PONTO DE ORDEM

 
6 de abril 2017 - às 15:25

MUDANÇAS E REALISMO

Estamos num País que durante quarenta e dois anos foi governado por um Partido que, primeiro, defendia o sistema monopartidário, depois engendrou a mudança para o multipartidarismo e pelas muitas boas e mais razões do percurso percorrido, não se pode ignorar as estruturas criadas e que se tornaram fundamentais para cimentar a unidade do País, que apadrinhou a formação de muitos quadros nos mais variados domínios, que cimentou o orgulho de sermos donos do nosso próprio destino, como angolanos independentes.

 

O País vai ter eleições gerais este ano e quando assim acontece há uma perspectiva grande que se cria porque novos actores políticos entrarão em cena, neste caso agora desde Presidente da República a deputados e posteriormente novos rostos no governo. É a lei da vida política da mudança sagrada e da rotatividade de pessoas e instituições como mandam as boas regras da democracia que em Angola começamos a cumprir, embora com alguns zigzagues. É claro que os rostos da nossa política não têm mudado significativamente tanto como o momento e a eficiência assim o exigiam mas há um dado adquirido que acontece este ano que é justo realçar. Desde logo, depois de cerca de 40 anos a dirigir os destinos do País, José Eduardo dos Santos decidiu colocar ponto final à sua vida política activa, e, nessa linha, não será o candidato do seu Partido, o MPLA-que há quarenta anos também governa o País, primeiro fruto do monopartidarismo e depois por vencer as eleições. João Lourenço será o candidato dos Camaradas e disputará a liderança do País com líderes de outras cores políticas, sendo os mais salientes Isaías Samakuva da Unita e Abel Chivukuvuku, da CASA CE.

Facto curioso na escolha do futuro Presidente da República de Angola é que dos candidatos existentes agora, a certeza é de que, seja quem for o vencedor, o poder ficará na mão de um originário umbundu, eliminando-se sem atritos o complexo que existia de que Angola só poderia ser governada hegemonicamente por políticos kimbundo, mas o mais importante de tudo isso é que esse facto não se reflicta na constituição de governos fortemente tribais ou regionais que possam perigar o avanço da construção de uma verdadeira nação que, mesmo assim, já se faz de forma muito titubeante, ignorando-se quantas vezes a importância do saber e da competência profissional de cada cidadão.

Sou dos que defende que para a consolidação da democracia no nosso País e o consequente caminho para melhor governação da Coisa Pública, não deveria haver maiorias absolutas que, regra geral, asfixiam outros pensamentos, por mais positivos que sejam eles. Sou dos que defende parlamentos mais equilibrados de forma que as leis que venham a conformar a governação do País sejam mais discutidas, nunca impostas e que haja mais preocupação no pensamento nacional. Bom, esse é o meu pensamento mas o que conta são os resultados que se conseguem nas eleições.

Estamos num País que durante quarenta e dois anos foi governado por um Partido que, primeiro, defendia o sistema monopartidário, depois engendrou a mudança para o multipartidarismo e pelas muitas boas e mais razões do percurso percorrido, não se pode ignorar as estruturas criadas e que se tornaram fundamentais para cimentar a unidade do País, que apadrinhou a formação de muitos quadros nos mais variados domínios, que cimentou o orgulho de sermos donos do nosso próprio destino, como angolanos independentes.

Criaram-se raízes de competências reconhecíveis mas é certo que também se apadrinhou o compadrio e outros esquemas contrários à governação transparente, emoldurou-se uma sociedade com muitas vontades, que, na altura em que se desenha o nascimento de uma nova República, essas mais valias, muitas delas não rotuladas com cores políticas mas sim com vontade de contribuir com todo o seu saber e discernimento, não devem ser esquecidas ou ignoradas nem tampouco atrapalhadas no bingo das origens de nascença ou cor da pele. Quanto mais se apruma a organização do País, mais se encetam iniciativas para pensamentos plurais, mais se justifica governações participativas que facilitam, inclusive, o papel das lideraças escolhidas no voto.

Para a realidade angolana, mais se justifica o princípio de quem ganha tudo tem de saber olhar para o lado do seu opositor e quem perde no voto não deve pensar que eternamente perdeu a esperança de vida. É hora de se reflectir! Se é verdade que o momento reclama por mudanças por uma governação mais actuante, mais patriótica, mais mergulhada nas preocupações da maioria não é menos verdade que essa mesma mudança não pode ser feita de forma atabalhoada, fazendo vingar o espírito de revanche, vingança ou perseguição.

Vamos fazer um país melhor para todos viverem, ganhe quem ganhar porque a preocupação primeira tem de ser Angola.  

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