SOCIEDADE

 
26 de dezembro 2016 - às 07:42

O AVESSO DA POBREZA

Na opinião do músico Kalaf “pior do que não ter dinheiro, é não ter um esquema para remediar a situação”. Esta imagem traduz a essência do avesso da nossa pobreza. A igualdade em Angola acontece sempre na insuficiência. Porque no final do dia ricos e pobres enfrentam as mesmas dificuldades básicas. A mesma falta de sentido do minúsculo investimento que se foi fazendo no sector da saúde em tempo de bonança obriga todos os cidadãos que amam a sua vida e dos seus familiares a procurem um esquema de salvação, seja aqui para os que têm menos, desenrascando-se com todos os meios ao seu alcance juntando a família e as preces ou no caso da elite abastada recorrendo às clinicas e hospitais de renome no estrangeiro. Na falta de aviso da avaria da bomba de água, os ricos nas suas casas de banho faraónicas atulhadas de mármore italiano tornam-se iguais ao pobre na humilhação de um banho de caneca. No mesmo espaço de insegurança face ao aumento da criminalidade, devido ao desemprego que se está a tornar geométrico e à precariedade do acesso a uma escolaridade universal que promova qualidade de vida para a maioria,  ricos e pobres vivem ansiosos e correm os mesmos riscos, sobretudo na via pública, de serem alvo de um crime, assalto ou outro tipo de violação da sua integridade física. A mortalidade infantil, dor que não termina no coração dos pais que perdem um filho vitima de malária ou de outra doença traiçoeira promovida pela negligência institucional, que não consegue resolver problemas básicos como o lixo, o saneamento ou a água potável, não atinge apenas o menino pobre. Os filhos dos ricos sempre que saem da sua bolha de conforto estão expostos às mesmas condições de falta de salubridade de um meio nauseabundo, infestado de mosquitos, onde independentemente do dinheiro que os pais possam ter podem morrer  de raiva por ausência de vacina

 

Nesta perspectiva quantos pobres há em Angola? 

Somos sim um país pobre, com gente pobre em todos os sentidos. Pobres materiais e pobres de espírito. Os primeiros, que são a maioria da população, têm a minha solidariedade e respeito e já nem faz sentido aprofundar o nível da sua pobreza porque quando um cidadão vive sem dignidade ele vive derrotado, humilhado e sem esperança. E não vale a pena fingir que não vemos o que se passa. Não é justo que estejamos a esconder os pobres para que não nos embaciem as vistas. Não é patriótico tratar os pobres com normalidade porque nasceram assim e porque já estão habituados podem ser desterrados para a Quiçama, abandonados sem nada e sem que o seu país se importe com isso ou que o respeito pelo seu voto seja capaz de lhe garantir direitos inalienáveis. Os segundos têm a minha indignação. Porque representam tudo aquilo que é pernicioso, hipócrita e que ninguém merece. Falo dos falsos profetas das igrejas partidarizadas, que em nome de uma ambição própria,  arrastam os seus fieis crentes para a mentira, falando dos símbolos partidários como sendo símbolos de origem divina. Falo dos “tudólogos”, alguns académicos, jornalistas e políticos que se fazem passar por “defensores” do povo, que vomitam em cima da nossa cidadania uma verdade eivada de conotações perigosas e atentatórias à nossa condição de eleitores e contribuintes. Falo de deputados que na fome mandam o povo “comer bifes de atum”, de juristas que ascenderam a cargos  públicos e dizem que a “falta de luz deve ser entendida e não criticada porque sempre “temos” geradores e ninguém morre por isso”, esquecendo-se que todos os dias morre gente nos bairros por incêndios provocados pela indubitável falta de qualidade dos geradores que podem comprar e pelo uso excessivo de velas. Falo do cabritismo, dos governantes empresários, da excessiva gordura de todos os conselhos de administração das empresas públicas e bancos onde o Estado é parceiro. Falo de pessoas que deixaram de se importar com o outro e que teimam em defender que não há pobres em Angola afirmando que o que há é um grupo de pessoas mal agradecidas que não entendem quão valioso é o esforço de governação empreendido e por isso não reconhecem tudo de bom que lhes acontece, a exemplo do acesso a mais um chafariz.

