PONTO DE ORDEM

 
5 de June 2021 - às 07:00

OS “MENDIGOS” DA BATALHA DO CUITO CUANAVALE

Foi doloroso ouvir dos generais Francisco Cativa e Mateus André que os seus companheiros não têm tido o devido reconhecimento. Minutos antes, a partir do Memorial erguido para homenagear estes heróis do Cuito Cuanavale, o General “Vietnam, visivelmente entristecido, foi directo e sem curvas: apoiem quem esteve ali a dar o seu contributo!O homem que esteve a comandar as tropas , note-se no terreno, sabe o que diz e é já conhecida a sua entrega nesta luta de valorização dos “seus” homens.

 

No passado dia 23 de Março, mais uma vez estivemos atentos às jornadas comemorativas do Dia de Libertação de África; um dia em que se recorda a memorável Batalha do Cuito Cuanavale, que ditou a derrota do exército invasor sul-africano de forma vergonhosa, a consequente independência da Namíbia, até então anexada pelo regime do apartheid e, um pouco mais tarde, a sua queda estrondosa.


O mundo conhece parte de toda esta história que, pelo menos a sul do Sahara, particularmente na região Austral do continente, mudou radicalmente o quadro geo-político e militar, na altura fortemente enegrecido pelo drama imposto por dois mundos em constante confronto.
Durante cerca de duas horas, se tanto, ouvimos de dois generais-heróis daquela epopeia mais alguns episódios daquela batalha e de outras mil que o país foi capaz de suportar e vencer. No finalzinho do “debate” televisivo promovido pela TPA, a “bomba” explodiu:” cerca de 98% dos mais de 10 mil oficiais e soldados que participaram nesta batalha do Cuito Cuanavale vive na mendicidade!. Sinceramente, não esperava que fossem tantos os heróis esquecidos, mas fica aqui registada esta autêntica investida contra a dignidade destes bravos angolanos.Enfim, ridicularizou-se a trincheira heróis.


Os “mendigos”, aos milhares, estão aí, vivos, com uma vontade enorme de lançar o grito de revolta contra esta autêntica injustiça. Foram eles, ainda muito jovens, chamados à um cenário de guerra jamais imaginado pelos seus familiares. Alguns sabiam que não iriam regressar; muitos não sabiam que trinta e tal anos mais tarde poderiam ser tão espezinhados. Para um militar, descer a esta condição é perigoso, muito perigoso…


Foi doloroso ouvir dos generais Francisco Cativa e Mateus André que os seus companheiros não têm tido o devido reconhecimento. Minutos antes, a partir do Memorial erguido para homenagear estes heróis do Cuito Cuanavale, o General “Vietnam, visivelmente entristecido, foi directo e sem curvas: apoiem quem esteve ali a dar o seu contributo!O homem que esteve a comandar as tropas , note-se no terreno, sabe o que diz e é já conhecida a sua entrega nesta luta de valorização dos “seus” homens.


Nos últimos quatro anos, nota-se que existe uma nova visão governativa, no sentido de se implementar políticas para que eles sejam inseridos na sociedade com a dignidade e a honra que merecem. As promessas que se vão fazendo hoje têm mais probabilidades de ser cumpridas do que num passado recente carregado de hipocrisia e aldrabices mil. Actualmente já se sente um outro clima dentro das forças armadas, capaz de atirar para o lixo da história o silêncio comprado com mordomias, baseado num sistema governativo em que o resultado das riquezas nacionais tinha o destino marcado para os chamados “donos do país” e não para os que o construíram de armas na mão na Batalha que virou o curso da história do país e da região austral do continente.


Que se cumpra então o prometido que já vai velho. Não é muito difícil descobrir quem esteve a adiar os sonhos de uma vida melhor destes heróis do Cuito Cuanavale; quem não foi capaz de zelar pelos interesses do Estado, que também são eles; quem, do alto dos seus tronos cravejados de diamantes, se esqueceu literalmente dos “mendigos” que lhes batem às portas dos seus casarões em busca de uns míseros kwanzas para puderem alimentar os seus filhos, também indignados pela situação em que vivem os seus progenitores, hoje tristemente transformados em inabilitados para fazer parte da história dos verdadeiros heróis da Pátria.

 

Victor Aleixo
victoraleixo12@gmail.com

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