POLÍTICA

 
8 de maio 2018 - às 11:17

O REGRESSO DE MIALA ACENTUADO O ISOLAMENTO DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS

A nomeação pelo Presidente João Lourenço do General Fernando Garcia Miala ex-director do Serviço de Inteligência Militar, Vice-Ministro do Interior e Director do Serviço de Inteligência Externa SIE) - para o cargo de director do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado foi recebida, ao nível do regime, como um factor adicional de pressão para a retirada política de José Eduardo dos Santos, actual presidente do MPLA, que afastou Fernando Garcia Miala em 2006, numa altura em que este era considerado em alguns meios de "intelligence" como a segunda figura mais relevante ao nível do regime (depois de José Eduardo dos Santos), e fê-lo de forma entendida como particularmente desprestigiante. Fernando Garcia Miala, agora promovido também à patente de general, tomou posse como Chefe do SINSE, em substituição do comissário Eduardo Octávio, depois de ouvido o Conselho de Segurança Nacional

 

O regresso de Fernando Garcia Miala era há muito admitido em meios de "intelligence" angolanos e internacionais. Evitando dar a Fernando Garcia Miala posições de poder efectivo que lhe havia confiado no passado, José Eduardo dos Santos promoveu uma discreta recuperação de Fernando Garcia Miala no final do seu mandato. Entre as missões que lhe confiou estão a contactos internacionais a propósito da RDCongo/ Grandes Lagos, em virtude dos seus laços étnicos bacongo; intercedência junto dos serviços de informação e "intelligence" de França, onde dispõe de uma rede significativa, no sentido de evitar embaraços relativos à apreensão, em 2013, de c. 3 milhões de Euros, cujos portadores afirmaram pertencer a Bento dos Santos "Kamgamba", casado com Avelina Escórcio dos Santos, filha do irmão mais velho de José Eduardo dos Santos, o já falecido Avelino dos Santos. 

O regresso de Fernando Garcia Miala é propiciado pelo afastamento dos generais Hélder Vieira Dias "Kopelipa" e José Maria reformados por João Lourenço, por terem atingido o limite de idade com Fernando Garcia Miala, João Lourenço partilha a aversão a "Kopelipa" e José Maria, com quem rejeitou trabalhar. Durante a campanha eleitoral de 2017, em que "Kopelipa" assumiu um papel central na organização da "máquina" do MPLA, foram conhecidos episódios públicos de tensão entre ambos. Num contexto de crescente pressão para a saída de José Eduardo dos Santos da vida política (AM Intelligence 1125), que o próprio marcou para 2018, a nomeação acentua o isolamento do ex-PR dentro do regime. Fernando Garcia Miala foi aposentado (compulsivamente), preso e acusado de conspiração contra o Presidente José Eduardo dos Santos em 2006. Segundo a versão oficial, de reduzida credibilidade, a conspiração terá envolvido alguns altos funcionários do ANC da África do Sul.

Outra versão, mais credível, é que o desentendimento terá envolvido "Kopelipa", nomeadamente a recolha por Fernando Garcia Miala de elementos compremetedores (chamadas pessoais) deste, a utilizar futuramente para o compremeter. O caso terá sido alimentado também por traços da personalidade de José Eduardo dos Santos, profundamente desconfiada e conspirativa, como forma de conservar o poder e de antecipar problemas. 

A possibilidade de uma conspiração de Fernando Garcia Miala para derrubar José Eduardo dos Santos, invocada para o seu afastamento, é geralmente desvalorizada. Para evitar um cenário de risco, e pressionado por alguns de seus conselheiros mais próximos (principalmente "Kopelipa"), José Eduardo dos Santos decidiu-se pelo afastamento, mas procurou manter Fernando Garcia Miala "à mão", dada a sua boa imagem pública e a vasta informação de Fernando Garcia Miala sobre personalidades do regime. 

José Eduardo dos Santos seguiu de perto o processo de Fernando Garcia Miala, mostrando dar importância ao mesmo e evitando serem-lhe atribuídos sentimentos de ingratidão em relação ao acusado. 