Falo de uma Angola que, apesar de ter um lado lindo, arejado, com jardins e com piscinas olímpicas nas mansões dos condomínios, lado onde vivemos nós, a minoriazinha que tem acesso à luz ininterrupta para conservar na geleira os queijos da serra e o fiambre de peru, que podemos pagar as clinicas privadas para salvarmos os nossos filhos, que temos sonhos porque podemos comprar cultura e que viajamos para "desanuviar" a alma quando a visão dos pobres se torna demasiado incómoda, como dizem muitos dos "patriotas hipócritas" quando nos "encontramos" nos aeroportos deste mundo. Mas quantos somos? Quantos destes abençoados pela sorte que vivem no lado bonito partilham, dividem, ajudam, transformam desgraças em sonhos, por acreditarem neste país e por amarem o seu povo. As maiores criticas ao estado do país, das suas insuficiências e incoerências  nascem em surdina dentro deste segmento da sociedade, dos que têm mais,  que reclamam por tudo e por nada e nunca estão satisfeitos. Dos que dizem que acreditam em Angola, mas depositam o seu dinheiro no estrangeiro. Dos que não empregam bábás angolanas porque dizem que elas são burras e falam mal português preferindo as asiáticas que trazem como mais valia a língua inglesa. Dos que se esqueceram do tempo em já foram pobres e por isso os familiares que não têm viabilidade económica não são sequer convidados. São estas pessoas que ficam indignadas quando falamos da pobreza. São estas as pessoas que têm uma vida folgada em vários países do mundo “just in case”. São estas pessoas que perderam os principais méritos cristãos, fraternidade, bondade e solidariedade, não obstante irem à igreja todos os fins de semana. Pessoas que não souberam educar os filhos, que esfregam as suas fortunas na cara dos amigos, que são arrogantes e destroem vidas em nome do poder que acreditam que têm. Isto é ou não é pobreza? Mia Couto tem razão quando diz que “o mal dos países pobres é que em vez de criarem riqueza, criam ricos”. Mas estes só têm mesmo dinheiro, faltam-lhes outros predicados para poderem ser pessoas. Faltam-lhes afectos, generosidade, compaixão e utilidade.

Os pobres porque são humildes e não têm nem esperança, nem ninguém que os valha, arregaçaram as mangas e deixaram de se lamentar, porque o que importa mesmo nesta vida é pôr comida em cima da mesa todos os dias. O resto é resto. E são estas pessoas a quem só se dá importância quando se olha para as estatísticas e em campanha eleitoral, que suportam este país nos ombros. Que limpam as ruas e que retiram o lixo sem qualquer respeito pela sua segurança e com um salário da treta. São eles que vendem e compram fazendo rolar a economia informal responsável pela criação de milhares de “empregos” sem os quais o nível pobreza seria ainda muito maior e ainda assim são tratados como se fossem delinquentes. São os que têm menos que mais trabalham. São eles que plantam a maioria do que comemos, que asseguram os transportes públicos terrestres, que são responsáveis pela parte mais dura de todos os empreendimentos de construção civil, que saem todas as noites em barcaças traiçoeiras e enfrentam o mar trazendo a cada dia o único peixe fresco que temos acesso. E no fim são eles que são escorraçados, inferiorizados e veem os seus direitos humanos quotidianamente negados. Mas é aqui que reside a força de qualquer sociedade e a única capaz de promover o desenvolvimento dos países quando é acarinhada e promovida.

Os nossos números são sempre enormes e são do domínio público, onde aparecemos com as taxas mais baixas na maioria dos índices que olham para o nosso desenvolvimento humano e progresso social. Mas pior dos que os números é a miopia do Executivo que vê o país da Alice onde tudo esta uma maravilha, quando nem sequer conseguiu atingir um único objectivo do milénio, quando promete e não cumpre, quando aprova obras que não são prioritárias, quando romanceia a realidade e não nos diz quão profundo é o buraco em que nos encontramos.  

Há uma dose preocupante de ausência de humildade institucional para reconhecer que a maioria das políticas públicas estruturantes têm falhado e a culpa morre sozinha. Falta coerência para assumir os erros. Falta ética para acabar com a corrupção. Falta um governo que olhe para as criticas não como um atentado à sua integridade, mas como uma bússola para que se sintonize e corrija o que está mal, para que de forma solidária nos possamos associar à missão de salvar o país e que não lance para o debate defensores sem crédito e sem conteúdo moral face à quantidade de mentiras e distorções que produzem todos os dias, muito mais preocupados com as suas agendas do que com a felicidade deste povo generoso.

Temos que ser capazes de olhar para Angola com amor. Só desta forma vão surgir projectos que dignifiquem e promovam o Angolano em vez de promoverem apenas o poder o lucro e a "primitiva" acumulação de riqueza. É o país que tem que ser uma prioridade e não a militância ou a desunião porque há quem pense diferente. Não é contra Angola que nos levantamos porque tivemos a graça de nascer num País generoso em todos os sentidos, por isso o amamos e somos agradecidos todos os dias. Levantamo-nos sim contra a governação de quem acha que ainda faz sentido uma gestão sem qualquer eficácia e sem amor ao próximo. Angola é do POVO, não é dos políticos, nem dos partidos! E a maioria do POVO está na miséria em todos os sentidos. 

 

(Pena livre é uma rubrica onde figuras da sociedade exprimem livremente a sua opinião quando convidados pela revista.) 

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