PAÍS

 
26 de dezembro 2016 - às 07:38

O TURISMO NA CRUZADA CONTRA DEPENDÊNCIA DO PETRÓLEO

Em 2020, poderá estar à vista a primeira fase de um projecto turístico avaliado em dois biliões e 680 milhões de dólares norte-americanos. A ousadia da empresa angolana Lucitur tem reservada uma área de 1000 hectares. Trabalhos preliminares, como a projecção da obra, a topografia e arruamentos terão consumido já USD 25 milhões

 

Foi lançada à terra na Baía dos Elefantes, a semente que germinará até dar lugar a uma vila turística com mais de dois mil fogos habitacionais suportados por serviços como hotéis, bloco administrativo, centro público e uma marine para 400 barcos de recreação. 

Trata-se da imagem de marca do projecto urbano-turístico da Lucitur, ao abrigo do qual nascerá, em trinta anos, a denominada ‘’Elefantes Bay’’, com casas que terão entre um a cinco quartos, algumas nas imediações das falésias que ladeiam o mar. 

Em declarações à revista Figuras e Negócios, momentos antes do acto de apresentação, o professor Doutor Mateus Saldanha de Magalhães, que funciona como urbanista, ressaltou que a marine terá um hotel de cinco estrelas com formato de dois dentes de elefantes e um jardim suspenso a homenagear o Lobito. 

O hotel, delineado para 144 camas, terá, segundo o especialista, uma série de serviços e áreas comerciais. Ao lado, acrescenta Saldanha de Magalhães, estarão um hotel com piscinas, para duzentos e oitenta e três hóspedes, e um resort  que terá a denominação de praia dos Eco, capaz de albergar duzentas pessoas. ‘’O centro público contará com parques, shoping, cinemas, casinos e áreas administrativas para as representações da Polícia, bombeiros, hospitais e escolas’’, avançou, após ter destacado a instalação de um campo de golf com 18 buracos, à dimensão do que se faz a nível internacional. 

A pensar nos acessos, o urbanista realça que a reabilitação de estradas, uma vez traçados os arruamentos e feita a terraplanagem, é para a fase inicial, muito antes da construção de um aeródromo e de ponte cais. 

A LUCITUR – Gestão de Empreendimentos e Turismo –, já com inscrições abertas aos interessados, prevê que a casa mais baixa venha a custar USD 160 mil, desconhecendo, por ora, o preço mais alto, que pode depender do bolso do cidadão.  

 

As tarefas de cada actor - Daqui a três anos, no pior dos cenários, estará pronta a primeira fase, indica a entidade financiadora, numa declaração tendente a despertar o Governo Provincial de Benguela para a necessidade de água, energia e reabilitação da estrada (picada) de acesso à comuna da Equimina. 

O presidente do Conselho de Administração da Lucitur, Manuel João da Fonseca, lembra que parte do investimento é proveniente da banca, já que os capitais próprios não são suficientes, sustentando que as autoridades devem olhar para os benefícios de um projecto estruturante e credível. ‘’Contamos, obviamente, com a participação do Governo, até porque a vila vai potenciar empresas locais, desde a limpeza aos mais complexos serviços’’, revela.  

Nesta altura, anuncia, a empresa procede já à criação de condições para o enquadramento dos clientes, numa resposta à dinâmica de compra que se tem verificado. 

Agarrado ao estudo ambiental, Manuel João despediu-se convicto de que a cidade jardim não vai agredir a natureza, tendo colocado o acento tónico na atracção de investimento para Benguela. 

Também imbuído nesse espírito, o governador provincial, Isaac dos Anjos, fez questão de frisar que outras baías, como as da praia da Lua, da Equimina e da Binga, estão à espera de iniciativas do género. ‘’Desta forma, a nossa costa fica com várias possibilidades de negócios. É óptimo para o empresariado local’’, lembra. 

Em nome do Ministério da Hotelaria e Turismo, o director do Gabinete do Plano, Januário Marra, afirmou que o Elefantes Bay, em execução num ‘’espaço belo e único’’, vai contribuir para o desenvolvimento do turismo em Angola, obedecendo a imposições das linhas orientadoras e da estratégia para até 2025. 

O representante do ministro da Hotelaria assinalou que a diversificação da economia passa pelo sector surgindo o plano operativo como uma bússola para a captação de receitas e promoção do turismo interno. 

 

CRÓNICA DE VIAGEM: À REDESCOBERTA DAS NOSSAS BAÍAS 

Um investimento de dois biliões e 680 milhões de dólares norte-americanos, pouco mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) de Angola, é, sem dúvida alguma, de encher os olhos. Bem mais notório se torna quando analisamos as dificuldades financeiras do momento tal como, de resto, admite o Dr. Manuel João, defensor de empresários com capacidade de ‘‘resiliência’’. 

Esta combinação de factores levou à Baía dos Elefantes, a mais de 100 quilómetros de distância da cidade de Benguela, empresários de diversos ramos de actividade, alguns, para não dizer todos, atentos à cadeia de serviços que a Lucitur promete proporcionar. 

Não passaram despercebidas a nenhum dos passageiros as picadas - que muitos chamam de estradas – de acesso, primeiro, à sede comunal da Equimina, município da Baía Farta. O nível de degradação é de bradar aos céus, contrastando com o cenário paisagístico da região, do qual sobressaem o azul do mar, as montanhas circundantes e outros acidentes geográficos que conformam o belo. 

A degradação das vias de comunicação encontra paralelo só na pobreza de uma população arrojada no arcaísmo da agricultura e da pesca actividades que geram algum rendimento para o prato de lentilha de cada dia, mas não ofuscam o espectro de abandono. 

Muito trabalho de casa, portanto, à espera de Isaac Francisco Maria dos Anjos, o homem que, já na Baía dos Elefantes, percorrido que estava um troço não muito diferente (da Equimina à futura vila turística), puxou dos galões a luta pelo aproveitamento da costa. 

A pensar em outras baías que precisam de deixar o anonimato, como fazemos referência nesta peça, o governador solicitou mais ousadia à classe empresarial, ciente, julgamos, de que terá de oferecer o investimento público a quem pretenda arrastar dinâmica até à sua Benguela.  

Só desta forma, parece consensual, existirão ‘’cópias’’ da Baía dos Elefantes, descoberta, reza a história, no século XIX pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch. 

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