CULTURA

 
31 de maio 2016 - às 07:02

MÚSICA E DANÇA: O QUE AS CRIANÇAS NÃO PRECISAM DE APRENDER

A música combina a melodia, o ritmo e a harmonia, tornando tudo num misto de coisas agradáveis ao nosso ouvido, e é normalmente utilizada para exprimir sentimentos ou passar alguma paz espiritual. Quem de facto conhece, sabe que soa sempre bem ouvir uma música, seja para relembrar momentos passados, dar pulos e dançar ou simplesmente para relaxar, a música é sempre uma boa terapia

 

E falando em terapia, passemos por ela na gestação (para o bebé). Segundo a medicina, o desenvolvimento neurofisiológico acontece muito precocemente, e ao final de vinte e quatro semanas de gestação, o ouvido do ser que se encontra dentro da mulher, está tão desenvolvido que é capaz de ouvir tanto os ruídos internos do corpo da mãe, quanto os sons externos, iniciando assim o desenvolvimento da sua inteligência. A sonoridade da música pode ser um dos primeiros contactos com a linguagem, mas o bebé pode já aprender também a mudança de ritmo, tom e velocidade do que é cantado ou transmitido. Pois, não é por acaso que a medicina contraindica ambientes com música alta ou agressiva durante esta fase da mulher; mas porque nesta fase, o bebé já está atento a todas as mudanças e também percebe como a mãe se sente em relação a determinada música ou som, através dos batimentos cardíacos e dos efeitos emocionais e cerebrais produzidos dentro dela. De maneira que, uma música que deixe a mãe relaxada, deixará com certeza o bebé bem também.

Cá fora, é importante que se continue a dar-lhe de beber das várias águas da vida, mas como sabemos, tudo tem o seu tempo determinado, e a fase infantil  é o período chave da vida de qualquer ser humano, como nos transmite a psicóloga clínica Kátia Mateus “Sim, existe idade para tudo, mas o que nós temos vindo a verificar actualmente é um desajuste psicológico-comportamental nas crianças, ou seja, já não se obedecem as fases de desenvolvimento infantil consideradas como normais. O que temos constatado é que tem havido um certo descuido por parte dos encarregados na gestão de algumas destas fases de desenvolvimento. Podemos dizer que a 3ª infância vai dos 6 aos 12anos e é nesta fase onde a criança aumenta o seu nível de socialização, sendo que as influências externas são facilmente absorvidas, então os pais devem ter muita atenção aos comportamentos das crianças e começar a moldá-los. Precisamos também alertar os pais e encarregados sobre a aprendizagem por imitação; as crianças aprendem muito por imitação, seja em casa, pelos médias ou fora de casa”, ao que a coreógrafa Ana Marques remata “todas as canções infantis e jogos apropriados para as diferentes faixas etárias, todas as canções de ninar e pequenas danças de roda que nos são legadas pelos nossos pais e avós são as mais apropriadas, porque contêm sempre um propósito educativo e as melodias fáceis e harmónicas adequadas à idade. Há que se ter muito cuidado com aquilo que se ensina a uma criança pois dessa informação que lhe é dada desde cedo depende a construção não apenas da sua identidade mas também da sua personalidade”.

E na nossa, e em muitas outras sociedades, não parecem ser estes os ensinamentos e a ajuda que os pais têm dado aos seus filhos. É que conseguimos parar e olhar hoje para a quantidade de crianças que ao invês de ouvirem músicas apropriadas à sua idade, pulam imensas etapas, e acabam por familiarizar-se mais com músicas para a idade adulta, do que propriamente para as suas. O que para os pais, só se torna preocupante, e nesta altura já se começa a atirar a culpa aos filhos, quando estes se desviam dos padrões normais de socialização. “Tenho recebido crianças e adolescentes com transtornos comportamentais fruto da má educação que lhes foi dada. Os pais e encarregados de educação não se dão conta que são um modelo e o espelho dos seus filhos, e que eles acabam repetindo que os mesmos fazem, outro facto é a falta de monitoramento e supervisão dos pais; por estes motivos alguns comportamentos passam despercebidos aos seus olhos e consequentemente o agravamento do quadro. Há um velho ditado que diz: “é de pequeno que se torce o pepino”. A melhor forma de cortar ou eliminar hábitos pouco saudáveis em crianças, é estar atento a pequenos comportamentos desajustados e desde cedo fazer a devida intervenção;”

O stress do dia-a-dia, directa ou indirectamente, atinge também as crianças, e segundo o músico Bonga Kwenda, na procura de soluções para os problemas do quotidiano das crianças, a música e a dança são primordiais.. “Os shows de canto e dança dão um brilharete incrível às nossas crianças. E não é que a gente não tenha, é só irmos rebuscar aquele «to-to-ri-to-kinguibanza-dinguila...»; e como este, existem muitas outras canções para elas, não no sentido satánico, como vemos por aí, porque a criança precisa do seu tempo de amadurecimento. Criança tem de ser CRIANÇA mesmo. E como tal, ter os seus temas e os seus títulos...”

