REPORTAGEM

 
2 de setembro 2016 - às 07:04

O APELO À PRODUÇÃO INTERNA: EXPORTAR SEM ESQUECER O COMPROMISSO NACIONAL

Benguela, com vestígios de uma indústria que chegou a exportar conserva para os Estados Unidos da América mesmo depois da Independência, quando ainda se fabricavam embarcações, emite sinais de que o regresso aos altos voos não deve distrair a luta pela marca nacional. 

Especialistas lembram que o país não soube tirar proveito do chamado "quinquénio de ouro", altura em que deveria ter ido a fundo no processo de diversificação da economia, uma vez que o petróleo suplantava as expectativas. Aliás, o Presidente da República fez questão de admitir, no fecho de 2015, que Angola tinha a obrigação de fazer mais pela diversificação, mormente no capítulo da produção interna 

 

Em resposta ao estrondo provocado pela escassez de divisas, empresários de Benguela começaram a exportar produtos do campo e do mar, num exercício que deu lugar a aplausos, mas também recados de observadores atentos às lacunas de uma economia a precisar de valor acrescentado. 

Um dos observadores, Adelino Galvão Branco, consultor económico, sustenta que os ensaios feitos com a banana e a sardinha, para Portugal e Zâmbia, não devem desviar os actores do compromisso nacional relativo à produção interna. 

O economista fala em iniciativas que dão alguma projecção mediática, mesmo longe de quantidades assinaláveis, mas sustenta que, melhor do que exportar, é substituir as importações. ’’É o compromisso, para o qual o Estado é chamado a intervir, que existe há vários anos’’, lembra o consultor, que empresta a sua sabedoria no processo que pode baixar os níveis de importação de carne bovina, tal como veremos mais adiante nesta reportagem. 

Na semana em que se falou da carência de cereais e de carne, quando o ministro Pedro Canga reafirmou a aposta na auto-suficiência alimentar, o presidente da Associação Industrial Angolana (AIA) recordou que Angola tem em abundância um elemento capaz de corrigir os solos. 

José Severino refere que o calcário, presente ‘’de Cabinda ao Cunene’’, pode contribuir para uma cifra superior a de 2015, estimada em 1 milhão e oitocentas mil toneladas, com grande relevância para o milho, muito abaixo das 12 milhões de toneladas/ano necessárias. 

Defensor de incentivos, sejam fiscais, financeiros ou de outra índole, alerta para uma cada vez mais notória necessidade da marca nacional, salientando que as autoridades devem olhar para os projectos existentes. ‘’Antes de avançarmos para novos projectos, agora que o contexto parece pouco favorável, é importante trabalhar com o que já existe’’, vinca, certo de que o calcário pode ajudar na correcção dos problemas dos solos que têm determinado a perda das sementeiras. 

Daí que o ministro da Agricultura e do Desenvolvimento Rural defenda uma indústria de fertilizantes e pesticidas na corrida em direcção à auto-suficiência alimentar. ‘’Precisamos de paciência e audácia para substituirmos o que hoje importamos’’, refere o Eng. Pedro Canga. 

 

Da sardinha congelada à banana da Escom - A sardinha que hoje se exporta para a Zâmbia esteve no centro de acesos debates no ano de 2007, com a diversificação da economia não tão visível nas páginas dos jornais, quando a Associação de Pescas de Benguela lutava contra indicadores de ‘colapso total’ da pesca em Angola. 

Com a baixa do carapau, o pelágico que se importa de forma periódica, o presidente dos associados, Arnaldo Vasconcelos, defendia medidas de gestão para a sardinha, a única espécie à disposição dos agentes da pesca semi-industrial. ‘’Se a sardinha desaparecer, se não houver o controlo que faltou em relação à biomassa do carapau, podemos ver a actividade em colapso’’, dizia o empresário. 

Quase dez anos depois, a sardinha surge em maioria nas seiscentas toneladas de peixe congelado que a Baía Farta produz por dia, cifra insuficiente para os mercados local e nacional. É certo que a produção quase duplicou, graças ao investimento aplicado no sector, mas o aumento do consumo sugere, conforme industriais do ramo, uma análise relativa ao salto para a exportação, ainda que a operação se destine à ‘’captura’’ de divisas. 

Outro dado a reter, elucidativo da importância de medidas de protecção do nacional, é que Angola continua a recorrer ao carapau importado sempre que em casos de veda, adquirindo 90 mil toneladas num período de três/quatro meses. 

Do mar para o campo, a viagem ao passado recente mostra que o regresso à exportação de banana, não em regime experimental, poderia ter ocorrido há já dez anos, pouco depois da queda de um projecto avaliado em 60 milhões de dólares, seis vezes mais do que o da DT AGRO, a referência do momento. 

Na altura, a ESCOM pretendia investir numa produção anual de 7,7 milhões de caixas, sendo que parte considerável seria exportado pela multinacional americana Chiquita, que acabaria por abandonar a parceria devido a desentendimentos quanto à falta de terrenos para o pontapé de saída. 

Da Hanha do Norte (Lobito) ao Dombe Grande, passando pelos vales da Catumbela e do Cavaco, anteriormente com graves problemas de falta de água, várias localidades estiveram sobre a mesa de negociações, mas não houve terreno. 

