MUNDO

 
23 de maio 2018 - às 09:03

MARIELLE FRANCO, DOIS MESES DEPOIS: INCÓGNITAS, INDIGNAÇÃO E NENHUM CULPADO

"Existem vários factos que estão sendo estudados e vários indícios que apontam para que o crime possa ter uma solução", afirma o comando da intervenção militar no Rio de Janeiro

 

Nesta semana de fechamento da edição de Figuras&Negócios completou-se mais de 50 dias em que os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, sem que a polícia tenha chegado aos culpados do crime. 

Os assassinatos que abalaram o Brasil, mas ainda não têm suspeitos. "Este é um caso difícil, não se trata de uma coisa simples. Existem vários factos que estão a ser estudados, várias perícias que vêm a ser realizadas e vários indícios que estão a ser analisados pelos investigadores e que apontam para que o crime possa ter uma solução", diz o coronel Roberto Itamar, porta-voz do general Walter Braga Netto, interventor federal no Rio de Janeiro. "Não falta empenho por parte da equipe que está trabalhando".

Na noite do dia 14 de Março, quando seu carro transitava pela rua Joaquim Palhares, no Estácio, Rio de Janeiro, Marielle foi abordada por um grupo de homens armados em outro veículo e levou quatro tiros na cabeça. Foram, no total, 13 tiros de uma pistola 9mm que também atingiram a cabeça de Anderson Pedro Gomes, seu motorista. 

Um dia depois, as ruas da capital fluminense e de outras grandes cidades brasileiras foram tomadas por milhares de pessoas que prometiam continuar as lutas da parlamentar, negra, lésbica e oriunda do complexo de favelas da Maré. Exigiam o fim da intervenção federal no Estado (Província) do Rio, o fim da guerra contra as drogas, travada nas favelas e periferias e que vitimiza milhares de jovens e negros todos os anos, o fim do racismo e do machismo institucional. Também clamavam por Justiça, com a certeza de que aquele crime era político.

 

Provável envolvimento de milicianos - A principal hipótese levantada pela Polícia Civil é a de que a morte de Marielle foi encomendada por milicianos, grupos paramilitares formados por policiais, bombeiros, militares e agentes penitenciários — alguns ainda estão na ativa e outros não. 

Marielle trabalhou, em 2008, na Comissão Parlamentar de Inquérito das milícias ao lado do seu companheiro de partido, o deputado Marcelo Freixo. Por não sofrer ameaças, ao contrário de Freixo, a vereadora não contava com um esquema de segurança pessoal e era um alvo fácil. O modo como foi executada indica a participação desses grupos paramilitares.

Mas, até hoje, esse é o fim da história. "Todos [os envolvidos na investigação] estamos altamente interessados e empenhados em desvendar esse crime e responsabilizar as pessoas que realizaram esses assassinatos covardes. As investigações estão sob sigilo para que não sejam prejudicadas, mas estão andando bem e o otimismo a gente sempre tem que ter", acrescenta o coronel Roberto Itamar.

A Polícia conseguiu detectar fragmentos de digitais nas cápsulas encontradas no local do assassinato, segundo informou o jornal O Globo. Elas serão comparadas com as digitais de Alexandre Cabeça e de Anderson Cláudio da Silva. A Polícia Civil concluiu, ainda nos primeiros dias de investigação, que a munição utilizada pelos atiradores, de calibre 9mm, pertencia ao lote UZZ-18 vendido pela empresa CBC para a Polícia Federal de Brasília, em 29 de dezembro de 2006, que acabou roubado no estado da Paraíba, segundo o Governo. Foi desse mesmo lote que saiu parte da munição utilizada por policiais na maior chacina de São Paulo, em 2015, na cidade de Osasco.

Na ocasião, o ministro da Defesa, Raul Jungmann disse que o lote havia sido desviado dos Correios da Paraíba, algo que foi desmentido pela própria instituição. Correios disse ainda que "não aceita postagem de remessas contendo armas ou munição, exceto quando autorizado por legislação específica".

 

Testemunhas que viram o crime - No início deste mês houve o depoimento de duas testemunhas do caso. Elas, que foram ouvidas separadamente, contaram que o veículo onde estavam os assassinos imprensou o de Marielle. Depois, viram um homem negro sentado no banco de trás colocando o braço para fora do veículo com uma arma de cano alongado, semelhante a um silenciador. 

Elas também asseguram ter visto apenas um carro — as câmeras de segurança mostram dois veículos seguindo a vereadora. As duas pessoas ouvidas pelo jornal também contam ter ficado no local do crime até a chegada da polícia, mas que a PM mandou todos saírem do lugar sem serem ouvidos.

Para o coronel Roberto Itamar, porta-voz da intervenção federal, trata-se de um procedimento normal adotado pelos agentes para que o local do crime não seja contaminado. Também acredita que as testemunhas poderiam ser pessoas curiosas que trafegavam pelo local após o crime.

 

O caso Marielle nas redes sociais - Após o assassinato de Marielle e Anderson, grupos direitistas como o Movimento Brasil Livre (MBL) e outras pessoas - dentre elas uma desembargadora do Rio e o deputado da bancada de apoio à legalização do porte de armas Alberto Fraga - espalharam mentiras e promoveram uma campanha difamatória contra a vereadora. Mas a família da vítima conseguiu importantes vitórias na Justiça contra eles. O juiz Jorge Jansen Counago Novelle, da 15ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, ordenou na ocasião que o Facebook retirasse do ar todas as publicações "que ofendam a intimidade, a honra e a imagem de Marielle Franco". Determinou ainda que a rede social informasse se o MBL, assim como a pessoa identificada como Luciano Ayan, administrador do site Ceticismo Político, ligado ao grupo, "patrocinaram os posts que impulsionaram a onda de fake news". A Justiça do Rio também determinou que o Google retirasse 16 vídeos do Youtube que continham mentiras contra a vereadora. 

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital