CULTURA

 
8 de junho 2017 - às 05:55

O MUNDO DA DANÇA EM ANGOLA: ANA CLARA GUERRA MARQUES DEFENDE EDUCAÇÃO ARTÍSTICA DA SOCIEDADE

Bailarina, coreógrafa, professora e investigadora começou a construir, há décadas, uma tradição de dança contemporânea em Angola. Directora da Companhia de Dança Contemporânea, Ana Clara Guerra Marques considera fundamental a acção de educação artística da sociedade, um desiderato que deve ser consertado através de programas conjuntos entre os Ministérios da Educação e da Cultura

 

A especialista, que falava em torno do Dia Mundial da Dança assinalado a 29 de Abril, afirma que de contrário se continuará a ter uma sociedade incapaz de comparar e detectar a qualidade e o valor artístico do que consome.

“Infelizmente, aquilo a que temos acesso é geralmente de baixa qualidade. Como resultado verifica-se a enorme dificuldade em distinguir arte de entretenimento, já que não existe uma noção concreta ou até uma discussão sobre o conceito de arte”, acrescentou.

Para Ana Clara Guerra Marques é também fundamental que os promotores de espectáculos e os midia diversifiquem as suas ofertas e não promovam a “mediocridade” que, tantas vezes raia a obscenidade e a vulgaridade.

“Há que mudar as mentalidades e abrir os horizontes! É preciso mostrar, fazer, convidar, promover a qualidade.

Massificar a informação sobre o que é realmente arte. Dar às pessoas a liberdade e a possibilidade de ver o mais possível para que eduquem o seu gosto e o seu sentido estético. Promover e apoiar os que desenvolvem este trabalho em Angola e convidar companhias de dança africanas, europeias, americanas e de todo o mundo. É preciso diversificar os convites a artistas estrangeiros, abrindo as portas à dança cénica”, defende.

Para a professora, o futuro da dança em Angola só será brilhante com a alavanca de escolas que assumam uma formação profissional séria e profunda, uma escola enquanto lugar privilegiado de aprendizagem e intercâmbio, que fosse um viveiro artístico e um lugar onde se desenvolvessem capacidades e autonomias criativas e críticas.

Ana Clara Guerra Marques afirma que sempre pensou e continua a pensar numa escola de conteúdos diversificados como principal estímulo à experimentação, à descoberta e à reflexão, uma escola que permita a oportunidade de evoluir através da partilha e do contacto com outras linguagens, com outras disciplinas artísticas e com outros espaços comunitários.

Para a criadora, o futuro só será brilhante se, em paralelo, houver empenho num vasto movimento de divulgação de espectáculos rigorosamente produzidos e com qualidade artística e técnica.

A professora adianta que assim como se dá educação cívica nas escolas, também se deveria dar educação artística, a qual não deveria ficar-se pelas crianças, mas que se deveria estender a toda a sociedade.

Numa abordagem sobre o actual estado do mundo da dança no país, Ana Clara Guerra Marques frisa que é fundamental um olhar para o passado, por se estar a falar de um processo que envolve diversos actores e diversos momentos cronológicos que se vão relacionando de acordo com as diferentes dinâmicas sociais e políticas do país.

Numa visão crítica e analítica, mas com esperança num futuro melhor, diz que longe de ser resolvido, a questão da formação continua a ser um problema, embora logo no início de 1976, o Secretário de Estado da Cultura, o escritor António Jacinto tenha aberto as escolas de dança (à qual se deve o facto de hoje se falar em dança moderna, clássica e contemporânea), de música, de teatro e de artes plásticas. “Infelizmente, com o passar dos anos, o ensino artístico deixou de ser uma prioridade, quer pela atenção canalizada para a segurança de um país em guerra, quer pela falta de consciência relativamente à importância das Artes para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Basta olharmos para a nossa realidade e para a fraca produção artística, para percebermos as consequências como a ténue presença da chamada criação de autor ou ausência de um movimento artístico consciente e intelectual, como existe na literatura ou nas artes plásticas, onde o progresso é visível, justamente porque esta foi a única escola que se manteve activa com um ensino médio regular.

Mas não estamos a fazer progressos. Recentemente foram reduzidas a um único instituto as Escolas Médias de Dança, de Música, de Teatro e de Artes Plásticas, o que representa um recuo, e foi aberto um Instituto Superior de Artes que funciona de forma alheia àquilo que deveria ser um plano estratégico de formação artística que se quer transversal e delineado a três níveis (elementar, médio e superior), num exercício de cooperação entre os Ministérios da Cultura, da Educação e do Ensino Superior”.

