REPORTAGEM

 
2 de maio 2016 - às 07:18

MERCADO IMOBILIÁRIO “ARREFECIDO”

Nos tempos mais áureos da “bolha imobiliária” foram feitos negócios milionários. Proprietários chegavam a alugar casas por 15.000 dólares mês e vivendas de luxo, em ares nobres, chegaram a ser alugadas por 30.000 dólares mês. Tudo pago em cash e até um ano adiantado. Com a crise económica no País o mercado arrefeceu e abundam nas ruas anúncios de aluguer e venda de imóveis. É o fim do “eldorado”o angolano

 

Júnior, 56 anos, é proprietário de um amplo espaço comercial na Ingombota, no auge da “bolha imobiliária” fez um contrato com um grupo de libaneses que alugaram o espaço por 38.000 dólares. O contrato vigorou por cinco anos e permitiu ao arrendatário ter uma vida de classe média alta. “Foi muito bom, recebia cento e catorze mil dólares a cada três meses. Comprei muitos terrenos, enviei os meus quatro filhos para estudar na Inglaterra, viajava várias vezes para a Europa… já foi bom”, referiu com a voz embargada.

Com o agudizar a crise económica mundial, no ano passado, o inquilino contactou Júnior pedindo para rever o preço do aluguer em função da diminuição de clientes. O proprietário, que hoje reconhece ter avaliado mal o contexto do país, julgando que poderia continuar a alugar pelo mesmo valor, exigiu que os clientes pagassem o mesmo. Insatisfeitos, os libaneses decidiram rescindir o contrato.

Mais de um ano depois Júnior não consegue alugar o imóvel, que está empoeirado. Repentinamente, o proprietário, que não trabalha, ficou sem recursos mas com inúmeras contas para pagar, três dos seus filhos tiveram que voltar do exterior. “Para mim, foi um grande abalo, nunca pensei que o preço das casas fosse baixar tanto e nem sequer há clientes”, lamentou o senhor que, em consequência teve um acidente vascular cerebral, do qual sobreviveu e está a tentar recuperar-se.

Tal como Júnior, muitos outros proprietários foram apanhados de surpresa pelo arrefecimento do mercado imobiliário. “Arrenda-se”, “aluga-se”, “proprietário procura parceria” são os inúmeros anúncios que proliferam na cidade dando uma ideia dos espaços e casas disponíveis.

Para as pessoas que procuram casas para arrendar têm sido bons tempos. Apartamentos que antes custavam 5.000 dólares mês hoje estão a ser alugados por 200.000 Kwanzas depois de muito tempo vazios. “Antes vivia em um apartamento de 5.300 dólares mês mas com a crise consegui outro em que pago bem mais barato, 220.000 Kwanzas e só pago de três em três meses”, explicou um empresário português residente em Luanda.

Para os proprietários são tempos difíceis. “Tenho duas vivendas no Lar do Patriota, uma está vazia há oito meses e recebi a outra agora porque o brasileiro que lá vivia foi embora, tentei alugar pelo mesmo preço e não consegui, tive que baixar o preço e mesmo assim até agora não consegui cliente”, explicou uma senhora que preferiu apenas ser identificada como Lu.

Em tempos áureos Lu tinha uma renda mensal de 14.000 dólares que recebia do aluguer das duas vivendas de Luxo que tem e de um pequeno escritório na Mutamba. “Pensei que fosse continuar sempre na mesma e o mais complicado para mim é que não fiz poupanças…eram muitos gastos”, diz enquanto encolhia os ombros.

Mas nem todos perderam a oportunidade. Um empresário angolano com quem conversámos confidenciou-nos que o seu negócio começou com o aluguer de uma vivenda que herdou dos pais na Vila Alice. Com o dinheiro do aluguer anual conseguiu comprar terrenos em zonas bem localizadas de Luanda, montou uma loja e está a construir uma residencial. “Sempre tive em mente que devera aproveitar bem o momento”, realçou.

 

É impossível voltarmos aos preços de antes - Para entender melhor o que se passa com o mercado imobiliário nacional conversamos com duas consultoras da empresa “Propricasa”, nomeadamente Conceição Fialho e Fátima Cassinda. Ambas foram peremptórias ao afirmarem que é impossível voltarmos aos preços de antes.

As duas consultoras, com vários anos de experiência, lembraram os tempos áureos em que chegaram a negociar apartamentos por 10.000 dólares mês e vivendas de até 20.000 dólares mês e em que as casas bem localizadas eram vendidas por milhões. Conceição Fialho, por exemplo, lembra que no último bom negócio que fez chegou a ganhar de comissão 100.000 dólares. 

Fruto da crise económica que o país enfrenta regista-se uma redução na procura de imóveis, o que levou ao “arrefecimento do mercado imobiliário”. Conceição Fialho explicou-nos que nesta altura há mais oferta do que procura por casas, o que levou a baixa do preço. “Nesta altura os clientes procuram preços justos e realísticos”, frisou a consultora, acrescentando, mais adiante, que estamos a passar por um processo de reajuste.

“Há uma tendência de redução de custos por parte de quem procura imóveis”, explicou Fátima Cassinda. No âmbito do seu trabalho a mesma explicou que em muitos casos os proprietários insistem em manter os preços altos e perdem a oportunidade de fechar negócio. “É melhor ter um cliente com redução de renda, actualizar os valores do que não negociar e ficar com o imóvel vazio”, aconselhou.

Mas nem tudo são más notícias. As consultoras aconselham a quem tem poupanças a investir na compra de imóveis já que proprietários com dificuldades financeiras podem querer vender a preços abaixo do valor do espaço e o facto de existir mais oferta que procura pode ser uma óptima oportunidade de fazer um bom negócio.

Outro conselho que as consultoras deixaram é no sentido de quem quer fazer negócio de compra ou arrendamento de imóvel procurem empresas do ramo, devidamente constituídas, para evitarem serem enganados ou até consequências piores como aconteceu com os cidadãos chineses assassinados depois de terem feito um negócio de compra de terreno. “Nós temos todo cuidado, acautelamos que o proprietário tenha a devida documentação e acompanhamos o processo até o fim”, disse Fátima Cassinda, da Propricasa.  

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