REPORTAGEM

 
29 de outubro 2015 - às 19:19

NATURALIZAÇÕES COM SUCESSO: Atletas assumem uma nova nacionalidade

Nem todos os casos de atletas estrangeiros que tomam a decisão de assumir a naturalização e passar a representar a selecção portuguesa correm mal, como vimos há umas semanas atrás

 

Aliás, grande parte dos atletas, sejam eles de que modalidades forem, se tiverem talento e suscitaram interesse aos clubes e respectiva selecção, são os próprios dirigentes que avançam na formalização de todos os documentos para que o processo de naturalização seja concluído em tempo útil.

Não existem, neste tema, apenas casos falhados ou decisões mal tomadas que fazem a história das naturalizações de atletas estrangeiros em Portugal, principalmente provenientes de África e Brasil.

Para além das promessas fraudulentas e dos contratos fantasma que levaram até Portugal muitos atletas estrangeiros, há também centenas de casos de sucesso em que a naturalização é realizada num processo legal, que lhes tem proporcionado o passaporte para o futuro longe das suas terras e que lhes permite ganhar asas para voar sobre o sonho de ser atleta de alta competição.

Mas nem todos vêm os processos de naturalização com bons olhos, aliás, existem até várias discussões antigas sobre este assunto. E questiona-se ainda se deve um atleta deixar a sua pátria para trás para representar outra só porque esta lhe pode proporcionar mais condições, mais oportunidades? Então e onde fica o sentido patriótico? O dever de levantar a sua bandeira? Cantar o hino do seu país, enquanto sobe ao pódio?

Uma boa percentagem dos casos de atletas naturalizados portugueses, provenientes de África, é fruto da história, da época colonial e do êxodo de africanos em Portugal. Daí a naturalização é um passo tão curto que muitos nem se dão conta. 

E o motivo da discórdia é precisamente a escassez de atletas que representem o seu país de origem, porque muitos fogem para uma segunda nacionalidade para obter maior prestígio no mundo do desporto, ou simplesmente porque não têm oportunidades de representar os seus países além-fronteiras.

E para os países que são representados por estes atletas e que conseguem estar no topo dos rankings mundiais? Será que o conseguiriam se trabalhassem apenas com atletas nacionais? Teria Portugal tantas medalhas de ouro nos campeonatos da Europa, do Mundo e Jogos Olímpicos no atletismo, por exemplo, se não tivesse atletas naturalizados como são os casos de Francis Obikwelu, Naide Gomes ou Nelson Évora. Ou será caso para dizer: “com os sapatos dos outros estou bem calçado?”

Mas também há o reverso da medalha. E que condições teriam este ou aquele atleta na sua terra natal para treinar em alta competição? Chegaria longe? Venceria alguma vez? Será que só o conseguia fazendo parte de um clube ou selecção respeitada no mundo do desporto?

O certo é que este será um assunto eternamente discutível, quer da parte do país de origem quer do país de naturalização do atleta e que vai continuar a ser tema de conversa, principalmente em dia de vitória. 

 

De quem é o rei, afinal? - Esta foi, muitas vezes a expressão utilizada pelos portugueses para se referir a Eusébio da Silva Ferreira.

A pantera negra nasceu a 25 de Janeiro de 1942, na antiga Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique, na época colonial designada por África Oriental Portuguesa. 

Falecido há quase dois anos (janeiro de 2014), Eusébio continua a manter o estatuto de melhor jogador de todos os tempos a representar um clube português e a selecção nacional das quinas. 

Fruto da colonialização portuguesa em África, ser português foi apenas uma condição para representar este país ao mais alto nível e escrever na história eterna o seu contributo para as lendas do futebol mundial. 

Considerado português mas nunca esquecido como moçambicano, Eusébio representou o Sporting de Lourenço Marques (1959-1960), Sport Lisboa e Benfica (1960-1976) e Sport Clube Beira-Mar (1976-1977). Foi 64 vezes internacional pela selecção portuguesa e marcou 31 golos ao serviço da camisola das quinas. Foi dez vezes campeão nacional e venceu cinco Taças de Portugal e uma Taça dos Clubes Campeões Europeus. Conquistou duas vezes (1965 e 1973) a Bota de ouro (France Football) e uma vez a bola de ouro (france-football). No mundial de 1966, sagrou-se o melhor marcador com 9 golos. 

O primeiro jogo de Eusébio pela selecção nacional foi em 1961, curiosamente numa derrota de má memória frente ao Luxemburgo por 2-4, numa partida a contar para o apuramento para o Campeonato do Mundo de 1962, no Chile. 

