RECADO SOCIAL

 
2 de outubro 2016 - às 06:14

OS HERÓICOS PUTOS DO ANDULO

Há muita vontade das crianças praticarem a modalidade, mas quando toca a maka do equipamento, campos decentes, água higienizada, bolachinhas e sumos, a situação muda radicalmente.

 

Muito recentemente, ouvi o programa “Nova Geração” da Rádio Cinco, muito competentemente  conduzido pelo jornalista Nelson Ventura, com comentários de Weza Fortunato. A temática central gira à volta da “bola ao cesto” e tudo o que se relaciona com a modalidade.A dupla percebe do “mêtier”, e como carta de garantia apresentada aos ouvintes leigos como eu na matéria,  foi a forma como abordaram o quadro actual  do movimento basquebolístico actual angolano, incluindo campeonatos a nível interno e as chorudas transferências dos jogadores( eu nem quero saber dos salários dos contratados pelas “enebiéis”, Benficas de Lisboa, D’Agosto, Libolo e que mais)….

Quanto à massificação que se vai fazendo no país, a coisa esbarra sempre na miséria e, pelos vistos, existem umas mentes insensíveis no meio, apesar de ser uma das modalidades que produziu mais taças e medalhas para o preenchimento da nossa gloriosa e invejável  galeria de troféus conquistados ao longo das últimas décadas.

Há muita vontade das crianças praticarem a modalidade, mas quando toca a maka do equipamento, campos decentes, água higienizada, bolachinhas e sumos, a situação muda radicalmente.Os projectos “científicos” e com gente capaz como o Professor Miguel da Silva “Gi”, Ginguba, Aníbal Moreira, Paulo  Macedo, e muitos, muitos outros espalhados por esta Angola,  esbarram-se com a falta de vontade quase suicida dos que julgam mandar na modalidade. “Julgam” porque pouco ou nada fazem para que a bandeira do país não seja vilipendiada por falta de uns míseros dólares.

Ouvi a abordagem da realização do campeonato nacional da segunda divisão, que por esta altura já deve ter mandado para  trás os benficas do Andulo ou da Catabola, os sportings do Bié ou um bom par de clubes que, no meio deste rodada massificadora, provavelmente terão ficado boquiabertos com as sapatilhas luzidias  e os equipamentos glamourosos das equipas vindas de fora. Então, os rapazes do Andulo não têm os mesmos direitos?Estes, clamam por maiores apoios das administrações locais; essas sim, deviam ser  as entidades competentes para dar uma mão ao futuro daqueles que vivem no interior do país.

No programa “ Nova geração” ouvi umas entrevistas aos agentes formadores e senti muita pena.Lamentável o quadro existente, por exemplo, no Andulo, onde se treina num campo  sem cobertura e com piso de bradar aos céus. Segundo os depoimentos, ainda assim, são às dezenas as crianças que lá aparecem para tentar   transformar  os seus sonhos em realidade.

O Andulo dista cerca de 180 quilómetros da cidade do Kuito, capital da província do Bié, e esta pelo que se sabe, é o território mais ao centro do país, onde nasceu o rio Kwanza, já constituiu-se em celeiro do país e é  rico em diamantes e outros metais preciosos.A localidade tem história, fez a sua própria história e por lá milhares de cidadãos morreram pela Pátria, outros ficaram mutilados para todo o sempre, mas ficaram os filhos; esses mesmos, que se calhar, muitos são órfãos de guerra e querem definitivamente a paz de um recinto de jogo com alguma decência para puderem contornar a delinquência, o crime organizado um pouco por todo o lado.

O que faz a administração do Andulo? Não tem verbas! Disseram. Mas onde é que essa gente mete o dinheiro público? Querem que os putos partam para o garimpo, esta nova “classe” de escravos cada vez mais florescente por aquelas bandas ou que atravessem as fronteiras desta vida indecente sem pão para comer em terrenos férteis?  

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