O projecto foi delineado para criar três mil postos de trabalho, contra os 150 proporcionados pela DT, instalada no perímetro da Catumbela, numa área de 80 hectares, de onde deverão sair 4 milhões de toneladas de fruta/ano, com primazia para a banana. É com esta iniciativa e pouco mais que se vai tentar aumentar, nos próximos três anos, a produção de 15 mil toneladas para as necessárias 50 mil. 

 

Cereais para garantir carne nacional - A estratégia para doze milhões de toneladas de cereais/ano, a cifra que pode garantir o fim da importação, tem uma amostra na fazenda Santo António (Kwanza-Sul), que recebe um financiamento de 30 milhões de dólares norte-americanos. 

Fernando Teles, um dos proprietários, diz que se trata de um projecto credível, mas ressalta que Angola precisa de trezentas fazendas como a sua, com potencial para 40 mil toneladas por ano. 

Até finais de Setembro, na pior das hipóteses, a Santo António vai contar com dois mil e seiscentos hectares irrigados, acrescenta o pecuarista. ‘’Os retornos poderão animar outros produtores de milho e de soja e despertar o Estado em matéria de incentivos. Só assim deixaremos de importar’’, reforça. 

Imbuído no mesmo espírito, o administrador da fazenda, José Alexandre Silva, sustenta que o milho, a base da alimentação dos angolanos, representando 60 a 70% das necessidades alimentares dos animais, ajuda na produção de frangos e proteínas. 

Alexandre Silva acha pertinente sublinhar que estes animais vão proporcionar a carne, um dos bens, lembramos, mencionados pelo ministro da Agricultura. Aliás, a carne bovina custa aos cofres do Estado qualquer coisa como 500 milhões de dólares norte-americanos por ano, valor que viabiliza a entrada de cem mil toneladas. 

A poucos meses do arranque do censo pecuário, o empresário Fernando Teles afasta a ideia, muito discutida nos últimos anos, de que o efectivo bovino está em 4 milhões de cabeças de gado. ‘’Não é verdade, até porque, se tivéssemos tanto gado, não estaríamos a importar muita carne. Precisamos, isto sim, de políticas que ajudem a evitar as mortes de animais’’, defende. 

 

Dombe, o crónico problema das enchentes - Prestes a ganhar uma fábrica de concentrado de tomate, no primeiro sinal de revitalização da indústria após o desaparecimento da açucareira, a comuna do Dombe Grande continua a enfrentar o dilema das enchentes que colocam em risco a produção agrícola. 

Dombe, fornecedor de produtos para diversos pontos do país, discute com o Namibe o estatuto de maior produtor de tomate, um dos bens alimentares extraídos dos quinze mil hectares que conformam o vale agrícola ali existente. 

Quando se soube, pela voz do académico Édio Martins, no IIº Fórum Económico de Benguela, que a província continua a receber enormes quantidades de cebola e batata da Namíbia, voltou à baila o crónico problema do Dombe, à espera de incentivos há já quase vinte anos. 

O presidente da Associação dos Agricultores, Manuel Monteiro, que falava na sequência da perda de produtos diversos, questionou o paradeiro de projectos tendentes a regularizar as margens do rio Coporolo. 

Por seu turno, o director da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, Eng. Fernando Assis, revelou que a comuna precisa de obras de engenharia hidráulica, com custos ao alcance somente das estruturas centrais. ‘’É verdade que o Dombe tem 15 mil hectares em risco’’, frisou, dias depois de vários agricultores terem ameaçado parar de produzir tomate, batata, cebola, banana e outras culturas. 

É dentro deste contexto que o ministro Afonso Pedro Canga anunciou medidas para reforçar os investimentos no aumento da produção de cereais, raízes, tubérculos, carne e ovos. 

Atento às projecções, o ministro do Comércio, Fiel Constantino, vê na exportação de produtos nacionais o caminho a seguir para a obtenção de divisas. ‘’Assim, por via do comércio internacional, o excedente pode ser exportado para impulsionar a obtenção daquilo que ainda não se produz em quantidade suficiente para o mercado interno’’, indica. 

 

Pesado demais para o bolso do cidadão - A realidade, melhor do que os relatórios oficiais sobre a inflação e a desvalorização do Kwanza, geralmente dominados por uma linguagem economicista fora do alcance da maioria, legitima a preocupação de observadores que olham para o compromisso com a produção interna. 

Queixas de cidadãos, muitas vezes aos empurrões em superfícies comerciais para adquirir bens de primeira necessidade, ajudam a reforçar a tese de que o sonho das exportações não deve distrair as atenções de actores com responsabilidades acrescidas nesta cadeia de serviço. 

A pressão sobre a sardinha, por culpa, como vimos, da escassez de carapau, contribuiu para o aumento do preço da caixa. Na hora das lamúrias, o cidadão Dilson Makuva, professor da Baía Farta, refere que a caixa custa 4 mil e 500 Kwanzas, contra os dois mil praticados anteriormente. 

Quando se analisa a carência de cereais, com realce para o milho, salta à vista a preocupação da cidadã Vanda Santos, obrigada a comprar o quilo de fuba a 200 Kwanzas, quando um dia custou menos de cem Kwanzas. 

O feijão é comprado a 600 Kwanzas, o dobro do preço anterior. Enquanto se discute a estratégia para o ataque à falta de produtos pecuários, o quilo de carne continua a subir, custando já quase dois mil Kwanzas, duas vezes mais do que o preço que se praticava até bem pouco tempo. 

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