Foi o seu primeiro jogo e uma das poucas oportunidades de pisar o mesmo terreno que Matateu. Um dos melhores daquela época mas, já em fase descendente da carreira e com uma lesão, impossibilitou que se cumprisse um desejo antigo de muitos apaixonados do futebol. Nunca chegaram a jogar juntos.  

Com apenas 19 anos, Eusébio passou a ser a grande pérola da companhia encarnada e representou o Benfica, como jogador, durante 16 anos. Faleceu com 71 anos, em Janeiro de 2014, em Lisboa e foi transladado para o Panteão Nacional em Julho de 2014, com o estatuto de grande representante do património português, ainda que não o fosse de origem. 

 

África e as pérolas do futebol português - Mário Coluna foi o monstro sagrado. Gostava tanto de Eusébio que lhe seguiu as pisadas até na hora do adeus e apenas num mês depois do Pantera Negra ter falecido também ele partiu para o mundo eterno das estrelas do futebol (25 de Fevereiro de 2014).  

Considerado como um dos 100 melhores futebolistas do século XX, Mário Esteves Coluna nasceu a 6 de Agosto de 1935, na Ilha de Inhaca, Moçambique, antiga África Oriental Portuguesa. 

Representou a selecção portuguesa entre 1955 e 1968 e foi jogador do SL Benfica durante 16 anos, tendo ainda jogado mais dois pelo Lyon, de França.

 Foi duas vezes campeão europeu de clubes pelos encarnados e foi o segundo jogador africano a erguer uma Taça dos Clubes Campeões Europeus (o primeiro foi José Águas, natural de Angola).

Foi um dos melhores jogadores do Benfica de todos os tempos representou a selecção durante 13 anos e marcou oito golos em 57 internacionalizações, como capitão de equipa e alcançou o 3º lugar no Campeonato do Mundo de Futebol, em 1966. 

Curiosamente, após ter-se retirado do futebol, regressou à sua terra natal, criou uma academia de futebol, na Vila da Namaacha e foi Presidente da Federação Moçambicana de Futebol. 

“Matateu” Sebastião Lucas da Fonseca. Chegou de África muito antes de Eusébio. Nasceu em 1927, em Maputo, Moçambique e chegou a Lisboa em 1951.  

Ele sim foi o primeiro grande jogador português nascido nas ex-colónias africanas. Representou o Beleneneses de 1951 até 1964. Considerado duas vezes o melhor jogador a actuar em Portugal, Matateu não teve a projecção que o seu talento merecia e, depois de passar por vários clubes de menor expressão, rumou ao Canadá onde jogou até aos 50 anos de idade. 

Eusébio, Coluna e Matateu foram e serão sempre os três grandes monstros sagrados provenientes das ex-colónias e que brilharam como nacionais, representando os clubes portugueses e selecção e que proporcionaram alguns dos momentos mais maravilhosos do futebol português de todos os tempos.

 

Como seria o futebol português sem os naturalizados?  - No futebol português têm-se seguido dezenas de casos de jogadores africanos naturalizados portugueses, porque a história destes dois continentes é inseparável. 

Do outro lado do Atlântico também se deram alguns casos de naturalizações bem sucedidas e que vieram mostrar-se como mais valias para a qualidade do futebol português, ainda sem a aprovação de muitos portugueses incluindo alguns atletas.

Relembramos o caso da naturalização de Deco, o jogador brasileiro naturalizado português para representar a selecção nacional, principalmente devido a défice de jogadores para ocupar a posição de médio ofensivo. Deco tornou-se português mas foi, talvez dos processos mais criticados no desporto nacional. O próprio jogador admitiu que aceitou esta mudança não porque não tivesse lugar na selecção brasileira mas porque se sentia na obrigação de ser grato a Portugal por tudo o que lhe proporcionou. 

Sem contar com os futebolistas oriundos das ex-colónias africanas portuguesas, Deco (brasileiro, representou o FCP) é um dos cinco jogadores naturalizados que já representaram a selecção nacional de futebol. Lúcio Soares (brasileiro, representou o SCP), David Júlio (África do Sul, representou o SCP), Celso Matos (brasileiro, representou o FCP) e Pepe (brasileiro, representou o FCP). 

Rui Costa e Figo foram, na altura desta naturalização, acusados de gerar mau estar e ameaçar mesmo abandonar a selecção nacional caso Deco entrasse como jogador português, alegando que o país estava muito bem servido de jogadores para a sua posição. 

