DOSSIER

 
23 de dezembro 2015 - às 07:39

O CALIFADO DO FASCISMO

O ISIS - a nova vaga do fascismo islâmico - é uma consequência das dinâmicas geradas no mundo islâmico pela ocupação do Iraque. Logo após a ocupação formaram-se diversos grupos de resistência e de luta armada, entre eles a Jamaa al Tawhid wal-Jihad, um grupo surgido em 1999 e que formou a Al-Qaeda no Iraque, unindo-se mais tarde ao Conselho dos Mujaidines, formando em 2006 o Estado Islâmico do Iraque, dirigido por altos-oficiais, sunitas, da Segurança, do Partido Baas e do exército do regime de Sadam Hussein

 

Milhares de iraquianos foram detidos em cárceres secretos, onde eram torturados. Muitos desapareciam para sempre, outros reapareciam, amargurados e endurecidos pelas torturas e humilhações, tornando-se extremamente ligados à religião e à interpretação sunita do Islão. A ocupação norte-americana desarticulou o exército iraquiano, criminalizou o Partido Baas e integrou as milícias do partido nas novas forças de segurança, para lutar contra a resistência. Fomentaram-se as divisões - numa política de “dividir para reinar”- entre sunitas e xiitas, utilizando o sectarismo como base da nova estratégia de combate à resistência.

Os esquadrões da morte formados pelos norte-americanos e pelos britânicos prenderam milhares de jovens sunitas, muitos dos quais eram assassinados, sendo os seus cadáveres abandonados nas ruas de Bagdad. Centenas de milhares de famílias abandonaram o país e mais de 5 milhões de iraquianos converteram-se em refugiados, instalando-se metade deles na Síria. Em pouco tempo o Iraque, um país tradicionalmente caracterizado pela excelente relação entre sunitas e xiitas, onde um elevado número de matrimónios eram mistos, um país sem tensões sectárias, tornou-se um inferno.

Muitos dos oficiais de Sadam e muitos quadros do Partido Baas, compartilharam as celas com membros de grupos religiosos em vias de radicalização. Abu Baker Al-Bagdadi, que em 2010 assumiria a liderança do Estado Islâmico do Iraque (ISIL ou Daesh) foi detido pelos norte-americanos em 2004 e enviado para o campo Bucca, local conhecido pelas torturas e humilhações a que os prisioneiros eram sujeitos pelos norte-americanos. Por este campo de concentração passaram muitos dos actuais responsáveis do Daesh, tendo muitos deles adquirido aí o seu primeiro contacto com o wahabismo, a doutrina islâmica, sunita, dominante na Arábia Saudita.

Em 2011 o Estado Islâmico do Iraque enviou uma delegação à Síria, lançando as sementes do futuro Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL ou Daesh), formado em 2013. Em menos de um ano as fileiras do ISIL foram engrossadas por milhares de mercenários chechenos, bósnios, muçulmanos provenientes dos Balcãs, do Norte de África e da Ásia, bem equipados e com bons níveis de treinamento e o ISIL tomou várias cidades iraquianas, sem qualquer resistência, enquanto proclamava o Califado Islâmico do Iraque e do Levante, um espaço similar ao da Jordânia.

USA e NATO, Israel, Turquia e as petro-monarquias do Golfo viram no ISIL uma potencial arma contra o Irão. Através do ISIL mantiveram governo de maioria xiita no Iraque em profunda instabilidade, desestabilizaram a Síria e Israel manteve o Hezbollah ocupado em Damasco. A Turquia viu no ISIL uma forma de deter os curdos e permitiu que o ISIS vendesse, em solo turco, petróleo roubado à Síria, uma das maiores formas de financiamento dos grupos fascistas islâmicos. Os USA, a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos bombardeiam o Iémen, cultivando o fascismo com a morte de milhares de pessoas através dos bombardeamentos indiscriminados, numa tentativa de debilitar os xiitas iemenitas.

O colonialismo no Médio-Oriente e as ingerências sucessivas dos USA e seus aliados da NATO – como o golpe de Estado fomentado pela CIA no Irão contra o governo democrático de Mossadeq ou o apartheid sionista e os crimes perpetrados na Palestina, ou, ainda, as tentativas de desestabilização da região do Magreb, no Norte de África – são causas históricas do enraizamento do fascismo islâmico, que nasce nos finais dos anos 70, com o apoio dos USA, da NATO e dos conservadores islâmicos (as monarquias do Golfo e a Turquia) para combater a influência das forças progressistas, nacionalistas laicas que dominaram o mundo politico islâmico nos anos 60 e grande parte da década de 70.

Com a guerra do Afeganistão, as organizações integristas islâmicas receberam financiamentos diversos, armas e equipamentos para combater a URSS em solo afegão. No Egipto surgem grupos como a Jihad Islâmica e na Argélia, a Frente Islâmica de Salvação Nacional (FIS), que integrava diversos grupos da direita ultraconservadora islâmica) ganhou as eleições. Um golpe militar acabou com as ilusões dos integristas argelinos e grupos fascistas como o GIA (Grupo Islâmico Armado) fazem a sua aparição. As redes fascistas islâmicas começam a ganhar peso e a Al-Qaeda estabelece-se como o protótipo de actuação e de organização destes sectores islâmicos, apoiados pelo Ocidente e pelas monarquias do Golfo. A ocupação do Iraque em 2003 e a ocupação do Afeganistão em 2011 provocaram o alimento que estas forças necessitavam.

Não estamos na presença de nenhum “choque civilizacional”, como algumas corujas da mitologia Ocidental pretendem impor à opinião pública mundial, nem de qualquer “guerra de culturas”, ou, mesmo, de “guerras religiosas” (coisa que não existe. As guerras são sempre sociais, económicas e politicas). O Islão não é menos nem mais violento que o Cristianismo e os grupos fascistas islâmicos utilizam um discurso que em nada difere dos seus congéneres cristãos ocidentais. A violência extrema que é exercida em nome do Islão não tem origem em nenhum ADN conatural a uma religião, como pretendem alguns “fazedores de opinião” nas tertúlias pestilentas das redes sociais, ou nos monólogos intermináveis da máquina de propaganda conhecida por “comunicação social”.  

In "Página Global"

 

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