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5 de June 2021 - às 07:05

MAYA COOL ALERTA PARA OS CUIDADOS CONTRA A COVID-19

O músico angolano Lucas de Brito "Maya Cool"  alertou os angolanos para a necessidade de se reforçar a prevenção e combate à pandemia da Covid- 19, tendo em conta as consequências que provoca no seio familiar.
Nesta entrevista, o artista recorda os piores momentos passados por si e sua família quando foi acometido pela doença. 
"O ano 2020 foi para mim muito duro. Não é fácil passar por uma doença como esta e sair incólume. Dou graças a Deus por continuar ao lado da minha família", realçou o autor de temas como "Ti paciência, Junta ma nós, Moringa, Boca Azul, entre outros sucessos do music hall angolano.
 Maya diz estar pronto para outros voos na sua carreira, mas reforça a
necessidade de um maior investimento na indústria musical, em particular, e cultural em geral, angolana. 

 

“DOU GRAÇAS A DEUS POR CONTINUAR AO LADO DA MINHA FAMÍLIA!"

Figuras&Negócios (F&N) - O ano de 2020 marca de forma muito negativa a vida de todos, face às dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19. Enquanto artista e criador, como olha todo esse cenário do Mundo.

Maya Cool (MC): No pessoal e no profissional devo dizer que foi o mais negativo já vivido até hoje. Além de todas as restrições vividas, desde o princípio de ir e vir, as mortes foram de todo devastadoras. Vimos familiares a perecerem, famílias destruídas, tudo sem um prévio aviso, sem explicação, então o cenário que vivemos em 2020 era um cenário de terror, só que no caso de terror real. É um ano para esquecer, mas que deve servir para todos refletirem sobre as nossas acções.

F&N - Qual foi, até agora, o impacto da Covid-19 na sua carreira? 

MC: Começo por dizer que faço parte da estatística geral dos casos positivos da Covid-19 em Angola. Apesar de muita gente não ter tido conhecimento, tive à Covid-19 e fiquei gravemente doente por conta disso.
Logo devo dizer que, de forma directa e pessoal, sofri na pele. Graças a Deus consegui escapar ileso e hoje estou aqui para contar e pedir aos angolanos para redobrar as acções de prevenção. É para levar a sério. Outro sim tem a ver com a vida social, falta de trabalho, o impedimento de poder estar com as pessoas que a gente ama.

F&N - Do seu ponto de vista, Angola está a dar boa resposta à pandemia?

MC: Dentro da nossa realidade não. Não somos um país desenvolvido e com condições para respondermos às dificuldades que as populações recônditas e necessitadas precisam. Estamos a ver que não estávamos preparados para enfrentar tal situação. Faltou de facto ajuda social.
Chegamos a conclusão que afinal se deve investir mais internamente em tudo: Saúde, indústria, agricultura, habitação, educação.

Mas do ponto de vista de prevenção e combate à pandemia, o país, no caso concreto as autoridades, deu uma boa resposta. Conseguiu com muito esforço e sabedoria gizar uma estratégia para evitar a propagação em alta escala e mais do que isto, controlar os casos, evitando que o colapso do sector de saúde. As previsões internacionais não eram boas para África, em geral, e para Angola, em particular.  

F&N - Os artistas estão a dar as melhores respostas, ou podiam fazer muito mais?

MC: Por mais que os artistas quisessem fazer mais, não lhes seria fácil, creio que tudo que estava ao alcance dos artistas para divulgar, orientar juntar e ajudar o Executivo na passagem de mensagens orientadoras foi feito. Participamos em lives transmitidos pelos canais televisivos nacionais, que serviram para a recolha de fundos e bens para os mais carenciados, participamos em campanhas. Penso que fizemos o que estava ao nosso alcance para ajudar o Governo a garantir as mínimas condições para todos. 

F&N - Passou por esta provação e conseguiu recuperar. E em termos de trabalho, conseguiu realizar algum espectáculo desde que a pandemia se instalou em Angola? 


MC: Profissionalmente, não foi fácil para nenhum artista. E estou a falar de todos os sectores da vida cultural. E não foi só em Angola. Em todo mundo, em todos os sectores houve dificuldades. Mas, apesar das dificuldades acabei o ano com a realização de 4 espectáculos. Não é grande coisa, mas nas actuais condições é um registo louvável.

F&N - Consegue quantificar, em termos numéricos, quanto terá perdido de cache por causa da pandemia?

MC: Bom, a nossa vida artística não é como uma ciência exacta. É muito relativo o que se ganha em cada mês. Por isso não consigo quantificar quanto perdi ou quanto poderia ter ganho durante o ano de 2020. Mas posso dizer que perdi uns bons milhares de Kwanzas.

F&N - Que alternativa tem encontrado para continuar a fazer da música uma fonte de ganha-pão?

