PAÍS

 
2 de abril 2016 - às 17:17

O ADEUS É A SÉRIO?

Poucas horas depois de José Eduardo dos Santos comunicar ao país que vai abandonar a vida política activa, o país, como atiçado por um formigueiro, cujo veneno ainda se está por descobrir, reagiu. Nos bairros e nas cidades, nos musseques ou mesmo nas aldeias mais recônditas, não se falava de outra coisa. José Eduardo dos Santos, o Presidente de todos os angolanos, o homem que até então escusava-se em abordar um fim tão próximo da sua (brilhante) carreira, exercendo o cargo de Estado mais importante do país, anunciaria que,em 2018, colocaria ponto final a uma história de sucesso, algumas frustrações pelo meio, erros de maior ou menor monta para o sistema de governação em que ele próprio se sustentou, depois de um exercício de mais de trinta anos de poder absoluto

 

As reacções não se fizeram esperar.No meio de tantas dúvidas e incertezas, mais medos do que receios, a turba fazia reflectir, cada um no seu espaço, a sua análise timbrada com a chancela da interrogação sobre a verdade ou mero exercício de um político maduro, sagaz, mas que, como tudo na vida, tudo tem o seu fim… por mais inteligente que se seja.

A idade pesa tal como o longo e cansativo exercício do poder, com ou sem êxitos; com ou sem estratégias pessoais ou familiares de se ser forçado a abandonar os corredores do palácio para que o descanso da entidade pública  mais representativa do país seja feito no maior clima de estabilidade política,económica e social. Afinal, a decisão é dele…

Ao longo dos seus sucessivos anos de poder, José Eduardo dos Santos terá abordado publicamente a sua retirada. Trata-se de um assunto que move a sensibilidade, com uma profundidade tal, que os mais cépticos dizem mesmo que, se ele abandonar o leme deste navio nesta década de violenta turbulência económica,  sem a tranquilidade necessária e apontando, ainda que entre quatro paredes, um sucessor muito próximo do seu círculo familiar ,o país  poderá reiniciar uma nova cruzada de guerras intestinais, facto que irá deitar por terra todo o esforço efectuado durante este curto período de paz. Uma paz que o próprio Presidente da República, Chefe do Executivo e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas, tenta consolidar com uma linha discursiva permanente de esperança, um sempre possível reforço das instituições democráticas, salientando várias vezes que “a paz veio para ficar”.

Com o anúncio da sua retirada da vida política , daqui a escassos dois anos, e numa altura em que se espera com bastante espectativa a realização das eleições gerais (2017), tudo indica que o actual Presidente da República esteja mesmo preparado para o que der e vier…

Publicamente, e com maior ou relativa segurança, José Eduardo dos Santos, assegurou que estaria para breve a sua saída do poder presidencial republicano e fê-lo com a convicção de ser um “desportista emprestado à política”, com sentido de “dever cumprido”.Numa das suas raras entrevistas a uma estação televisiva portuguesa, a SIC, Dos Santos, depois de concorrer à eleição do cargo de Mais Alto Mandatário do país, terá metido com a boca na nuca a maior parte dos observadores políticos mais optimistas. 

Foi há dois anos e reagindo à pergunta sobre a passagem de testemunho do poder, José Eduardo dos Santos, salientaria que seria um assunto a ser tratado à nível das instâncias do seu partido. Mais palavra, menos palavras, garantiu que o primeiro exercício será encontrar um líder que o substitua a nível do MPLA (…) e que este candidato,se for eleito, terá de disputar as eleições com os líderes de outros partidos nas eleições gerais. Instado a pronunciar-se sobre o seu futuro, caso a transição aconteça, o Presidente aludiu ao facto de poder dar o seu contributo noutras causas,nomeadamente a social, cultural e desportiva,citando como alvo a FESA (Fundação Eduardo dos Santos) e o facto de ser “ um homem do desporto emprestado à política”. 

…No mês passado, o Chefe de Estado, de 73 anos de idade e no poder há 36, voltou a "quebrar o gelo” e de forma algo imprevisível. Feito em Luanda, o anúncio terá mesmo apanhado desprevenidos muitos dos seus companheiros e camaradas, exactamente  numa reunião ordinária do Comité Central do MPLA, convocada por José Eduardo dos Santos para preparar o congresso do partido, que provavelmente realizar-se-á em Agosto próximo e que, note-se, servirá para preparar as candidaturas às eleições gerais agendadas para 2017.  

O  país político questiona, torce o nariz, e recomenda que o assunto  é mais sério do que se supõe, uma vez que nem se sabe sequer quem será o candidato da sua sucessão, numa altura em que Angola precisa de acertar o passo,rumo à estabilidade política, social, económica e financeira mais segura. 

"Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política activa em 2018", disse.

Agora resta clarificar. Dizer, taxativamente, quem é o seu sucessor e, sobretudo, vir a terreiro anunciar se estará disposto a aguentar a carga das eleições em 2017 para…mais quatro anos,pois nessa altura estará exactamente com 80 anos de idade e 40 no poder, com todas as consequências daí resultantes…O cansaço natural, o desgaste da imagem de um homem que se confunde com a própria história de um país a precisar de muito conserto são questões a levar em conta, num momento em que as populações continuam a levar murros no estômago por causa da crise económica e financeira que vive… e que perdurará,no mínimo, por mais  dez anos. 

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital