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30 de janeiro 2016 - às 16:15

PAUL KAGAME PRESIDENTE DO RUANDA “ESTOU DISPOSTO A FICAR”

Paul Kagame é o todo poderoso Presidente do Ruanda, o político que encontrou a varinha magica para a reconciliação do povo ruandes e, por isso mesmo, é grande a corrente que defende a sua permanência no poder. E tudo vai ser assim porque a Constituição foi "arranjada" para esse propósito, numa situação que irritou muitas vozes de fora do Ruanda, mormente do Ocidente e dos EUA.

Nessa entrevista a Baffour Ankomah, da revista NewAfrican, que pela sua oportunidade, nós a reproduzimos, Paul Kagame fala das suas razões.

 

P- Senhor Presidente o que o motiva enquanto homem e enquanto Presidente da República?

Paul Kagame (P.K) - É uma combinação de factores, associação da pessoa e do desenvolvimento. Acho que soube tirar proveito de muitas situações que vivenciei  na minha juventude e tive de as superar. O carácter também é um motivo, mesmo sem escolher, herda-se dos pais e de outros a nos ligados.

Mas é graças a isto que eu perspectivo os aumentos. Quando confrontados com as dificuldades, elas nos oprimem e ou nos tornam mais fortes. Eu enfrentei desafios e descobri que a vontade de vencer e mudar o curso dos acontecimentos estimulou-me.

Eu enfrentei muitas dificuldades durante a minha infância como um refugiado, mais tarde nas lutas dos rebeldes no Uganda e Ruanda. Sempre lutei pelos nossos direitos. Eu sei que não se faz nada de graça. Tivemos de lutar nas matas e na área política.

P- O que vos estimulou durante estes 21 anos?

P.K- Quando você enfrenta os problemas e vence, o progresso também é levado aos outros, sabe que o seu trabalho valeu a pena, isto incentiva-o a continuar. Ver a vida de outras pessoas tornar-se melhor, gera um grande sentimento de satisfação e estímulo pessoal.

Eu vejo a situação que viveu o meu país há 21 anos e onde estamos hoje. Agora podemos ter esperanças para o futuro. Nós verificamos que o Ruanda torna-se próspero, estável e um lugar onde as pessoas podem realizar as suas ambições. Os progressos alcançados entre 1994 e 2015 são encorajadores. Eles provam que nenhum problema é insuperável.

P- Na vossa opinião, o País já virou a página?

P.K - Os ruandeses têm demonstrado que estão a trabalhar, eles sabem que têm de se adaptar e estar seguros. Isto cria um sentimento de confiança. O êxito no terreno é ainda mais notável, dado o histórico do País e as dificuldades do continente, o que prova que o País mudou e o melhor ainda está por vir.

P- O Ruanda conta com um dos maiores números de mulheres no Parlamento, no Governo e em outras esferas do poder. Essas mulheres trazem algo de diferente na tomada de decisões?

P.K - Fala-se muito de igualdade e de respeito pela vida e no Ruanda, queremos implementar estes princípios, adaptando-os à nossa cultura. Eu sempre digo que os muitos problemas da nossa história deixaram-nos lições, e estas são usadas para racionalizar o que fazemos. No Ruanda, as mulheres representam 52% da população e é importante não as deixar de fora. Pode ser que entendamos melhor do que ninguém por causa da nossa história.

Como temos muito a fazer, precisamos da contribuição de cada um e não nos podemos esquecer das mulheres. Elas fizeram muito e participaram activamente no desenvolvimento nacional. Por outro lado, é uma questão de direitos. As mulheres têm os mesmos direitos que os homens, e urge ter isto em conta.

Para responder à pergunta, sabemos que os homens e as mulheres têm diferentes qualidades e nós ganhamos, se as reunirmos. Hoje, no Governo, no Parlamento ou em outros lugares, as mulheres fazem a diferença e são complementares aos homens. Elas são mais eficazes!

P- Elas não são difíceis de lidar?

