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1 de dezembro 2016 - às 18:52

MAKUTA NKONDO: A MINHA DIGNIDADE NÃO TEM PREÇO

A polémica, a irreverência, o divórcio claro e óbvio diante dos medos e receios constituem marcas da sua personalidade. Neste espaço não se tentou descobrir nada de novo num homem que já foi jornalista no activo na Angop, representante da agência noticiosa France Press, um político que começou na UPA-FNLA, causticado pelas aventuras que a própria vida encarna e que sofreu com o assassinato da mãe; enfim, Makuta Nkondo abre o jogo no quintal da sua casa, localizada em Cacuaco, distante dos bairros chiques de Luanda. Mantém o seu gosto: o de viver com uma certa razoabilidade e no conforto da sua família. Ali, fomos encontrá-lo, bem disposto, sem medo de falar a verdade.  A sua verdade que, a seguir, revela, no fundo, um homem arrependido por estar ligado à Unita, ao cargo de deputado como independente e que nega, em absoluto, criar um partido político para representar a etnia bacongo, apesar do permanente "assédio" de uma certa franja da sociedade civil angolana, inclusive ligada à religião

 

Figuras&Negócios (F&N) - Senhor Makuta Nkondo; considera-se um político profissional ou um jornalista emprestado à política?

Makuta Nkondo (M.N)- Eu não me considero político como tal. Sou um cidadão angolano que intervenho na vida do meu país e do meu povo. Eu gosto de defender Angola e o angolano. Mesmo no tempo do semanário “Comércio Actualidade” (década de 90) eu tive sempre problemas. Antes eu fui procurado pelos gendarmes katangueses, devido a maneira como assassinaram Ambrósio Massiko que era o representante do Movimento de Libertação do Congo aqui. Ele vivia no Hotel Alvalade. Foram convidá-lo para uma reunião do Comité Central,  na sede do MPLA. Desapareceu até hoje. Denunciamos o facto. Eu é que fiz o artigo para o jornal “Comércio Actualidade”. Procuraram-me, dia e noite, para me abaterem. Gosto de defender as pessoas. Eu não sou político como tal e posso dizer porquê: cresci na UPA-FNLA (União dos Povos de Angola-Frente Nacional de Libertartação de Angola). Era pioneiro da UPA, eu é que transportava aquele quadro-símbolo de uma pessoa com correntes rebentadas para pô-lo fora do gabinete; cresci no quartel  do Luango, que era o mais operacional da UPA, e em casa do comandante João Nguimbe. O dia em que contei isto ao Holden Roberto, ele não sabia…

Qual era o meu trabalho? Sempre que havia alguma actividade da UPA eu recitava poemas, inclusive em francês. Participei em muitas actividades da UPA e, mais tarde , recebemos o primeiro delegado do GRAE no Baixo Congo. O GRAE era um governo dentro do governo do Congo e o seu delegado na altura era Francisco Xavier Lubota. Li uma mensagem de boas-vindas e fui coptado como secretário. Trabalhei com todos delegados do GRAE no Baixo Congo. Está aí a minha esposa que testemunha.

F&N - Quando é que aconteceu a sua separação com a UPA-FNLA e porquê?

M.N - Depois vim à Angola,  exercendo as funções de comissário político no Quissimba. De Angola fomos expulsos para a República do Zaíre, na altura, em 1975. Nunca revelei este segredo: Por que razão abandonei a UPA? Meu caro, a UPA-FNLA, a UNITA e o MPLA  (vocês não conhecem…) são movimentos assassinos! Eu, como antigo comissário político no Quissimba, a minha mãe andava doente. A FNLA queimou todas as aldeias. A mãe não queria mais entrar nas matas e ficou na aldeia. Eu estava refugiado no Congo. Comandantes da FNLA e soldados da FNLA e tudo, abateram a minha mãe. Quem matou a minha mãe está em vida. Por ordem superior do comando do ELNA. Ela não tem campa certa. Depois as pessoas foram me transmitir: "tu, Makuta; nós entramos nas matas e a tua mãe não entrou. Estava no Congo e a FNLA lhe levou à Angola. Ela tinha de fugir, mas deram-lhe tiros. Ela a correr, a chorar sob as rajadas. Portanto, não havia outra solução. Nenhum filho se pode reconciliar com o assassino do seu pai ou da sua mãe! Esse é o motivo que me fez  separar-me da FNLA. É a primeira vez que estou a revelar isto. Quem matou a minha mãe chama-se Joel, com o irmão dele Sambui também naturais da Quissimba e conheciam aquela brutalidade da tropa do ELNA.