Adianta que as dificuldades nesta área irão continuar a menos que seja criado um Subsistema para o Ensino Artístico na Lei de Bases da Educação e constituído um quadro docente competente para defender e sustentar o modelo certo. “Não é com acções pontuais sem controlo de qualidade e que só servem para alimentar vaidades de estrelas arrivistas que necessitam destas urgências da demagogia para conseguirem brilhar, que vamos evoluir. A qualidade faz-se com uma estratégia que começa por lançar alicerces profundos para resultados sólidos e duradouros, o que é possível, mas não vai ser fácil pois, para além de não existir uma estratégia clara, o nosso terreno social é demasiado conservador e marcado por uma enorme falta de referências.

É urgente um trabalho de educação massivo que não foi feito durante todos estes anos. A acção de educação artística da sociedade é fundamental e deveria ser concertada através de programas conjuntos entre os Ministérios da Educação e da Cultura, tomando como parceiros para a implementação dos mesmos, os diversos agentes culturais. De contrário, continuaremos a ter uma sociedade incapaz de comparar e detectar a qualidade e o valor artístico do que consome. Infelizmente, aquilo a que temos acesso é, geralmente de baixa qualidade”.

 

O seu ponto de vista das coisas - Como resultado, verifica-se a enorme dificuldade em distinguir arte de entretenimento, já que não existe uma noção concreta ou até uma discussão sobre o conceito de Arte. Também é fundamental que os promotores de espectáculos e os media diversifiquem as suas ofertas e não promovam a “mediocridade” que, tantas vezes raia a obscenidade e a vulgaridade. Assim…. Não vamos lá!...

Também me parece fundamental que se abandone um certo espírito baralhado que defende o progresso a todos os níveis menos na cultura. Porquê? Para a dança prefere-se alimentar a imagem construída pelo Ocidente de uma África “selvagem”, de tambores eternos. E a dança em Angola está completamente cativa deste efeito conservador. Na música angolana vai havendo liberdade para o Rap, para o R&B, para o rock, para a cançoneta romântica, no teatro também se tratam temas actuais de Angola e do mundo e encenam-se peças de dramaturgos não angolanos; nas artes plásticas o terreno tem sido fértil para a inovação e na literatura os nossos escritores aventuram-se por temas de ficção que transcendem largamente a literatura oral tradicional. Na dança, o trabalho inovador da CDC Angola, por exemplo, não é reconhecido como “nosso” (conceito que também sofre de imprecisão). E o mais grave é que existe uma camada jovem que já pensa assim. É imperativo que se abandone este juízo que é contra o progresso e o desenvolvimento. Os artistas não são objectos de lazer. Eles pensam e acompanham, reflectem e inspiram as transformações sociais.

Há que mudar as mentalidades e abrir os horizontes! É preciso mostrar, fazer, convidar, promover a qualidade! Massificar a informação sobre o que é, realmente arte. Dar às pessoas a liberdade e a possibilidade de ver o mais possível para que eduquem o seu gosto e o seu sentido estético. Promover e apoiar os que desenvolvem este trabalho em Angola e convidar companhias de dança africanas, europeias, americanas e de todo o mundo. É preciso diversificar os convites a artistas estrangeiros, abrindo as portas à dança cénica.

Se não educarmos o público ele nunca vai querer ir além das manifestações básicas a que nos habituaram durante estes anos todos. Angola está a crescer! E esse crescimento deve estender-se às artes. Temos de sair do nosso mundinho mesquinho. Temos de alargar os nossos horizontes, abrir ao universal. A arte não se encurrala em fronteiras, nem em complexos, nem se condiciona a questões políticas. A arte tem de ser partilhada, está no génio de cada um, no coração dos artistas e é livre! Assim como gostamos que a nossa cultura agrade fora de portas, também aos artistas de outras geografias agrada que nós os conheçamos. Mas nós só pensamos na “internacionalização da cultura” numa perspectiva egoísta e unilateral; os outros têm de gostar de nós, mas nós não precisamos de conhecer os outros. Está errado! Enquanto andarmos à volta do nosso umbigo seremos sempre minúsculos.

Os movimentos amadores são importantes, mas não é com a “boa vontade” dos curiosos que vamos desenvolver as artes e, em particular, a dança cénica, em Angola. A verdade é que, ao contrário do que muitos pensam, a dança não está no sangue de ninguém nem de nenhuma cultura específica. A dança é uma área de saber académico e científico que exige uma formação rigorosa para aqueles que se querem tornar profissionais. E temos que parar de “brincar aos bailarinos e aos coreógrafos”! Fazer-se “passar por” é grave, é crime! Só pode usar este título quem estudou para isso! É como na medicina, na arquitectura, na engenharia e em todas as outras áreas de saber. Temos de estar atentos aos perigos e às consequências das prestações destes falsos profissionais, cujo número é crescente e com sequelas já à vista.

