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26 de novembro 2015 - às 18:32

MARTINHO DA VILA, MÚSICO BRASILEIRO: SONHO FAZER UMA DIGRESSÃO MAIOR EM ANGOLA

Nesta entrevista, Martinho comenta a relação do samba com a língua portuguesa, o seu carinho pela lusofonia e o seu processo criativo de carpintaria literária

 

Martinho José Ferreira,  mais conhecido  por Martinho da Vila,  nasceu na cidade fluminense de Duas Barras, em 12 de Fevereiro de 1938. Foi para a capital aos 4 anos. Chamou a atenção do público em 1967, no III Festival da Record, com Menina Moça. Mas o primeiro sucesso veio no ano seguinte, com Casa de Bamba. Ele é bamba. Sua relação com a escola de samba Unidos de Vila Isabel é de 1965. Criou o samba-enredo Kizomba: a Festa da Raça, de 1988, para os cem anos da Lei Áurea. Dez anos depois, retomaria o tema no romance autobiográfico Kizombas, Andanças e Festanças. 

Autor vulcânico. Os seus 11 livros, de infanto-juvenis a romances, são para ele tão vitais quanto os 48 discos lançados desde os anos 60. Em entrevista por email para Figuras&Negócios, o expoente do samba  carioca foi rápido, super  sucinto, mas garantiu que costuma criar um álbum de canções como se escrevesse um livro e recomenda que todo mundo tire um dia da semana para ouvir as faixas de um bom CD só para ler as letras. Além do  mais, Martinho é compositor da lusofonia. Fez o disco, Rosa do Povo, só com os poemas do livro homónimo de Carlos Drummond de Andrade. E transita por países africanos de língua portuguesa a pesquisar raízes e falares com que alimenta a sua obra. “Na  sua passagem por  Angola foi  claro: “ tocar  em  Angola é  sempre  emocionante”. 

Tem em Vila Isabel a sua sede. O bairro carioca deve a Noel Rosa a fama cosmopolita do  seu samba. Hoje, é difícil pensar o lugar sem Martinho. Aos 75 anos, o cantor acaba de ter a obra revisitada pelo escritor Hugo Suckman, numa discobiografia do projecto Sambabook. 

Nesta entrevista, Martinho comenta a relação do samba com a língua portuguesa, o seu carinho pela lusofonia e o seu processo criativo de carpintaria literária.

 

Figuras&Negócios (F&N) - Qual a importância de ter a obra revisitada por artistas tão variados?

Martinho da Vila (M.V.): Para um compositor, é uma honraria muito grande e gostei mais do projecto, sinceramente, porque é muito importante para o samba e não só para mim. Em quase todos os projectos do género, em geral se faz algo muito transado, mas o samba sempre fica para o final. O samba nunca teve um produto como esse, tão bem feito, tão bem armado.

F&N: Já se vão mais de 75 anos de vida e grande parte da sua idade é dedicado ao samba. Qual é avaliação da sua carreira ao longo desse tempo? 

M.V.: Não gosto de avaliar a minha carreira.

F&N: O Senhor tem oito filhos, dez netos, 45 anos de carreira e participa de uma maratona de shows. Como anda a sua saúde?

M.V.: Além dos 10 netos tenho uma bisneta. Fiz um check up recente e a minha saúde está muito boa, graças a Deus.

F&N: Qual a importância de ter a obra revisitada por artistas tão variados?

M.V.: Releituras da minha obra por diversos artistas é importante porque as músicas ganham nova vida. Fico sempre muito feliz. A Simone gravou um disco inteiro com músicas minhas e está para sair um outro belíssimo feito pela cantora Ana Costa, também inteirinho.

F&N: O samba carioca tem uma maneira própria de lidar com o uso das palavras?

M.V.: Tem. Nas músicas de Noel Rosa, no passado  e Chico Buarque,  no presente, a letra tem uma importância fundamental, assim como nas composições do  Nei Lopes e alguns outros.

F&N: O Senhor ainda compõe? Como o faz, cria a melodia inicialmente e por aí vai? 

M.V.: Recentemente fiz, em parceria com Francis Hime e Olívia, a música “Daqui e de Acolá” que apresentamos no Projecto Calunga II, em Luanda. A mais nova composição “Amanhã é Sábado”, lancei no programa Fantástico da TV Globo, com  a cantora Roberta Sá. A Escola de Samba. Unidos de Vila Isabel vai desfilar com um samba de minha autoria e parceiros. Não é possível dizer, em poucas linhas, os meus métodos de composição.

F&N:  É dolorido fazer música?

M.V.: É um processo estafante, mas muito prazeiroso no final.

F&N: Há liberdade maior no manejo da língua ao se escrever letra de música do que um livro?

 M.V.: Há uma certa  liberdade ao escrever letra de música, graças às licenças poéticas.

F&N:  Você é autor do livro Os Lusófonos. O que o atrai nos países de língua portuguesa?

M.V.: O que me atrai está no livro.

F&N: O Senhor é  sucesso no mundo que o compreende, mas  com mais força nos países de língua portuguesa. Ainda sim, o senhor não acha que falta investir mais na carreira internacional? 

M.V.: Eu não invisto na carreira internacional. Ela acontece. Estou a estudar propostas de vários países. 

F&N: Quando o senhor iniciou a carreira, imaginou chegar onde chegou?

M.V.: Não. 

 F&N: O Senhor já vendeu milhões de cópias ao longo da sua carreira. Qual foi o disco mais representativo da sua vida musical? 

M.V.: Todos os meus discos são representativos.

F&N: O actual cenário do samba lhe agrada?

M.V.: Sim.

F&N: O que lhe dá mais prazer: compor um samba-enredo para a Vila Isabel, escrever um novo livro, ou cantar para milhares de pessoas?

M.V.: São actividades muito distintas e incomparáveis.

F&N:  Quem o inspirou fazendo pensar: “Puxa um dia eu quero ser igual ou até melhor que esse cara”?

M.V.: Nunca pensei assim.

F&N:  Muitos músicos dos países de língua portuguesa sempre foram bem aceites no mundo. Entretanto, nos últimos anos a qualidade melhorou ou piorou?

M.V.: Melhorou muito.

F&N:  Que avaliação o Senhor faz da sua  passagem por Angola? 

M.V.: Ir a Angola é sempre emocionante. 

F&N:  O Senhor acha que é possível uma maior integração  entre os músicos das duas nações de língua irmã?

M.V.: É possível e importante, mas há necessidade de investimento.

F&N:  Há possibilidade de voltar a fazer uma agenda maior em Angola no  ano de 2016? 

M.V.: Ultimamente só tenho sido convidado para cantar  em Luanda, mas no próximo ano sonho fazer uma digressão maior.  

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