F&N - Já se sabe que a partir dali procurou outros rumos, o que não terá sido fácil para si...

M.N - Pois! A partir daí, tentei aderir ao MPLA. Tentei, mas não fui militante do MPLA. Fui recrutado para ser membro lá no Congo, mas eu tenho o hábito de não responder no local. Logo na entrada em Matadi para o Nóqui, com a minha esposa e os meus filhos, fui agredido na aldeia Minguiengui, a cinco quilómetros. Chamaram-se de "zairense" e porquê? Porque aquela mesma gente do Miguiengue, que no Congo era qualificada como "zairense", foi a mesma que me agrediu. Questionei-me: aqui  também na Pátria dos meus antepassados, eu, Makuta Nkondo, sou considerado estrangeiro e ser agredido? Ao longo da via, da caminhada, só ouvia "zairense, zairense"… Então, no Congo sou refugiado e em Angola sou "mossorongo", "zairense", sou FNLA, sou UPA e as pessoas que me acusam são exactamente aqueles que recusaram participar na guerra de libertação? Eu sofri e agora sou isto?! Então, essa coisa não é minha…

No momento do movimento de rectificação de membros do MPLA, eu trabalhava na Administração Municipal do Nóqui (Comissariado). Eu neguei porque disse que só se rectifica uma cambota da viatura, uma cúpula ou uma árvore torta (risos). Disse-lhes que nunca fui militante do MPLA… Parece-me que foram lá o Lúcio Lara com elementos do Comité Provincial do MPLA, no tempo do Coordenador Jorge Barros Tchimpuaty… Eu recusei. Nunca fui rectificado. Nunca tive nenhum cartão do MPLA, enfim, nenhum papel assinado como membro do MPLA.

F&N - E a sua ligação com a UNITA? Como é que aconteceu e em que circunstâncias? Nota-se que aqui existe um paradoxo na sua tomada de posições, e não foi muito pacífica…

M.N - Eu, como representante da agência noticiosa France Press, tive simpatias pela UNITA. Quando saí da France Press, foi o Samakuva que me convidou em 2005/6, para ser seu assessor. Não como militante, mas como independente. Sempre recusei.

F&N - Então, quais foram os motivos do seu divórcio?

M.N - Como assessor, o Samakuva aproximando-se as eleições, convida-me para ser pré-candidato a deputado. Eu disse-lhe que como independente aceito, mas como militante… não! Aceitei, como independente. Bom, fiquei lá. Só que na UNITA comecei a constatar que quando saíssemos com Samakuva, chegávamos a certos sítios como por exemplo, o Soyo eu e o Samakuva na Pensão, estavamos a ouvir choros. O Samakuva mandou ver  que  confusão era aquela lá fora porque as pessoas estavam a chorar e a bater-se no chão com emoção por verem Makuta Nkondo ao vivo.

Aquilo passou. Por exemplo, fui com Samakuva ao Moxico. Eu, no Hotel, muita gente! Mais tarde fui convidado pela Frente das FAA (Forças Armadas Angolanas) porque  os militares queriam conhecer Makuta Nkondo ao vivo e se eu queria almoçar com eles…

F&N - Está a querer dizer que o senhor criou maior protagonismo em relação ao líder da UNITA criando uma suposta cisão em relação ao vosso futuro?