P.K - (Risos). Elas fazem o mesmo trabalho que os homens, mas são mais económicas. Elas tendem a ser mais racionais e eficazes. Os homens fazem coisas que nem sempre são necessárias porque eles podem pagar e a sociedade permite. Estas qualidades femininas podem agregar valor ao que fazemos. E não podemos falar sobre as mulheres como se fossem dispositivos de pessoas. Elas são nossas mães, nossas filhas, nossas irmãs e nossas esposas. Elas são parte de nós. Os homens e as mulheres vivem juntos, não faz sentido deixá-las de fora. Nos encontros, eu prefiro gerir as coisas melhor do que deixar os homens a trabalharem sós.

P - Disse que no exterior as pessoas se opuseram à sua tentativa de usar o sistema tradicional Gacaca, do Ruanda, para resolver conflitos. Por que?

P.K - Vivemos num mundo onde os valores devem ser constantemente redefinidos. Não conseguimos suportar que certas pessoas são superiores às outras e que elas podem definir as normas que os outros devem seguir. O mundo é feito de diferentes lugares e povos. As pessoas devem trabalhar juntas, em vez de impor padrões que funcionam em suas casas, para os outros seguirem. Isto não leva a nada, porque os problemas são diferentes de acordo com os lugares. O que se adopta em um país não é, necessariamente, para outro.

Voltando ao Gacaca, os críticos se opõem simplesmente porque eles não cumprem a norma internacional. Pedimos-lhes o que era a norma internacional para julgar os casos de genocídio numa sociedade onde uns matam os outros, quando há centenas de milhares, até mesmo milhões de casos a serem julgados... A magnitude do problema - o número de crimes por juizo - foi uma dificuldade enorme. Então, nós queremos justiça para as vítimas, que também queriam alcançar a reconciliação. Mas estes dois processos são contraditórios.

P - É uma situação complexa?

P.K - Pedimos aos adversários que pensassem cuidadosamente: o padrão internacional obrigou-nos a usar cada caso de genocídio em um Tribunal de Justiça. Mas, no Ruanda, não tínhamos o desempenho do sistema judiciário no momento; foi tudo destruído. Mesmo que nós tivéssemos o melhor sistema judicial, com o julgamento de milhões pessoas, teríamos levado milhares de anos.

Explicamos que tínhamos meios tradicionais para resolver os nossos problemas, mesmo que não os tivéssemos conhecido antes, nesta magnitude. Estávamos a olhar para o que iria permitir às pessoas viverem juntas no futuro.

Pedimos aos adversários que proponham uma solução, se eles sentirem a nossa inadequada. Eles não têm sido capazes de oferecer absolutamente nada porque sabiam que podiam pedir-nos para criar rapidamente um sistema legal e confiável, antes dos perpetradores do genocídio tentarem. Nós insistimos que tínhamos de resolver os problemas urgentes de genocídio.

É isto o que nós fizemos. Eles continuaram a queixar-se dos tribunais de Gacaca, foram tidas em conta quase 2 milhões de pessoas, permitindo que às pessoas voltassem para casa e começassem a viver juntas. Foi assim que nós conseguimos a estabilidade que vemos hoje, graças a ela podemos nos dedicar ao desenvolvimento.

P - Ao permitir que os perpetradores de crimes e as vítimas chegassem a um acordo, o sistema de Gacaca facilitou a tarefa do governo?

P.K - Absolutamente! Esta é uma outra vantagem de Gacaca. As vítimas e os culpados discutiam em conjunto para resolver os seus problemas. Isso é diferente de um Tribunal de Justiça, onde a outra parte acusa e o juiz pronuncia o seu julgamento. 

Com o Gacaca, as vítimas e os agressores são fundamentais para o processo. Os autores desculpam-se das suas vítimas, reconhecem os seus crimes e levam as famílias aos lugares onde os corpos foram enterrados. Esta abordagem permitiu a reconciliação entre os ruandeses.

P - O senhor Presidente permite que as pessoas do exterior ditem os seus padrões para África?

P.K - De forma alguma! Sobretudo nas áreas que têm impacto sobre as nossas vidas. Eu pergunto-me porque razão os africanos aceitam tudo dos outros e gastam o seu tempo a reclamar, em vez de agarrarem o "touro pelos cornos" para melhorar a sua sorte. Eu não posso explicar isto a mim mesmo. Eu não entendo por que fazemos isto enquanto nação. Eu não posso aceitar esta situação.