Dançar faz bem à saúde e ajuda no desenvolvimento da criança, até sob maneira de contribuir, inclusivamente para o aumento do seu sucesso escolar. A dança pode ajudar as crianças a serem adultos, melhores, por desenvolver a sua sensibilidade e um olhar diferente sobre o mundo e pode também resolver problemas resultantes de carências afectivas, exclusão, discriminação… “Mas APENAS se for orientada por profissionais com experiência comprovada. Assim, e para o contexto angolano, chamo a atenção para os falsos professores sem formação ou com formações deficientes que são uma ameaça à saúde física e mental das crianças. Para trabalhar com estas faixas etárias é preciso um conhecimento profundo da psicologia infantil, não se podem utilizar quaisquer músicas para acompanhar as aulas e uma enorme sensibilidade para escolher as imagens e analogias apropriadas às diferentes idades e contextos culturais”, esclarece Ana Marques.

Segundo esta coreógrafa, a iniciação à dança enquanto parte complementar para um desenvolvimento integral da criança pode ser feita desde cedo (3 ou 4 anos de idade) desde que, e isto é fundamental, não se apliquem técnicas com grande solicitação física já que o seu corpo, não estando ainda formado, é mais vulnerável a lesões e a deformações que podem ser irreversíveis.

Com estas idades as crianças devem fazer Dança Criativa, ou seja, um método que as inicia ao movimento, visando a coordenação motora, o desenvolvimento sensorial e da musicalidade e o despertar da criatividade. Esta opção não implica a realização de testes de admissão física nem a aplicação de técnicas que exijam um grande rigor.

Portanto, aquela ideia de que para a dança, quanto mais cedo se começar, melhor, deve ser olhada com alguma relatividade e apreensão.

As festas infantis hoje,  inundadas por um mundo de adultos e de coisas adultas, como a músicas sem mensagem e disparatadas e danças sensuais, são verdadeiros palcos de amostra a educação que damos às nossas crianças. O veterano músico Bonga, mostra a sua indignação, “assim como a Europa tem as suas brancas de neve e outras marcas, nós temos as nossas danças e cantos infantis, é preciso resgatarmos, porque não têm nada a ver com a pornografia do hoje em dia, nem pensar... Voltando o tempo para trás era aceitável uma criança estar na tarrachinha ou no kuduro? Mas que brincadeira é essa? Hoje a coisa degenerou completamente, as crianças na roda a darem shows desnecessários, o homem mexe mais a bunda que a mulher... fica como?”

O pior é a exposição dos mais pequenos, hoje feita pela proliferação das redes sociais, onde crianças em idade muito precoce, são publicadas pelos seus próprios familiares a dançarem inapropriadamente, e mais duro, ver muitos dos que se deviam apresentar como verdadeiros “agentes sociais”, a aplaudirem este tipo de “espectáculos”. “Acho escandaloso mas, sobretudo, condeno a irresponsabilidade, e neste caso sim, dos pais e avós e tios e todos que expõem as suas crianças desta forma sob pena de, um dia mais tarde, os próprios filhos e netos e sobrinhos e todos se manifestarem contra eles. Apesar dos alertas permanentes a vaidade desmedida das pessoas revelada pela necessidade de mostrar e de serem vistas, provocada justamente pela utilização fútil das possibilidades imediatistas das redes sociais (que são fundamentais para comunicar e partilhar rapidamente), origina este tipo de situação.”, afirma Ana Marques.

Bonga Kwenda conclui que “é preciso tirar as crianças da sonolência com os pop corns, com a tv, e mesmo com o ósseo; mas não para as pôr a dançar, cantar e ouvir músicas com malícia..”

É preciso pois reflectirmos e efectivamente abraçar que é importante saber-se o que dar aos mais novos para consumo. É preciso que sejam dadas a ouvir às crianças, músicas adequadas às suas idades, sobretudo, ter-se a máxima atenção aos conteúdos e mensagens que transmitem, para que possam contribuir para o desenvolvimento infantil, e não para promover a promiscuidade nas crianças e num futuro não muito distante registar crianças, adolescentes ou adultos com disfunções e/ou transtornos de conduta. 

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