REPORTAGEM

 
1 de fevereiro 2017 - às 18:37

PAÍS SEM MATÉRIA-PRIMA PARA PRODUZIR FARINHA OS ADVERSÁRIOS DE UMA CERANGOLA DE CARA LAVADA

Falta de trigo apontada como um dos vários factores que determinam a hegemonia estrangeira na importação de farinha. Mais de uma década após a paralisação, com acesos debates sobre o preço do pão pelo meio, Benguela vê regressar a fábrica de farinha agora sem 50 toneladas/dia em relação à produção anterior. Haverá espaço para o farelo, um bem para a pecuária e as cervejeiras, com a previsão fixada em 30 toneladas diárias

 

A pensar numa produção diária de 100 toneladas de farinha de trigo, a Cerangola, no Lobito, é confrontada com o monopólio de grupos económicos estrangeiros na importação do produto, alicerçado, segundo a Associação das Indústrias de Panificação e de Pastelarias, num ‘’capitalismo selvagem’’ que ofusca industriais nacionais. 

Doze anos depois de ter fechado as portas devido a imposições próprias de uma economia de mercado, a fábrica terá de encarar a concorrência desleal que levou o líder associativo, Gilberto Simão, a denunciar, justamente em Benguela, meses antes, uma série de práticas ilegais. 

Enquanto grupos estrangeiros dominam a importação do produto, a Cerangola, à imagem de unidades que operam em outros ramos de actividade, espera não ter dificuldades no acesso a divisas para a aquisição de matéria-prima, sendo certo que, tal como vinca Gilberto Simão, o monopólio estrangeiro – para o caso em análise - encontra guarida também na falta de trigo em Angola. 

Basta sublinhar, aliás, que o presidente do Conselho de Administração da fábrica, o empresário Adérito Areias vem alertando para a importância do relançamento da produção de trigo em áreas tradicionais, com realce para o Mussende, Nharea e Matala. ‘’Vários anos depois, suplantados que estão algumas contrariedades, estamos a concretizar um sonho, o de ter novamente a Cerangola 10 de Dezembro. Estamos prontos para receber toda a produção de trigo’’. 

No mesmo diapasão, o director provincial da Indústria, Máquina Mussolo refere que a matéria-prima para a fábrica constitui 30% de toda a produção mundial de cereais. 

Mussolo faz saber que o Governo espera ver a Cerangola aumentar a capacidade de produção, também para o caso do farelo, até porque o horizonte aponta para a necessidade de ração animal e de apoio à indústria cervejeira. ‘’É um bom passo, embora a cifra seja insuficiente para o número de panificadoras. O mais importante é que surjam iniciativas para reduzir a importação de farinha’’, revela. 

Construída em 1979, quatro anos após o alcance da Independência Nacional, a fábrica arranca com 5 mil toneladas de trigo, que chegaram ao Porto do Lobito no início do mês de Janeiro.  

 

DA FARINHA AOS TÊXTEIS, O MESMO ENTRAVE 

O ressurgimento da fábrica de tecidos de Benguela, quase vinte anos após a falência que atirou para o desemprego mais de quatrocentos operários da antiga África Têxtil, coincide com uma realidade capaz de dificultar a obtenção da matéria-prima.  

Num desafio à escassez de divisas, o Governo reinaugurou, simbolicamente, na ponta final de 2016, a agora denominada Alassola, forçada a importar todo o algodão para dar início à produção de peças de lençóis, cobertores e toalhas. 

É o percurso que as autoridades angolanas esperam contornar quando estiverem à disposição os campos de algodão em preparação no Kwanza Sul.             

Categórico, o economista Janísio Salomão, pesquisador e consultor empresarial, afirma que se trata de um exercício bastante arriscado, ressaltando que a fábrica pode ficar sem matéria-prima em determinados momentos do processo produtivo. ‘’Embora o Banco Nacional de Angola esteja a dar primazia ao sector empresarial, devemos notar que esta oferta de divisas é feita de forma periódica. Portanto, a fábrica pode vir a precisar numa altura de carência, o que representaria constrangimento’’, reforça, para mais adiante lembrar que não existem, por ora, alternativas à falta de produção interna.

Optimista, o representante da Associação Industrial Angolana (AIA) na província de Benguela, Carlos Leiria prefere acreditar nas intenções do Governo, assinalando que inúmeros campos de algodão têm à espreita a fase de colheita. ‘’Aliás, o tecido não é composto só pelo algodão, existem vários tipos. A importação é uma alternativa que o Governo encontrou’’, salienta o industrial, convicto de que ‘’a escassez de divisas será ultrapassada’’.

É neste contexto de optimismo e interrogações que o presidente do Conselho de Administração da Alassola, Tambwe Mucaje, reafirma o engajamento numa produção anual de um milhão e 608 mil peças de lençóis, 12 milhões de peças de toalha e 120 mil peças de cobertor. 

Indiferente ao problema do algodão, Mucaje agarra-se à ‘’alta tecnologia’’ e ao ‘’equipamento que não tem comparação’’ com o que por lá andou na altura da África Têxtil, sem perder de vista a capacidade dos noventa jovens formados por especialistas brasileiros.   

 

O fardo pesado das indemnizações - A satisfação que o Governo manifestou aquando da reinauguração, mesmo ciente de que a escassez de algodão pode estorvar as metas, contrasta com o sentimento dos operários que fizeram da fábrica uma referência da indústria têxtil em África. 

A dívida do Governo angolano, relativa a salários, fundo de segurança social e indemnizações, é de 947 milhões de Kwanzas, quase 10 milhões de dólares norte-americanos antes da crise.      

O processo até já se encontra no Instituto para o Sector Empresarial Público (ISEP), depois de ter estado no Ministério da Indústria, mas a Comissão Sindical da África Têxtil diz que prevalece o espectro de abandono.  

Numa reacção ao que considera ser ‘’falta de solidariedade institucional entre os departamentos governamentais, o 1º secretário sindical, Rogério Cabral afirma que a luta pelo reconhecimento do esforço dos ex-funcionários não está a surtir efeitos. 

Cinquenta e um dos 435 operários perderam a vida ao longo de vários anos de pressão, devendo os herdeiros ficar com o seu quinhão. ‘’Sentimos que estamos a ser abandalhados. É triste, muito triste, mas é a realidade’’, resume. 

A par dos acontecimentos, o secretário-geral da UNTA-CS em Benguela, Joaquim Laurindo afirma, categórico, que há um contencioso, embora prefira acreditar nas garantias do Governo, que tem justificado o problema com a falta de recursos.   

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