P - Em 2011, a revista ‘NewAfrican’ perguntou-lhe: "Vai cessar o seu mandato depois de sete anos,-ele não pode ser renovado nos termos da Constituição?". A sua resposta foi muito clara: "A nossa Constituição define claramente o número de mandatos. Eu não tenho nem a intenção e nem o desejo de quebrar a lei constitucional". Agora, 3,7 milhões de ruandeses mandaram-no, por meio de uma petição, para conduzir um novo mandato. O que vos compete dizer?

P.K - Esta declaração foi dada em 2011, hoje ainda é verdade. Em primeiro lugar, eu não tentei modificar a Constituição e nem pedi a alguém que o fizesse. Alguns escreveram que eu estava em busca de um terceiro mandato. Não, eu não busco nada. 

Em segundo lugar, os 3,7 milhões de ruandeses que assinaram a petição e outros ao redor, são aqueles que querem mudar a Constituição. Afinal, são eles que escreveram, eu não! São eles que querem mudar a constituição. Eu respeito e continuo a respeitar, se fôr a opção do povo. Se a Constituição for alterada e eu concorrer a um terceiro mandato, eu vou respeitar. São as pessoas que quiseram mudá-la e não eu.

P- Diz-se que os bons reis reinam até que eles morrem. Os maus reis são perseguidos pelo seu povo ...

P.K. - Não há nada de errado com isto e é por isso que eu enfatizo o facto de que as pessoas distorcem a realidade quando dizem que eu quero buscar um terceiro mandato. Eu não contei a ninguém. E fico por fora para me certificar de que percebo o que está a acontecer. Encontrei-me com executivos do meu partido, 2000 pessoas numa sala, e eu disse a eles que devemos ter certeza de que as pessoas realmente querem que eu fique e que este movimento não seja o trabalho de poucas pessoas na tentativa de influenciar os outros por interesse próprio. Somente quando tivermos certeza de que as pessoas querem que eu concorra a um terceiro mandato, que eu vou tomar  a minha decisão com pleno conhecimento.

Então, eu tenho 3,7 milhões de pessoas persuadidas e que persuadem os outros que não são manipulados. O Ruanda irá novamente traçar o seu próprio caminho e colher os seus frutos ou enfrentar as consequências. 

P - Porquê que a África escolheu seguir cegamente o Ocidente?

P.K - Eu ia falar sobre isso. Este é o problema de África. O espírito africano ainda é um prisioneiro do passado colonial. A escravidão e o colonialismo danificaram o Africano. Ele não acredita nos seus direitos e eu não acho que seja certo. África ainda busca a aprovação de fora. Isto é terrível!

Mas os ocidentais são amálgamas. Existem africanos que cometem grandes erros, líderes que tomaram o poder ilegitimamente, governam mal e são usados ​​para alterar a Constituição para permanecerem no poder quando as pessoas extrapolam e imaginam que a mesma coisa acontece em toda a África.

P - Eles generalizam?

P.K - Eles querem limitar o número de mandatos em toda a África, quando, na realidade, o problema surge apenas em alguns países. Na Europa, o número de mandatos é limitado, quer nos Estados – Unidos, na Alemanha ou na maioria dos outros países. Mesmo a Austrália não impôs limites. Mas em África pensa-se que os líderes são ditadores e que estão colados ao poder, por isso querem que limitemos o número de mandatos.

Os africanos aceitam este raciocínio e nem sequer levantam a questão de como isto está a acontecer na Alemanha ou no Reino Unido. Privámo-nos de um direito e estamos de acordo para limitar o número de mandatos para nos protegermos de nós mesmos - (risos).

Nós nos protegemos de nós mesmos ao impormos as mesmas regras sugeridas pelo Ocidente! É um verdadeiro problema. A confusão domina. O absurdo prevalece. Pois não há nenhuma razão para que a África não possa traçar o seu próprio curso.

P - Em seguida, o que podemos fazer em África?

P.K - Muitas coisas. Vê agora a desordem nos países ocidentais, chamados democráticos. Eles enfrentam enormes problemas. Então, eu não entendo que sistema democrático ideal eles preconizaram. Mas quando vêm para África, eles dão aulas a todos.

