ÁFRICA

 
6 de October 2020 - às 06:38

MALI Mau uso de fundos do estado derruba presidente

Nas palavras do próprio IBK, retransmitidas ao público pela Junta, “a vontade do povo” venceu e derrubou-o. Em manifestações que antecederam o golpe, três meses a fio, a sociedade civil acusou IBK de má utilização dos recursos financeiros.

 

Regime de escândalos em escândalos” – assim o caracteriza há anos a sociedade civil do Mali. A queda do presidente Ibrahim Boubacar Keïta (IBK) resulta da acumulação dos resultados de má governação: desvio de fundos públicos, essencialmente. A sobrefacturação na importação de equipamentos militares (denunciada em 2014) e de insumos para a agricultura apenas exacerbou a revolta da classe política e dos grupos cívicos. Os factos atiçaram a fúria do oficialato pertencente a um exército quase impotente em face de várias bolsas de extremistas islâmicos. A Junta militar, mentor do golpe de estado no Mali, vê, por enquanto, harmonia entre as suas posições e as da coligação dos partidos políticos da oposição. Ambas as partes discordam da relutância da organização regional (CEDEAO). Esta última dita o prazo de um ano para a transição. Dois a um ano e meio, segundo a concordância de visões da Junta e da coligação. O quadro assim traçado expõe uma evidência: as condições para o derrube do poder de IBK tinham já amadurecido. 

Nas palavras do próprio IBK, retransmitidas ao público pela Junta, “a vontade do povo” venceu e derrubou-o. Em manifestações que antecederam o golpe, três meses a fio, a sociedade civil acusou IBK de má utilização dos recursos financeiros.

Já em 2019, numa análise da situação, o comentarista Youssouf Sissoko apontava seis personalidades próximas do IBK como tendo sido facilitadores da delapidação dos fundos do estado, factor-chave para accionar a vigilância dos activistas e a ira popular. Entre as citadas figuras está Karim Keita, filho de IBK (preside a comissão de defesa da assembleia nacional desde a ascensão do pai, em 2013).

 

IBK e escândalos financeiros

Para ilustrar um escândalo financeirohistórico havido em 2014, Sissoko (num comentário para Bamako.com) escreve que “até um par de meias sofreu sobrefacturação”. O equipamento militar abrangido inclui um avião adquirido para IBK, na qualidade de comandante-em-chefe das forças armadas. Não tardou, o exército sofreu uma derrota após uma emboscada aos efectivos na localidade de Ségou por falta de reforço para o combate. Desde então o debate público acerca do descaminho de fundos do estado atraiu a opinião pública.

 

As prioridades da transição

A prioridade seria a garantia da segurança dos cidadãos, escolha decorrente da exposição do país ao terrorismo. A luta contra a corrupção e o saque das finanças públicas complentariam a lista das tarefas imediatas. A imprensa maliana especula sobre a intenção de apontar um civil como primeiro-ministro de transição, Malick Coulibaly (ex-ministro da justiça sob IBK), embora paire o receio de uma possível resistência do oficialato em ceder. O primeiro diálogo entre a Junta militar e a oposição coligada resultou em aproximação de pontos de vista, segundo noticiou David Baché, enviado da RFI.Um civil deverá ser investido para presidir a transição. Um militar poderá ocupar o cargo de primeiro-ministro da transição. 

