MUNDO

 
2 de outubro 2016 - às 06:01

MICHEL TEMER: O NOVO MANDATÁRIO

Tal qual a presidente deposta, Dilma Rousseff (PT), o novo mandatário brasileiro, Michel Temer (PMDB), não é popular. O eleitor parece enxergar ambos como copartícipes de um governo que arruinou o País

 

Não é uma visão equivocada. O PMDB apoiou quase tudo que o PT pediu nos últimos 13 anos. Em troca, levava o seu quinhão de cargos. Além disso, ambos estão maculados pela Lava-Jato – embora só o PT tenha sido punido.

Há, no entanto, uma diferença essencial entre os dois. Dilma tinha os votos de mais de 54 milhões de eleitores. Temer, não. Para lá de questões legais da unicidade da chapa eleita, que serão dirimidas pela Justiça Eleitoral, a ex-mandatária tinha a legitimidade, por exemplo, para implantar políticas estatizantes.

Temer ganhou o direito e o dever de governar o País. O impedimento, porém, não faculta o desprezo pelo rumo que as urnas de 2014 impuseram às políticas públicas. Se não por respeito ao voto, por pragmatismo.

O eleito vice-presidente tem um leque de iniciativas que quer ver aprovadas pelo Legislativo e implementadas no seu governo. Reformar a previdência, alterar as leis trabalhistas, reformular as políticas sociais, acelerar as concessões, catapultar as privatizações, dar um cavalo-de-pau na política externa e sanar a economia destroçada. Tudo em dois anos e quatro meses!

 

Problemas - Há dois riscos no caminho do 37º presidente do Brasil. Primeiro, ao dividir a sua atenção numa pauta que poderia custar um ou dois mandatos presidenciais inteiros Temer pode não fazer nada direito.

Antes de qualquer grande reforma, o Brasil precisa consertar a economia, o que já é um trabalho hercúleo. A tarefa imediata é o fim da carestia e a redução do desemprego, mães de todas as agonias.

Para isso, o presidente deverá ter o apoio dos parlamentares e da cidadania. Mesmo assim, como muitos caminhos levam a Roma, ele terá que peitar congressistas e convencer eleitores de que a sua rota é a melhor.

O segundo risco de Temer decorre da sua condição. Se é legal que ele conduza a Nação até 2018, pode não ser prudente que desfigure as indicações das urnas de 2014 – que ratificaram 2010, 2006 e 2002.

Nem privatizar nem reduzir direitos de trabalhadores saíram vencedores daquele pleito. Há muitos empresários, consultores e jornalistas influentes argumentando que sem reformas doloridas o Brasil não avança. Pior, de acordo com eles, o Brasil irá à falência sem elas.

No entanto, o povaréu que vai pagar a conta ainda não se convenceu. Afinal, sempre sobra para os mesmos.

Caso Temer mande às favas a vontade do eleitor que ratificou em Dilma o projecto do PT, há outro obstáculo. Trata-se das ruas e a sua influência sobre o Congresso. Influência que foi decisiva para destronar Dilma.

Se o PT soube preservar o poder por 13 anos, caindo muito mais pelos seus erros do que pela cobiça dos adversários, saberá mais ainda voltar à sua especialidade, a de infernizar o governo de plantão. E, convenhamos, fazer oposição a um governo impopular não é das tarefas mais difíceis.

Embora deva ser gradualmente desaparelhada, pela redução dos dinheiros públicos repassados às corporações dirigidas pela esquerda, a força do PT não será dizimada. Quando as reformas chegarem, o noviço do Planalto terá que enfrentar a mobilização das ruas.

Ao mesmo tempo, o Congresso, como já indicaram vozes que apoiaram o impeachment, dificilmente cederá a reformas muito impopulares. Afinal, como justificar que um governo que favorece castas privilegiadas de servidores públicos queira agora ceifar e adiar aposentadorias do andar de baixo?

Assim, se quiser deixar um legado para o próximo presidente do Brasil, mesmo que seja ele, Temer deveria se concentrar no essencial. Qual seja, o controle da inflação, a volta do emprego e o equilíbrio fiscal.

Para ir além, o novo presidente deverá gastar muita saliva. Não apenas com os congressistas, com os quais já mostrou disposição para dialogar, mas com a população. Se não convencer cidadãos ressabiados com praticamente todos os políticos, Temer corre o risco de naufragar no seu curto itinerário de presidente-tampão.  

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