ÁFRICA

 
2 de setembro 2016 - às 07:10

MOÇAMBIQUE: FALTA DE VONTADE POLÍTICA PARA A PAZ

O historiador alemão radicado em Moçambique Gerhard Liesegang defende que o país africano está refém da tradição de um modelo de governação centralizado, apontando a falta de vontade política como o principal problema nas negociações para a paz

 

"Estamos presos a uma tradição de administração centralizada em Moçambique", disse à Lusa Gerhard Liesegang, considerando que o modelo de administração actual não respeita as novas dinâmicas socais e beneficia a elite no poder.

O pesquisador alemão entende que a causa da crise política em Moçambique está na incapacidade de ceder entre as partes, Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e alerta para as consequências da intensificação das actuais confrontações militares.

Observadores independentes acusam a RENAMO e o Governo de assumirem comportamentos e posicionamentos incompatíveis com o objectivo de paz.

Os analistas acusam as duas partes de estarem determinadas em resolver este conflito com o recurso às armas. Consideram ainda que o ódio e a intolerância política estão a eternizar o conflito armado em Moçambique e que o diálogo tarda a acontecer.

Na visão dos observadores, as posições do Governo e do maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana, (RENAMO) são difíceis de conciliar. Acresce que o conflito em Moçambique se está a alastrar para outras regiões. O politólogo João Pereira diz mesmo que o cenário é comparável com aquele que dividiu o Sudão: “O Sudão era um Estado unificado, que a partir desse tipo de conflitos acabou por degenerar num conflito étnico, regional e tudo isso. Aqui há indicação clara por exemplo, por parte da RENAMO e do Governo de que não estão criadas condições necessárias para uma reconciliação”.

Em entrevista ao canal privado de televisão moçambicana STV, Pereira critica o Governo por fazer um discurso positivista, quando no mato a realidade é outra. A suspensão da circulação dos comboios no corredor da Beira, no centro do país, reduziu ainda mais a credibilidade de Moçambique junto dos parceiros: “Quer dizer, praticamente os centros de poder a nível internacional começam a avisar grande parte dos investidores de que o país não é viável para o investimento” disse.

A repentina expansão dos ataques da RENAMO para outras províncias mais a norte, como nos últimos dias em Mopeia, na Zambézia e Maúa, no Niassa, mostram desinteresse pelo diálogo, defende o analista político Tomás Vieira Mário: “Eu penso claramente que isto é uma demonstração que a RENAMO quer mostrar de força porque os processos de diálogo ainda estão extremados. E é essa mensagem muito triste que nos dá esses ataques”.

Aliás, acrescenta, as duas partes deixaram uma má imagem diante dos mediadores ao provarem que estão a apostar na força das armas: “O diálogo com os mediadores não permitiu qualquer suavização das posições. E essa falta de posições suavizada exprime-se no aumento de ataques até em zonas não previsíveis como era o Niassa”.

Nesta situação, o Governo esforça-se por tranquilizar a população. O que para Tomás Vieira Mário é um erro: “Eu acho que não há como não se preocupar. A situação está tão dramática que todo o mundo hoje está um pouco expectante sem saber bem qual é a visão de amanhã”. 

 

"PAZ NÃO PODE SER EXCLUSIVA

DO GOVERNO E DA RENAMO!" 

O

 presidente do Parlamento Juvenil, Salomão Muchanga, reforçou a sua exigência de uma maior participação da sociedade civil nas negociações de paz em Moçambique. As delegações do governo e da RENAMO já aceitaram a participação de personalidades da sociedade civil nas negociações de paz em Moçambique, como informaram no ínicio de Agosto membros de organizações não-governamentais reunidas no Painel de Monitoria do Diálogo Político.

Uma das organizações envolvida nesta plataforma civil que exige a participação nas conversações é o denominado "Parlamento Juvenil", presidido por Salomão Muchanga.

Estamos perante o ideal da paz, que para nós representa o sonho mais íntimo, a aspiração mais ardente dos moçambicanos. E se nós queremos uma paz sustentável e duradoira temos que envolver os moçambicanos. A paz não pode ser objecto exclusivo de dois actores, nomeadamente o governo e a RENAMO, mesmo que tenha a mediação da comunidade internacional!

A paz não é apenas de um ou dois actores. Tem que ser uma paz dos moçambicanos. E é aqui onde nós queremos entrar: precisamente fazer uma distribuição criativa dessa situação, uma partilha de poderes e responsabilidades, para que não sejam apenas dois atores a fazer a paz. Nós somos todos moçambicanos e todos nós queremos participar no processo: estudantes, mulheres, trabalhadores, religiosos! Juntos iremos encontrar um paradigma social, um paradigma político, que possa aproximar as partes e colocar o estandarte do progresso da nação com o objectivo de uma paz duradoira.

Quanto as ideias concretas para fortalecer o diálogo, Salomão Muchanga apresenta as que, segundo ele, foram definidas no Painel de Monitoria do Diálogo Político para a paz que se consubstancia no chegar rapidamente à trégua e que se volte à mesa de negociações num ambiente suadável e numa base ética favorável ao processo. "Esperemos que todas as ideias que temos sejam sistematizadas, para que no decurso deste processo de diálogo possam ser apresentadas às duas delegações e aos mediadores internacionais.

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