Mais tarde, Liedson e Pepe também assumiram a naturalização para representar a selecção portuguesa e abdicar da possibilidade de um dia vir a representar a canarinha. 

Um dos motivos pelos quais alguns jogadores extra-comunitários tomam esta decisão tem a ver como facto de poderem participar em duas provas de alta competição a nível de selecções, o Mundial e o Europeu feito que não conseguiriam atingir representando os continentes africano e americano.

O Mundial de Futebol realizado em 2014, no Brasil, contou com a presença de 85 jogadores naturalizados. A Argélia apresentou uma equipa formada por 18 jogadores franceses. Bósnia e Herzegovina, Croácia, Suíça, Camarões, Estados Unidos e Gana também utilizaram jogadores naturalizados provenientes de outros países.

O Brasil, Colômbia, Coreia do Sul, Equador, Honduras e Rússia foram as únicas selecções a apresentar equipas única e exclusivamente nacionais.

Mas também acontece o inverso, e há países que são verdadeiros fornecedores de jogadores para representar outras selecções. 

A França (27), Alemanha (12) e Brasil (5) são os grandes líderes dos empréstimos para servir outras selecções. 

Os nomes mais sonantes são os de Diego Costa (brasileiro a representar a selecção espanhola) e Pepe (brasileiro a representar a selecção portuguesa). 

E não só as naturalizações devido à ocupação portuguesa nas ex-colónias marcam a história dos grandes nomes do futebol mundial. A Alemanha, por exemplo, tem no seu plantel dois dos melhores jogadores, que se sagraram campeões do mundo pela selecção alemã, no Brasil e nasceram na Polónia, território ocupado. Falamos de Miroslav Klose e Lucas Podoslki. A selecção de ouro da França ficou marcada pelos jogadores naturalizados, incluindo Zinedine Zidane, nascido na Argélia (colónia ocupada pela França) ou Bixente Lizarazu (nascido na região francesa do País Basco). 

       

Pernas para que te quero? - O atletismo português também está recheado de atletas naturalizados para representar Portugal ao mais alto nível e Nelson Évora, Naide Gomes ou Francis Obikwelu são apenas dois dos mais consagrados. 

O prazer de ver o “black power” Francis Obikwelu a correr desenfreadamente para a meta dos 100 ou 200 metros numa final dos Jogos Olímpicos ou do Campeonato do Mundo de atletismo fazem esquecer, por momentos, que nem sequer é português. Pelo menos de origem! 

Nasceu em Novembro de 1978, na Nigéria e naturalizou-se português por falta de condições para poder representar o seu país no mundo do atletismo. 

Chegou a Portugal em condições precárias. Tinha 16 anos e veio para participar no Campeonato Mundial de Juniores, em 1994. Numa primeira fase, Benfica e Sporting fecharam-lhe as portas e radicou-se no Algarve onde começou a trabalhar na construção civil. 

Aprendeu a falar português e ingressou no Belenenses. Depois dos JO de Sidney, foi literalmente abandonado pela sua federação após ter contraído uma lesão que o obrigou a uma intervenção cirúrgica no joelho. 

Por sua conta e risco assumiu-se como português e passou a fazer as delícias dos adeptos da modalidade que passaram a ter nos quadros de honra do atletismo português o melhor velocista de todos os tempos. Tornou-se cidadão português em 2001 e foi adoptado por Isabel e Ricardo Ferreira que se tornaram os seus pais portugueses. 

Apesar de ser nigeriano Obikwelu é acarinhado pelo povo português como sendo um dos seus melhores atletas.  

Naide Gomes nasceu em São Tomé e Príncipe, em 1979, e completa em Novembro deste ano, 36 anos. Representou o Sporting Clube de Portugal desde 1998, clube que deixou para se dedicar à maternidade, abdicando assim de uma carreira vistosa, em representação da sua segunda pátria – Portugal. 

Especialista no salto em cumprimento, também alcançou excelentes resultados no pentatlo Naide Gomes protagonizou um dos mais complicados processos de naturalização, apenas concluído em 2001. Venceu várias medalhas ao serviço da selecção e retirou-se em Março de 2015, aos 35 anos mas já estava afastada das pistas há dois devido a lesão prolongada.

