CULTURA

 
28 de julho 2016 - às 07:52

PAULO KUSSY: O AMBIENTE NAS ARTES PLÁSTICAS DEVE MELHORAR RÁPIDO

Paulo Kussy aponta para necessidade da criação de atelieres e serviços educativos nas galerias e museus

Paulo Kussy, é um jovem artista plástico angolano que tem dado cartas no mercado nacional, com trabalhos que merecem elogios de amantes e apreciadores.

Numa entrevista à Figuras & Negócios, Paulo Kussy fala das suas motivações, da sua vida no mundo das artes e, acima de tudo, do trabalho que faz no seu dia-a-dia

 

Figuras & Negócios (F&N) - Paulo Kussy é um jovem ligado ao mundo das artes plásticas, um dos poucos da sua idade com um percurso rico em estórias e, também, recheado de trabalho. Como se distingue no mundo das Artes?

Paulo Kussy (PK) - Sou um artista plástico, pintor, especializado em Anatomia Artística, com um especial interesse em Anatomia Comparada entre o homem e o animal.

F&N - Que análise faz do actual estado do mercado de artes plásticas em Angola?

PK - O mercado está a crescer aos poucos. Para haver um mercado precisamos de um público apreciador e comprador, agentes promotores desses mesmos produtos e galerias e espaços onde estes possam ser exibidos e conservados. Aos poucos temos dado passos sólidos em direcção a um ideal almejado por todos nós.

F&N -  Embora o cidadão comum não perceba, a arte está presente no seu quotidiano. De que forma achas que a "arte elitizada", que fica restrita a uma determinada fatia da sociedade, pode ser disseminada a um público maior?

PK - Pode ser disseminada através de uma maior divulgação e promoção, envolver as escolas dos mais variados níveis de ensino, professores, tutores,... A criação de Atelieres e serviços educativos nas galerias e museus. As redes sociais também têm o condão de dar a conhecer os variados fenómenos artísticos.

F&N - De alguma forma, o Paulo Kussy faz arte, arte popular. Qual foi o factor principal que o levou a este mundo?

PK: Foi essencialmente a influência dos professores de arte na escola e as várias viagens que efectuei enquanto criança a museus e galerias de arte.

F&N -  Já trabalhou ou tentou trabalhar com outras técnicas, assim como outros materiais e tendências como escultura?

PK - Tenho tendência em ficar-me apenas no desenho e na pintura, mas penso no futuro enveredar para o ramo da escultura. 

F&N - Já pensou em ilustrar um livro?

PK: É algo  que gostaria muito de fazer. Mas ainda não o fiz. Caso surja um bom projecto de colaboração, de certeza aceitarei o convite.

F&N -  Em geral, utiliza bastante cor nas suas obras. Quem são os artistas que exercem maior influência na sua arte e porquê a preferência em pintar a natureza, especialmente as mulheres africanas?

PK - As minhas maiores influências provêm de séculos distintos da história da arte. Os artistas da época do Renascimento Italiano e os artistas gráficos e de banda desenhada do século 20, bem como os artistas de arte mural de rua.

F&N - De que forma a pintura exerce influência no seu trabalho quotidiano?

PK - Dou aulas a estudantes de  arte e uso todo o meu conhecimento científico e artístico para melhor transmitir todos os conceitos académicos que eles devem adquirir.

F&N - Como tem sido o seu contacto com o público? 

PK - Tem sido bom e salutar. Aprendo muito com as suas críticas construtivas, as sugestões e solicitações. 

F&N -  Tendo em conta a massificação, existe alguma preocupação nos seus trabalhos para com as crianças?

PK - Elas serão os adultos de amanhã pelo que se forem instruídas e acarinhadas desde pequenas, se obtiverem as ferramentas e conhecimento útil para serem apreciadores e consumidores de arte no futuro, tanto melhor.

F&N -  As suas pinturas retratam o abstracto ou o psicadélico, como funciona e o que contribui para o seu processo de criação?

PK - O meu processo de criação começa pela observação incessante pela biologia, a anatomia, a ciência. Procuro criar uma abordagem artística a todo esse universo que tanto me intriga e fascina.

F&N -  Em que reflectem as suas criações? Como a caracteriza quanto ao seu contributo na recuperação dos valores cívico moral da actual sociedade?

PK - Essencialmente, o desempenho do ser humano na sociedade actual, o nível de exigência a que está sujeito dia a dia, no sentido de efectuar actividades repetitivas e exaustivas. Faço uma analogia entre o homem e a máquina. Tento estudar o interior da máquina humana e transformá-la numa obra de arte.