É lamentável que, 40 anos depois, não só não temos uma consciência de classe de profissionais da dança como também não criamos um público mais informado e receptivo a outras propostas para a dança. O que se apresenta nas estações de televisão, nos espectáculos de variedades e nas festarolas das escolas, creches e outras instituições que têm à sua responsabilidade a educação de crianças e jovens, mostram bem o cenário assustador que contraria todos os princípios do que é a dança enquanto arte e mesmo enquanto recreação.

Os poucos profissionais sérios com experiência que temos no nosso país, vêm-se hoje quase impotentes perante a onda de banalidade e a falta de humildade que está na origem do recrudescimento da alguma qualidade que se havia conseguido.

O futuro da dança em Angola só será brilhante com a alavanca de escolas que assumam uma formação profissional séria e profunda; uma escola enquanto lugar privilegiado de aprendizagem e intercâmbio; uma Escola como a que pensámos nos primeiros anos da independência, que fosse um viveiro artístico e um lugar onde se desenvolvessem capacidades e autonomias criativas e críticas. Sempre pensei e continuo a pensar numa Escola de conteúdos diversificados como principal estímulo à experimentação, à descoberta e à reflexão; uma Escola que permita a oportunidade de evoluir através da partilha e do contacto com outras linguagens, com outras disciplinas artísticas e com outros espaços comunitários.

O futuro da nossa sociedade só será brilhante se, em paralelo, nos empenharmos num vasto movimento de divulgação de espectáculos rigorosamente produzidos e com qualidade artística e técnica. Assim como se dá educação cívica nas escolas, também se deveria dar educação artística, a qual não deveria ficar-se pelas crianças, mas que se deveria estender a toda a sociedade.

 

História Artística - Em 1991 funda a Companhia de Dança Contemporânea de Angola .

Dentre as suas obras, com as quais introduz novas formas e conceitos de espectáculo, figuram Corpusnágua; Solidão; 1 Morto & os Vivos e 5 Estátuas para Masongi, para as quais trabalha em conjunto com alguns dos mais reconhecidos escritores, pintores e escultores angolanos, entre os quais Manuel Rui Monteiro, Pepetela, F. Ningi, J. Gumbe, Van-Dúnem e A. Ole.

A crítica social é outra das opções desta coreógrafa angolana que perspectiva a dança como um poderoso instrumento de intervenção. Em Mea Culpa; Palmas, Por Favor!; Neste País...; Agora não dá! ‘Tou a Bumbar... e Os Quadros do Verso Vetusto, esta coreógrafa assume a sua irreverência e crítica social.

Numa diversificação das linguagens da dança, baseia-se num trabalho pessoal de estudo e pesquisa sobre danças tradicionais e populares de Angola, assim como da estatuária, utilizando os elementos recolhidos para a criação de uma linguagem própria e contemporânea para a dança angolana, que experimenta em obras como A Propósito de Lueji; Imagem & Movimento ou Uma frase qualquer... & Outras (frases).

 

Intervenções coreográficas em eventos culturais: - Corpusnágua (1992 / Cerimónia de atribuição do “prémio ENSA” de pintura) Solidão (1992 / Inauguração da exposição do pintor Zan de Andrade) 1 morto e os vivos (1992 / Lançamento do livro do escritor Manuel Rui Monteiro) 5 estátuas para Masongi (1993 / Inauguração da exposição do escultor Masongi Afonso) Intervenção coreográfica (1994 / Lançamento do livro “os címbalos dos mudos”, do escritor Frederico Ningi) Intervenção coreográfica (1995 / Inauguração da exposição “introversão versus extroversão”, do pintor Francisco Van-Dúnen) Oratura… Dos Ogros… E do Fantástico (2008 / Exposição do pintor Mário Tendinha)

Ana Clara Guerra Marques teve à sua responsabilidade a coordenação coreográfica dos espectáculos de abertura e encerramento do Taça Africana das Nações Orange (CAN-Angola) em 2010.

Ana Clara Guerra Marques é Mestre em Performance Artística – Dança e membro individual do CID (Centro Internacional da Dança) da UNESCO. É a única investigadora a trabalhar sobre as danças de máscaras do povo Cokwe de Angola. Para além da introdução da dança contemporânea em Angola, a ela se deve a introdução da dança inclusiva neste país com as peças das temporadas de 2009 e 2011 da CDC Angola. 

 

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