À primeira vista, soa à estranheza a rapidez com que militares e civis harmonizam posições, logo no começo das discussões, pois a Junta havia dado, antes, sinais de aceitação das exigências da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental).O motivo invocado para tal atitude, na altura, segundo o Journal du Mali, reside na ideia de evitar isolamento na região e conquistar apoios. Além disso, a declaração inicial feita na véspera de um encontro com a missão conduzida pelo nigeriano Goodluck Jonathan (CEDEAO), em Bamako, fazia alusão a um poder de transição assumido apenas por militares para um período de três anos.Mais tarde, porém, a Junta alinha com a oposição coligada e ambas as partes comungam da ideia de estender a transição por dois anos ou, no mínimo, um ano e meio. A nosso ver, tal facilidade parece dever-se à partilha do espaço de reivindicações contra o poder do IBK. Como se sabe, as forças armadas figuram entre os sectores mais afectados pela bancarrota em que a prática da governação do IBK mergulhou o país. Não surpreende, por isso, a condenação em uníssono das teses da organização regional (CEDEAO) quer pela Junta, quer pela oposição civilcoligada. Para o M5-RFP, a CEDEAO “não pode impor a sua vontade ao povo maliano”, reporta a estação radiofónica francesa RFI.

Além de exigir um civil à cabeça da transição, a CEDEAO apontava, em alternativa, um “oficial na reserva”, de acordo com o comunicado da organização. O teor do documento suscitou rumores em torno do general maliano reformado (em 2016) Mahamane Touré, 64 anos, ex-chefe de estado-maior (em 2013) e antigo responsávelpelos assuntos políticos, da paz e segurança da CEDEAO em Abuja.

As contradições circulam, contudo, no seio das organizações políticas malianas. Enquanto as filiadas na coligação M5-RFP primam pela transição presidida por um civil, outras, adversárias, tentam incitar o oficialato a gerir o país, a crer em despachos coincidentes das agências noticiosas.

Baba Maiga, correspondente free lance em Bamako, acompanhou as organizações não-governamentais e investigadores independentes reunidos para debates intitulados “café cidadania”. Segundo a mesma fonte, os intervenientes preferem ter como foco o conteúdo, criticando a sobrevalorizaçãodos actores e a duração da transição a que se assiste nas discussões públicas do problema maliano.Citando Ibrahim Maiga, investigador maliano, a busca de soluções à crise deverá priorizar a reforma do sistema eleitoral visando eleições livres, transparentes e credíveis. Além disso, a reforma da administração do estado, a relação entre o poder central e os poderes regionais e a lida entre o estado e o cidadão serão prioridade. À margem dos debates, ainda em relação à transição, um consórcio das organizações sociais e comunitárias (OSC) pronunciou-se insistindo ser necessária a revisão da constituição, exprimindo propensão para um ano de transição, reporta Journal du Mali.

Organizados pela ONG “Observatório do cidadão”, os debates apontaram a questão sensível da actualidade no Mali, isto é, a segurança nacional, por enquanto ameaçada, na perspectiva do investigador Bokar Sangaré, citado pela RFI. 

Embora a Junta, pela via do coronel Ismael Wague, seu porta-voz, garanta que não tomará decisões sem uma “consulta massiva” e extensiva a todos os malianos, os receios dos críticos fazem sentido, desconfiando de um possível braço de ferro enquanto uma fórmula aceitável de transição civil não for desenhada. 

Mali vive de golpes militares desde a independência, em 1960, sendo o pai da nação, Modibo Keita, o primeiro a ser derrubado (em 1968) pelo tenente Moussa Traoré. O tenente-coronel Amadou Toumani Touré depõe Traoré em 1991. Soumana Sacko, un civil dirige a transição. É golpeado no mesmo ano. Alpha Oumar Konaré vence as eleições em 1992 e é releito, em 1997. O então tenente-coronel Amadou Toumani Touré concorre como civil e vence as eleições de 2002 e é reeleito em 2007. Um golpe de estado afasta-o do poder. 

O capitão Amadou Haya Sanogo assume o poder, suspendendo a constituição de 1992. A constituição é restabelecida e um civil, Dioncounda Traoré, presidente da assembleia nacional, assume a presidência interina. 

Em 2012, Dioncounda Traoré quase perde o poder na sequência de um assalto de manifestantes à presidência. O quase vazio do poder favorece o avanço dos jihadistas no país. A França intervem contra os jihadistas. A seguir, as eleições dão vitória a Ibrahim Boubacar Keita (IBK), sendo deposto a 18 de Agosto por golpe militar na sequência de três meses de protesto popular.   