F&N - A arte pode funcionar como uma válvula de escape para manter um maior equilíbrio emocional tanto daqueles que a "consomem" quanto dos que a produzem. A procura é evidente ?

PK - No meu caso sim. Sinto que na arte posso evadir-me , sonhar, procurar novos horizontes e encontrar-me. 

F&N - Como vê o momento cultural nos dias de hoje?

PK - Um movimento dinâmico e interessante, uma grande avidez pela criatividade e o engenho do génio artístico que procura afirmar a sua individualidade num meio muito competitivo.

F&N -  O que falta actualmente para incentivar mais o gosto dos jovens pelas artes?

PK - É um processo gradual e lento e deve ser feito com passos curtos. Firmes e seguros! A academia é o grande viveiro dos futuros artistas. As escolas primárias e do ensino médio têm o condão de detectar precocemente os grandes talentos e polir todo o seu potencial.

F&N - A ausência de público não é problema somente nas artes plásticas. A maioria das galerias, lançamentos de livros, cinema e teatro também sofrem do mesmo problema. A que atribue este desinteresse pelas artes em Angola.

PK - Não é propriamente um desinteresse. Talvez alguma falta de informação. Não é líquido que ela chegue naturalmente às pessoas. Mecanismos adequados devem ser tomados para que as pessoas se sintam engajadas no processo de divulgação e comunicação dos produtos culturais.

F&N -  Que conselhos daria a um jovem aspirante a artista plástico? 

PK - Aconselho essencialmente que acredite em sim mesmo e no seu enorme potencial. Isto é fundamental para que possa contornar todo e qualquer obstáculo com que se venha a deparar.

F&N -  Fale-nos da sua visão dentro do projecto "Olomgombe" e o seu contributo na preservação dos hábitos e cultura dos povos que têm o gado como figura central?

PK - O projecto foi idealizado pelo Mário Tendinha e Paulo Amaral. Eu aceitei o convite para fazer parte da iniciativa, pois senti uma enorme afinidade com a temática e toda a envolvência. Eu sou Mestre em Anatomia e nada melhor do que levar a diversas províncias fora de Luanda, todo um saber adquirido no sentido de transmitir a ideia de que a arte não tem necessariamente de se basear apenas num conhecimento empírico, sensorial e espiritual.

F&N -  De que forma as autoridades podem ajudar para que iniciativas desta natureza possam se desenvolver?

PK - Através de um apoio institucional e toda uma divulgação no sentido de envolver todos os agentes artísticos e culturais. 

 

QUEM É PAULO KUSSY

É funcionário do Ministério da Cultura de Angola desde 2006, professor na Escola Nacional de Artes Plásticas, DINFA – Direcção Nacional de Formação Artística. Em 2008, inicia a sua colaboração no Ensino Superior exercendo o cargo de Docente de Desenho para o Curso de Arquitectura.

Das suas exposições, que já as realiza, em Luanda, desde 2009, a mais mediática e que despertou o interesse do público luandense foi a de 2010, exposição Individual, ANATOMILIAS “Entre o Homem e a Máquina”, no Museu de História Natural.

Ao ser questionado do porquê da adopção deste nome, “despir da pele”, Paulo Kussy faz questão de o colocar entre aspas, “a expressão cria inicialmente algum espanto e choque pelo que devo explicar o que me levou a usá-la. Despir a pele é uma figura de estilo, uma perífrase, uma expressão usada para designar outra, neste caso, a Catarse”. 

O artista plástico no discorrer da denominação por si criada, vai mais longe e diz que despir a pele é algo trágico, dramático, uma autêntica descarga emocional e, em última análise, essa mesma sensação acaba por provocar a cura, a purificação das almas. 

Paulo Kussy nasceu a 5 de Fevereiro de 1978, em Luanda. O interesse pelas Artes Plásticas manifestou-se precocemente, sendo os seus primeiros esboços efectuados no decorrer da sua instrução primária. Muda-se para Lisboa aos doze anos, em 1990. 

Ainda em Portugal, desde 1999, colaborou como retratista ao vivo e caricaturista com empresas de produção e animação de eventos. Em 2003, conclui a sua formação em Artes Plásticas, variante de Pintura pela Faculdade de Belas Artes - Universidade Clássica de Lisboa.

Regressa a Angola, Cidade de Luanda, em 2006.

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