MC: Acreditar em dias melhores. Sou de um tempo em que a esperança alimentava as nossas almas, os nossos sonhos, o tempo passou e parece que voltamos no tempo. A esperança me faz acordar e trabalhar para que o sonho continue.

F&N - Musicalmente, onde vai buscar inspiração para o trabalho que apresenta ao público?

MC: Onde sempre fui buscar: no olhar de cada angolano, nas histórias das nossas vidas, do amor ao próximo, e claro na força divina.

F&N - Que avaliação faz da sua carreira?

MC: É uma carreira que já leva muitos anos de estada. Com muitas estórias, desilusões e conquistas. Por esta altura considero ser uma carreira estável.

F&N - O que fez ou gostaria de ter feito de forma diferente?

MC:  Gostaria de ter gravado muito mais canções.

F&N - Como olha para o mercado musical em Angola?

MC:  Descontrolado, atrapalhado, desunido, desestruturado, onde os artistas fazem o que podem e como podem, num mercado onde não há regras. Uma autêntica lei da selva.

F&N - O que falta para a música angolana tomar de assalto de uma vez por todas o mercado dos Palop e afirmar-se em África?

MC: Muito. Os músicos angolanos já fizeram muito em relação a isso.

Rompemos fronteiras. Agora é necessário um investimento maior. A música deve ser de facto uma indústria e isso deve começar de cá de casa. Os resultados serão vistos e notados logo.

F&N - Muito se fala sobre a qualidade da música angolana produzida actualmente, havendo quem considera que é descartável. Acha justa esta afirmação?

MC: Não podemos esconder essa realidade, apesar dos esforços dos artistas. É a pura verdade.

F&N - Para terminar, como olha para a nova Angola, conduzida por um novo Presidente e quais pensa que devem ser as prioridades do novo Governo, sobretudo agora que o país vive uma das suas piores crises sociais e económicas?

MC: Penso não ser uma governação fácil para o nosso presidente. Aliás, não sei se existem governações fáceis. A verdade é que mesmo dentro das adversidades está criar condições para reverter esses momentos cinzentos que Angola, e até o mundo, vive. Entretanto, no nosso caso pessoal, João Lourenço tem pela frente muitas barreiras para romper, crises para sanar, corações para unir, vidas para guiar. Não será e não é de todo uma tarefa fácil.

F&N - Como olha para Angola nos próximos anos, face às medidas de governação impostas actualmente?

MC: Penso sempre em esperança, ela me move e quero passar isso a todos os angolanos. Claro que nada será como antes, mas espero uma Angola um pouco melhor para todos os angolanos.


Perfil 

 

Lucas de Brito Pereira da Silva “Maya Cool” é o nome de um artista que ainda criança “mergulhou” no mundo da música, tendo a Rádio Nacional de Angola (RNA) como ponto de partida e projecção, nos tempos do programa infantil “Piô-Piô”.


Natural de Luanda e possuidor de um carácter firme, o autor cresceu no município do Golfe e no bairro da Terra Nova (Rangel), onde descobriu a sua veia musical, sob influência da sua mãe e de um professor do ensino primário.


Na altura, tímido e de poucos anseios, Maya Cool ingressou no grupo coral da Igreja do Cristo Rei, onde surgiu a ideia de efectuar um teste na RNA, a fim de ingressar no grupo de cantores infantis “Piô-Piô”.


Naquela estação radiofónica, que lhe “abriu as portas” para o mercado angolano, o cantor conviveu com outros artistas renomados, à época, como Ângelo Boss, Mamborrô, Joseca, Lopes Cortez, Mara Max, entre outros.


Em 1988, Maya grava o seu primeiro grande sucesso, intitulado “A Moringa”, adaptado de um tema tradicional, o qual se seguiram outras canções de sucesso, como “Nelson Mandela” e “1 de Junho”.


Segundo ele, o apelido de Maya Cool surgiu numa altura em que o artista interpretou, com brio, uma canção do músico brasileiro “Ti Maya”, que levou os colegas do “Piô-Piô” a tratarem-no como tal.


Em 1991, emigrou para Portugal, onde conheceu e integrou a banda de Eduardo Paim, primeiro como corista, e, posteriormente, como teclista. 


Em 1997, gravou o seu primeiro disco “Lágrimas”, que conquistou o “Disco de Ouro”. Nessa altura, foi o “Músico do Ano” no Top Rádio Luanda.


Em 1998, gravou em Portugal e Holanda, o seu segundo CD “Igual a Ti” , no qual participaram Mariza, SSP e Grace Évora.

 
Em 2007, foi vencedor do “Top dos Mais Queridos”, da RNA. O seu último trabalho discográfico, intitulado “Certeza”, saiu em 2012, onde se destaca o tema “Ancoró”, mas as suas músicas mais emblemáticas fazem parte dos álbuns mais antigos, como “Igual a ti” e “Lágrimas”.

 

Textos: Venceslau Mateus
Fotos: Arquivo NET

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