 

Forças armadas impotentes

Para os críticos de IBK, a progressão dos grupos jihadistas armados e a fragilidade das forças armadas perante o caso tem por fonte a falta de recursos apropriados, situação devida aos desvios de verbas destinadas à defesa e segurança. Assiste-se à desmoralização dos efectivos e à baixa da capacidade de intervenção das unidades malianas. Segundo a publicação on-line Bamako.com, um dos focos de instabilidade no país está sob o comando operacional de um ex-coronel das forças armadas do Mali, Ba Moussa. Tendo desertado do exército para a rebelião Touareg, foireintegrado mais tarde. Em 2012, deserta de novo e filia-se no grupo jihadista dirigida por Amadou Koufa, aliado à Al-Qaïda. Ba Moussa tem actualmente instalada a sua praça-forte na floresta de Wagadou, zona que aloja vários grupos jihadistas, entre os quais o GSIM (Grupo de Apoio ao Islão e aos Musulmanos). Este grupo congrega vários movimentos jihadistas instalados no Mali e tem Ba Moussa como conselheiro do seu líder, Iyad Ag Ghali. Ba Moussa passou por um posto-chave do exército maliano, em 2006, o de comandante das forças especiais para a estabilização do Kidal, a histórica região onde o exército maliano consentiu uma derrota. 

As ofensivas contra os jihadistas devem-se essencialmente aos contingentes estrangeiros em missão no Mali, tais como a reportada pelo diário Jornal du Mali, a 27 de Agosto, a qual terá resultado em morte, a Norte do Mali, de Abdelhakim Es-Saharoui, tido como segundo homem forte do Daesh (Estado Islâmico). O paranoma não tranquiliza o país, já que se coloca agora a questão da provável saída ou permanência da missão da ONU (MINUSMA). Olhando para este cenário, a ministra francesa da Defesa, Florence Parly, em entrevista à rádio Europe 1, apelou para uma “transição o mais rapidamente possível”, porque “se isto não acontecer, o risco de aproveitamento pelos terroristas é evidente. Os terroristas nutrem-se da fraqueza dos estados e o estado maliano é fraco, muito fraco neste momento”.

A hostilidade da opinião pública do Mali em relação à presença das tropas francesas no território (e devido ao apoio de Paris a IBK) tende a alimentar o debate público, em França, a favor da retirada dos contigentes, assinalaMonde Afrique. Mesmo a actual presença dos franceses, no âmbito da operação Barkhane, vem sendo considerada um fracasso, diz a fonte. Soma-se, assim, mais um factor de fragilidade do estado maliano a braços com a segurança nacional.Tendo em conta esta tendência anti-francesa, o ex-ministro da defesa sob IBK, general Ibrahim Dahirou Dembele, celebrou um acordo militar com a Rússia, em Junho de 2019. As reacções dos influenciadores malianos nas redes sociais em relação à França e à Rússia são reveladoras da aversão a Paris. “É a França que irá perder” se sair do Mali, lança Camara Modibo, lido on-line por Figuras & Negócios. “Viva a Rússia, abaixo a França”, escreve Moulaye Abdallah Haidara. 

Enquanto activistas se mantinham de pé nas ruas para obrigar IBK a abandonar a presidência, os grupos de pressão, partidos políticos incluídos, delineavam a missão do novo poder de transição. IBK tentou oferecer a fórmula de um “Governo de Unidade Nacional”. “Não há lugar à menção de um governo de unidade nacional. O problema do Mali não se resume somente num governo de união”, replica Mahmoud Dicko, líder da coligação “Movimento de 5 de Junho-Coligação das Forças Patrióticas” (M5-RFP), em entrevista à estação de televisão France 24sediada em Paris.

Ao demarcar-se da proposta de IBK, o movimento popular M5-RFP identifica “o problema da má governação generalizada” como causa das mudanças pretendidas pela revolta lançada nas ruas em Junho.

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