O funcionamento do SIE era considerado eficaz enquanto Fernando Garcia Miala era o director; quando ele saio do serviço e muitos dos seus oficiais mais próximos foram afastados, a qualidade do serviço diminuiu significativamente. Antes da detenção, algum "show-off políticos e social" começaram a perturbar José Eduardo dos Santos e alguns dos maiores apoiantes de José eduardo dos Santos no Exército e no MPLA.

Fernando Garcia Miala terá sobre-estimado o apoio do presidente e da comunidade internacional e a sua capacidade de assumir um papel político de relevo onde poderia, eventualmente, aparecer como um reformador. Uma década antes do afastamento, Kopelipa e Fernando Garcia Miala foram parceiros numa empresa (Simportex) que forneceu ao Exército alimentos e outros suprimentos. Começou sua carreira para-militar na FNLA, depreciando-o entre seus colegas militares. 

Visto como um "jovem turco" pelos pesos pesados do MPLA, Fernando Garcia Miala recebeu até ao seu afastamento amplos poderes de José Eduardo dos Santos. No MPLA, era conhecido como "zairense" (originário do Zaire), "retro" ou "zaza", apelidos ligados à sua origem no norte, sendo reduzida a sua popularidade no partido. A comunidade étnica bacongo em Luanda, bastante influente, também foi muito crítica em relação ao tratamento de José Eduardo dos Santos a um dos seus membros mais influentes. 

Os bakongo, etnia a que Fernando Garcia Miala pertence, são considerados elite na administração pública em Angola, no sistema educacional e na gestão. Devido às suas funções passadas e ao seu envolvimento social, José Eduardo dos Santos revelou não confiar nos bakongo, raramente os promovendo ao nível do Estado e do partido, onde a etnia dominante é kimbundo. José Eduardo dos Santos sempre relevou preferência por negros mestiços em lugares-chave e, a nomeação de Fernando Garcia Miala foi uma excepção. Os mestiços são uma minoria em Angola e socialmente são menos representativos. A sua promoção por José Eduardo dos Santos significa que os mestiços - casos de "Kopelipa" ou de Higino Carneiro - se tornam muito mais dependentes dele e da sua protecção do que outras etnias, como os bakongo. 

Fernando Garcia Miala também é um religioso militante, sendo membro da seita religiosa Tocoísta, fundada por Simão Toco na década de 1950 (semelhante às Testemunhas de Jeová) e frequenta as cerimônias na Igreja Tocoísta em Luanda. O caso que colocou na prisão por quase 3 anos foi construído com ampla cobertura mediática, enquanto forma de afirmação do poder de José Eduardo dos Santos, e exemplo de que todas as promoções e prebendas podem ser facilmente revertidas. Posteriormente, Fernando Garcia Miala dedicou a maior parte do tempo a uma fazenda que possui no Cuanza-Sul, onde começou a produzir vinho com sua própria marca - as suas iniciais, "FM". 

Também lançou um empreendimento agrícola no Uíge, sua província natal. O dinheiro que utilizou para esses investimentos terá sido disponibilizado pelo próprio José Eduardo dos Santos. Nas suas visitas a Luanda, Fernando Garcia Miala encontrava-se frequentemente com José Filomeno ("Zenu") dos Santos, a quem esteve ligado empresarialmente, numa fábrica de peças de motos criada em Ndalatando. 

Os contactos frequentes entre "Zenu" (filho de José Eduardo dos Santos, ex-Presidente do Fundo Soberano de Angola e principal accionista do Banco Kwanza Invest) consistiram numa táctica de José Eduardo dos Santos para manter Fernando Garcia Miala "sob controle", integrando-o nas relações familiares e, de forma limitada e gradual, nas empresas familiares - a que Zenu e Isabel dos Santos se dedicaram nos últimos anos, até à tomada de posse de João Lourenço.

 Em círculos privados, confidenciava que o retorno à vida política activa seria "impossível" enquanto "Kopelipa" e José Maria estivessem no poder.

Adaptado no África Monitor edição nº 50. 

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