M.N - Sem saber, uma vez começo a notar o seguinte: Samakuva me recebe no gabinete e me diz: “Mano Makuta; eu detesto pessoas populares porque depois  apanham a vaidade tornam-se vaidosas por causa da popularidade”. Bom, ao longo da viagem, o sobrinho do Savimbi sempre me repetia a mesma coisa. Um general chamado Vetusi. Ele é um analfabeto. Na Frente Leste não é um ovimbundo, parece-me que é "lutchasi", lá no Moxico. Sempre que ele saísse para a frente de combate, voltava e era recebido com canções e danças. Ele como falava mal o português, dizia: "só se pode cantar para o chefe, o mano mais-velho" Pois é! Eu não sabia que na UNITA os louvores só servem para os chefes!.

Outro general, também analfabeto, falava assim: "meus irmãos, meus filhos; a democracia significa que vale a pena andar sozinho do que mal acompanhado" (risos). Tudo isso era piada para mim… Outro dia fui convidado para palestrar na OMUNGA. O Samakuva devia fazer uma digressão. Mais tarde fui chamado para uma reunião do Conselho da Revolução. E eu com o general Numa devíamos seguir-lhe. Seguimo-lo até Ndalatando e daí recebemos orientações para  esperá-lo em Samba-Lucala. Andámos muito e pensei: "agora vamos começar a apanhar sustos".

Uma coisa que você não deve saber: todos os guarda-costas que andam com o Samakuva são os antigos que andavam com o Savimbi. Começaram a conversa: "mano Makuta, a UNITA não está a ver que chegou desfalcada!". O Vakulukuta era tido como líder kwanhama. Então, era mal visto. Todo aquele que queria tirar o poder do Centro era abater.

F&N - Considerou estes factos como um aviso para si?

M.N - Começaram a contar-me todos os que foram abatidos. Comecei a reflectir. Como deputado, antes de qualquer sessão parlamentar de deputados, há uma reunião. Disseram-me: "eu não entendo; se esse senhor não é nosso membro (do partido) como é que ele é deputado?". "Como é que ele (eu), estou à frente de outros grandes quadros, nomeadamente o Chivukuvuku como 24 ou 25 e ele é o 16? Você é que na UNITA?. Foi todo o momento de ataques porque eu era o único independente. O Raúl Danda é antigo soldado deles, antigo jornalista da Vorgan (estação de rádio oficial da Unita); então você não é nosso, não estava connosco… Não te conhecemos e não é por teres "dikelengo"… Disseram-me isto e  conto mais um episódio: fomos à Benguela e à mesa da casa do representante da Unita revelaram que: "isto está estragado. No tempo de Savimbi, você que não é nosso, comer à mesa com o presidente?". (…) foi o Constantino Zeferino que me disse lá em Benguela que eu não tinha o direito de comer à mesa!

O Samakuva tem um defeito: não defende ninguém. Nem os seus grande amigos. Um jornalista da UNITA, do Sul, me perguntou: "Dr Makuta, você é amigo da UNITA ou de Samakuva?". "Porquê essa pergunta?"- questionei. Ele: "eu só perguntei"… O maior motivo que me separou foi que há pouco tempo fui convidado por Chivukuvuku para lhe acompanhar ao Zaire. Eu estava a fazer Mestrado no Paraguai. Disse que adiou a sua visita para que fosse com ele ao Zaire…(…)" Ah, Makuta: lá no Zaire te conhecem. Em todo o lado por onde passámos com Chivukuvuku, o maior problema era convencer o povo para não me levarem de chipoia. Para aquele povo (da província do Zaire) eu sou patriarca.

Andámos todo o Zaire até Kuimba. Num jantar de confraternização, disseram-me: "oh, Dr Makuta; nós te admiramos. Mas da maneira como defendes a UNITA e Savimbi, conheces?". Começaram a contar-me os assassinatos. Que Savimbi, no total, teve cerca de vinte uma mulheres e apenas uma morreu por doença, entre aspas. Todas foram mortas a tiro pelo próprio Savimbi!"

