PAÍS

 
29 de julho 2017 - às 07:05

O DIA SEGUINTE À ESTRONDOSA MUDANÇA EM BENGUELA

Décimo segundo governador no pós-independência, Rui Falcão chega ciente de que terá de mudar Benguela sem perder de vista as limitações do país. Ouviu o seu antecessor dizer que será necessário mobilizar recursos financeiros para tantos projectos à espera do tiro de largada 

 

 FALCÃO NA "METRÓPOLE" DOS ANJOS SEM GARANTIAS DE DINHEIRO

Tão surpreendente quanto esperada, a exoneração de Isaac Francisco Maria dos Anjos do cargo de governador de Benguela continua, várias semanas depois, a suscitar comentários desencontrados em relação às causas, com a opinião pública ainda longe da análise dos desafios de Rui Falcão Pinto de Andrade numa província que regrediu em diversos domínios por força da queda de receitas. 

Do Namibe para o segundo parque industrial de Angola, só suplantado por Luanda em termos de volume de investimentos, Falcão será confrontado com o projecto metropolitano que prevê a construção de uma auto-estrada para ligar as quatro cidades do litoral. 

Escusado será dizer, até pelos pronunciamentos do cérebro desta iniciativa, um homem que não tenciona ver engavetadas as suas obras, que o novo governador terá de efectuar engenharias que permitam atrair o sector privado mediante infra-estruturas de apoio ao investimento. 

Na urbanização Biópio/Culango (Cabrais), onde se encontram as vítimas das enxurradas de Março de 2015, deverá nascer uma zona económica especial com mais de duas mil empresas, conforme indicam as metas. A zona, ainda à espera de redes técnicas para energia, água, saneamento e telecomunicações, para não falar de um ambiente de negócios purificado, pode gerar três mil empregos, metade da cifra estabelecida para o conjunto de acções programadas para Benguela, Lobito, Catumbela e Baía Farta. 

Trata-se, pelo menos aos olhos de quem a concebeu, de uma iniciativa digna de realce, mas, como facilmente se pode observar, insuficiente para entusiasmar logo à primeira vista o dirigente que acaba de receber a papelada. ‘’Primeiro, meus senhores, tenho de estudar o projecto, não posso falar do que não vi. Já ouvi falar dele, tenho de analisar’’, afirmou Rui Falcão, pronto para ‘’trabalhar em equipa’’, nem que seja com os jogadores eleitos pelo seu antecessor. 

Na hora do adeus, o governador cessante, defensor do endividamento como mecanismo para a infra-estruturação do país, ainda que especialistas questionem a sustentabilidade da dívida face ao PIB, garante que deixa bases para a indústria, turismo, agro-negócio, pescas e outros sectores da chamada economia real. 

Apontou, ainda antes da entrega de propostas para protocolos de geminação com cidades europeias e asiáticas, o plano de ornamento territorial e urbanístico como antecâmara para os mais de dois mil projectos, alguns em áreas sociais como a educação e a saúde. ‘’A grandeza de muitos destes projectos foi atingida considerando não apenas o crescimento da população urbana, mas também a necessidade de emprego para os jovens e de melhorar o nível de vida da população. Por isso é que um grande esforço para mobilizar recursos terá de ser feito, até para manter a esperança de um futuro risonho’’, salienta Dos Anjos. 

A cidade de todos os sonhos - A Cidade do Sal (CS), delineada para cinquenta produtores, e o Blue Ocean, para casas de alto padrão e valências que podem atrair o investimento, são dois projectos recuperados na era de Isaac dos Anjos, com o primeiro a dar passos mais consistentes. 

Referenciada em todas as cerimónias de apresentação dos programas de desenvolvimento para até 2022, inclusive na presença de operadores estrangeiros, a CS, situada na localidade do Chamume, município da Baía Farta, tem potencial para proporcionar ao país 2 milhões de toneladas por ano. A área, já com unidades industriais e mecanizadas, estando uma a pensar em fábrica de saco de ráfia e laboratório para análise da qualidade do produto, é de 22 mil hectares. 

O programa do Ministério das Pescas indica que a produção nacional anda na casa das 250 mil toneladas de sal, cifra insuficiente para o regresso ao mercado das exportações, de onde Angola saiu há vários anos. 

Na Cidade do Sal, com iniciativas que podem absorver investimentos entre 25 e 30 milhões de dólares norte-americanos, deverá, indicam as projecções, haver espaço para a prática da agricultura através da água do mar. 

Mais abaixo, na vila turística da Baía Azul, está o Blue Ocean, um projecto na mira de cidadãos que adquiriram já os dois mil lotes de terrenos disponíveis, estando à espera de infra-estruturas que deverão custar largos milhões de dólares. 

Há três anos, naquela que foi a primeira imagem de marca, Dos Anjos conseguiu levar água ao Cavaco, que deverá albergar um total de trezentas empresas. 

Paralelamente a esta obra, com raízes no complexo hídrico do Dungo, foram reabilitadas as vias de acesso ao vale agrícola com tradição na produção de banana, ainda sem electricidade. 

A energia, tanto para o consumo doméstico como para o empresarial, foi, aliás, um problema visível na gestão do Eng.º agrónomo, a par dos solavancos, bem na ponta final, na distribuição de água. 

Complementam o enguiço, o débil saneamento básico, a degradação no funcionamento dos hospitais, buracos nas vias rodoviárias das principais cidades e outras insuficiências associadas à falta de recursos. 

 

Eleições e verdades impróprias para consumo - É verdade que, tal como confidenciam fontes bem posicionadas, Isaac dos Anjos via o chão fugir-lhe dos pés a uma velocidade de cruzeiro, mas esperava conduzir os destinos da província até às eleições. 

Numa curta declaração à Voz da América, quando se falava em comissão de gestão para Benguela, afirmou que estava cheio de vontade de trabalhar para uma vitória eleitoral. À falta de uma versão oficial, negada pelo ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa, prevalece a informação segundo a qual a frontalidade na abordagem de temas actuais, contrária à posição de um MPLA às avessas com as liberdades, acelerou a exoneração. 

Em causa, para recordar, estão as ‘’bocas’’ de um membro do Bureau Político que critica a política de cobrança de impostos da Administração Geral Tributária (AGT), acusando-a de ‘’atrofiar o pouco resíduo empresarial’’. 

Na mesma ocasião, já com os problemas no Comité Provincial em voga, declarou que os militantes do seu partido, enquanto cidadãos que sofrem, não deviam ter medo de debater aspectos como a falta de luz, água e mau saneamento do meio. 

Dos Anjos lamenta, de resto, que problemas como estes, resultantes da crise financeira, estejam a fazer morada nas principais cidades em época eleitoral. 

Fiel aos seus ideais, não hesitou em assumir que ‘’somos uma vergonha porque importamos tudo, até palitos para os dentes’’, numa altura em que o discurso da diversificação da economia avançava em força para a agenda nacional. 

A cronologia Isaac dos Anjos no seu melhor não podia terminar sem uma referência ao facto de ter sido o único governador a autorizar uma manifestação do auto-proclamado Movimento Revolucionário e, na vertente desportiva, a criticar, recentemente, a construção de estádios sem um plano para a manutenção. 

Num comentário sobre a mudança operada em Benguela, o activista Júlio Lofa, observador atento à política, acha que é uma situação constrangedora, mas ressalta que o MPLA tem a favor a cultura do eleitorado. ‘’Infelizmente, não se vota em programas, vota-se em partidos. Não acho que o novo governador consiga mudar muita coisa em pouco tempo’’, argumenta o membro da Associação Juvenil para Solidariedade (AJS). 

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