Que democracia eles defendem? O número de mandatos está limitado nos Estados Unidos, mas na Europa não. Quem é que África deve seguir? Os americanos ou os europeus?

P - Hoje, os africanos amam os "tigres asiáticos". Eles servem como nossos modelos?

P.K - Eu tenho um amigo ocidental que ouviu que o povo do Ruanda queria que eu concorresse a um terceiro mandato e veio para me aconselhar a não ouvir as pessoas. Ele recomendou-me para seguir o modelo de Lee Kuan Yew, de Singapura. Eu deduzi que ele se estivesse a contradizer; na verdade, ele pediu para permanecer no poder, porque eu não tinha atingido os 32 anos que Lee Kuan Yew permaneceu como Primeiro-ministro. Hoje, o seu filho é o Primeiro-ministro.

Outra questão: um americano disse-me para seguir o exemplo de George Washington, um general admirado por todos que recusou concorrer a um segundo mandato. Mas por que não seguir o exemplo de F. D. Roosevelt? Ele foi eleito quatro vezes pelo povo americano. Não foi um grande líder? Sim. Por que pensar que o que convém aos Estados Unidos não é adequado para os outros? Os norte-americanos impõem o seu sistema aos outros. Este é um erro grave.

P - Uma vez que a Comissão Constitucional concluiu o seu trabalho e as pessoas querem que fique, o que diz aos seus detractores?

P.K - Eu permaneço disponível. Eu sabia que tinha de me mostrar cauteloso quando disse que respeitava a Constituição. Eu queria conhecer esta Constituição, desenvolvida através de um processo democrático. Sem manipulação. Sem terem sido alterados por outras pessoas, para além daquelas que podem legitimamente fazê-lo.

Respondendo a pergunta, eu tive a ideia de permanecer disponível a ficar, como acabo de descrever. Se eu achar que houve manipulação, vou deixar.

Eu quero que as pessoas pensem que eu posso fazer a minha decisão um dia. Eu disse aos meus quadros do partido que tinham de agir racionalmente e estar prontos, caso algo os desagrade. Eles devem estar preparados para qualquer eventualidade.

P - Isso já aconteceu antes?

P.K - Sim. Eu disse a eles para não se surpreenderem, caso me recuse. Depois do genocídio, em 1994, eu não era a melhor pessoa para ser o presidente. Mas todos queriam que eu me tornasse o presidente.

Houve um primeiro Acordo de Arusha, que reuniu os partidos da oposição e o nosso partido, a Frente Patriótica Ruandesa «Front Patriotique Rwandais». O RPF assumiu que eu estava a caminho da presidência porque eu era o comandante das forças armadas, na guerra e, o número dois das RPF. Além disso, porque o nosso líder foi morto no início da guerra, em Outubro de 1990. 

Na verdade, quando o nosso líder (Fred Rwigyema) morreu, eu era o  número três. Eu estava atrás do presidente, que era comandante, e Vice-Presidente (Bizimungu). Quando o presidente morreu, fui convidado para substituí-lo. Eu recusei porque o cargo seria para o vice - presidente. O vice - presidente soube que o presidente estava morto e teve problemas na cabeça. Ele desapareceu na Tanzânia.

P- Não quis substituí-lo?

P.K.- Não! E pedi aos outros para irem a sua busca. Eles o encontraram e, finalmente fui convencido a aceitar. Foi durante a guerra. 

Depois da guerra, quando todos queriam que eu fosse o Presidente, eu disse que não estava pronto e preferia que eles procurassem outro. Assim, o nosso ex-presidente, Bizimungu entrou no Parlamento e assumiu o cargo até que ele teve problemas no Parlamento, seis anos depois, pelo que tinha feito. 

Então, tornei-me presidente em 2000. Eu particularmente não queria ser presidente. Se as pessoas me pedissem para deixar um dia, eu sairei imediatamente. Não vou me opor a ninguém.

As pessoas não são dependentes de mim e elas podem encontrar outro líder. Se eu for estimulado a brigar por um legítimo terceiro mandato, sem manipulações, eu estou disposto a ficar. Mas não sou eu a tomar a iniciativa. 

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