(…) Estou a confirmar  que se  soubesse que Savimbi era pior que Pol Pot ou os kmer Vermelhos de Cambodja (…) os dos (criadores) agora do Estado Islâmico, esta gente toda, eu nunca poderia estar ao lado da UNITA e do engenheiro Isaías Samakuva. Tanto Savimbi, Holden Roberto e Agostinho Neto não eram heróis; eram autênticos assassinos. Sanguinários! Por isso, eu disse: UNITA, FNLA nunca vão governar este país porque estão a pagar pelo sangue derramado. O MPLA? Porquê que o país não se normaliza e se estabiliza? É por  causa daquele sangue. 

F&N - Como resultado da sua persistência, das suas boas ou más intervenções sobre a situação do país político e conseguido este protagonismo com a sua marca identitária cultural, alguma vez pensou em formar um partido político?

M.N - Uma vez esteve em minha casa um grupo pertencente a uma religião influentíssima que me disse que veio mandatado pelo "chefe supremo" para que fosse convidado a fundar um partido político, que os seus membros seriam  os  crentes e que a tal igreja  iria financiá-lo…

F&N - Pode adiantar o nome da igreja?

M.N - Não, por enquanto! Tenho o hábito de dizer que "não recuso, mas também não aceito". Disse "está bem, vou reflectir". Até ontem, ligaram-me para saber em que ponto estamos. Duas semanas depois  fui convidado por um antigo conselheiro do Presidente José Eduardo dos Santos, membro do MPLA, para me pedir a mesma coisa. Fui ao  funeral da mulher do Siona Casimiro (jornalista veterano), um outro dos membros mais influentes do MPLA disse a mesma coisa: cria um partido político. 

Nós é que vamos apoiar. Ontem, fui almoçar  com um outro dirigente que me convidou para almoçar em casa dele, em Talatona, que declarou-me: "há uma riqueza importantíssima que tens: o nome, carisma e a aceitação popular".

"Tu és popular, e isto é indesmentível". Começou a dizer-me: os ovimbundos têm uma coisa deles.Pode ser nacional, mas a sua base é Ovimbundu, que é a UNITA. Os kimbundus são do MPLA mas só que este partido está a ser afundado pelos brancos, mulatos, santomenses e caboverdianos. Essa franja da população também tem um partido deles que lhes representa. Bem ou mal é aquilo! O caso do Justino Pinto de Andrade e a sua equipa. Havia a Frente para a Democracia, que agora é o Bloco Democrático que nunca acaba. Isso é uma força da Revolta Activa ou como se chamava.

Os bakongos já tinham a UNTA e a esta foi engolida pelo MPLA com a morte de Pascoal Luvualu. O Ndombele, outros e a própria UNTA, a original, quase não existe. A Upa - FNLA, segundo ele, o traidor Ngonda, juntamente com o inflexível Ngola Kabangu, a FNLA acabou! Para que o povo Kicongo, uma grande etnia que parte de Angola até ao Gabão não desapareça, disse-me o tal dirigente:  "a pessoa que estamos a ver é você.

F&N - Qual foi a sua resposta diante deste desafio? Dará agora ou mais tarde, em função da realização das próximas eleições gerais?

M.N - O que é que o homem vai me dizer? "Viste a notícia que saíu? Que estás a fundar um partido político? É por isso que eu sou dirigente do partido. Aquilo é ordem da segurança do Estado e é para te controlar"--. Neste momento Makuta NKondo é neutro, digo eu.

F&N - Se lhe dessem um milhão de dólares para que fundasse um partido, em função da influência quer de um lado como do outro?

M.N - (…) Um milhão de dólares ou dez vale o quê, quanto à dignidade e o prestígio? A dignidade não tem preço!  

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