Nelson Évora é outro dos casos de africanos a actuar com as cores da bandeira portuguesa. Nasceu na Costa do Marfim mas é de origem Cabo-verdiana e cresceu em Portugal. É o mais alto representante português no atletismo da actualidade, na especialidade de triplo salto, com uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, medalha de prata em Berlim, 2009, e medalha de bronze em Pequim 2015, após um longo afastamento por lesão. 

A favor ou contra? - Quantos atletas de talento não tiveram a sorte de se naturalizar por um país que lhes pudesse dar maior visibilidade? Por vezes é preciso estar no sítio certo, à hora certa para despontar numa carreira de sucesso no mundo do desporto. 

Muitos são os atletas que vingariam nos seus países de origem mas são aliciados para chegar a outros patamares da sua carreira e a valores que consideram, até então inalcansáveis.

A naturalização é um tema que se manterá sempre na ordem do dia e a criar a discórdia das opiniões. Uns são contra e outro a favor mas o principal enfoque está no porquê desta tomada de decisão por parte dos atletas. 

Em muitos casos, é possível considerar que o país de origem não terá visibilidade internacional nem condições desportivas ou, mesmo, políticas para contribuir para o sucesso dos seus atletas e, durante décadas, muitos países, nomeadamente do continente africano temeram não poder participar em provas internacionais com as suas selecções por falta de atletas que pudessem representar a selecção do seu país de origem.

Recentemente foi muito comentado o facto da selecção Sul-Africana de hóquei em Patins ser 90% composta por atletas naturalizados, devido à escassez de nados na África do Sul para representar a selecção. 

Observando a selecção angolana de hóquei em patins, verificamos também um elevado número de atletas que nasceram em Angola, apenas por ocasião dos seus pais ali se estabelecerem, terem nacionalidade portuguesa e procurarem assumir a sua naturalidade angolana para representar a respetiva selecção. 

A mesma sorte não têm tido os milhares nascidos em Angola, filhos de retornados portugueses e que não conseguem obter a nacionalidade angolana.

Ainda assim, a FIFA tem alertado para a possível descaracterização das selecções nacionais e clubes que se fazem representar por um elevado número de atletas naturalizados.  

Por este e outros motivos, mesmo uns sendo contra e outros a favor da naturalização de atletas, esta vai continuar a acontecer, um pouco por todo o mundo, desde que altos interesses se imponham. 

Angolanos naturalizados - Matuidi é o futebolista franco-angolano que optou por assumir a nacionalidade francesa para actuar pela selecção gaulesa em detrimento dos Palancas Negras.

Em Maio do ano passado o jogador e médio do PSG anunciou que apesar de ter sido uma decisão difícil, foi a opção que tomou. 

O facto de afirmar que quando entra em campo leva consigo as duas nações no peito, foi a francesa que escolheu representar, e isso significa menos um jogador de qualidade à disposição da selecção nacional angolana.

As opiniões dividem-se quanto a esta tomada de decisão de Matuidi, e há até angolanos que consideram que, se a França vencer o Campeonato da Europa, Angola estará representada, nem que seja pela bandeira na mão do jogador. Outros consideram um verdadeiro virar de costas à pátria e à selecção.

Mas a lista de angolanos naturalizados na Europa é longa: Zé Tikenda e Pedro Cavanda (Bélgica), Toni Vilhena (Holanda), Wilson Eduardo, João Eduardo e William Carvalho (Portugal) ou nomes como Gil Gomes, Fábio Abreu, Rico Gomes, Valter Zacarias, Quibrilha, Bruno Andrade, Bruno Cariata, Aritson, Alexandre Ebo, entre muitos outros.

Em boa parte, esta “fuga” deve-se à pouca aposta que Angola vai fazendo na formação das camadas jovens com talento para o futebol e outras modalidades. Angola é uma máquina que produz talentos desportivos, como outros países africanos deve e pode apostar mais em infraestruturas desportivas e formação dos seus atletas, aproveitando principalmente a compleição física da sua população. Mas pouco tem apostado até à data e isso reflecte-se nos resultados e na história desportiva do país.   

À par deste drama, existem outros que acabam por originar frutos muito significativos, como foi o caso da selecção de futebol de Cabo Verde que, depois de muita persistência e com poucos cabo-verdianos não actuantes nas selecções portuguesas, conseguiu formar uma equipa que abalou as primeiras páginas dos jornais, um pouco por todo o mundo, com a conquista do primeiro apuramento para uma fase final de um Campeonato do Mundo de Futebol, em 2014, na África do Sul. Participação que não se concretizou devido a irregularidades na inscrição de um atleta. 

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