chuva trouxe um prejuízo horrível, já que todos os cereais estragaram. Não colhi nada, perdi milho e jinguba’’, lamenta um produtor que diz ter ficado sem 12 hectares, ao passo que outros, também preocupados, dizem não acreditar em dias melhores. 

Estas queixas são as mesmas de há quinze anos, quando já o Governo prometia investir em infra-estruturas para garantir reservas de água. A estiagem afecta mais de trinta associações camponesas, que terão de apostar nas chamadas ‘’culturas de fome’’, entre as quais a batata-doce e as hortícolas, se chover na segunda época. 

O activista José Patrocínio, agrónomo, refere que as políticas públicas prejudicam a classe camponesa, geralmente afastada do horizonte de quem decide quando a perspectiva for o apoio à classe que produz. ‘’A maioria tem sido esquecida, circunscrevendo-se o incentivo em áreas reservadas aos grandes produtores’’, exemplifica.    

Também agrónomo, o deputado Victorino Nhany, numa declaração política, recorda que os orçamentos para a agricultura continuam quase 9% abaixo dos dez estabelecidos na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). ‘’Angola tem uma enorme reserva de água, mas, lamentavelmente, não presta a atenção que se impõe aos pequenos camponeses’’, justifica. 

Dados disponíveis indicam que a agricultura familiar, responsável pela segurança alimentar, ocupa 90% das terras agricultadas, ao passo que os empresários, apontados como a prioridade para o Executivo, têm apenas 10% da área. 

 

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