MUNDO

 
23 de maio 2018 - às 09:02

LULA: O FIM DE UMA ERA?

Antes de ser preso, o ex-presidente mais popular do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva já buscava um sucessor para resgatar seu legado

 

08 de Abril de 2017 é uma data que entra para a história da política do Brasil. Nunca, desde existência, o maior país da América Latina viu um mandatário ser preso por corrupção. A detenção de Lula divide mais um capítulo - ou o final - da novela chamada Operação Lava Jacto, cujo início, há dois anos, investigou homens fortes das empresas que giravam a roda da economia do Brasil, de Portugal e também de Angola.

O branco barbudo – nascido em uma região bastante pobre do nordeste do País- foi acusado de ser o dono oculto de um apartamento numa das zonas litorâneas mais caras de São Paulo, financiado por empresas que em troca tiveram benefícios durante a sua governação.

Como imaginar que um retirante (nordestino que imigra para outra cidade e tem melhor qualidade de vida,) que sobreviveu à mortalidade infantil, à miséria, à fome, à falta de instrução tenha conseguido o feito de tirar 40 milhões de pessoas do nível da miséria, mudar a história do seu país, provocar comoção em cidadãos de todas as partes do mundo, dar aulas de política para centrais sindicais norte-americanas, para o Partido Socialista francês e espanhol, ser tratado como “o cara” por Barack Obama, tornar-se referência global da luta contra a miséria e um dos personagens símbolos mundiais do século 21? 

Herói para uns, vilão para outros, Lula deverá passar os próximos dias, em uma sala especial na Polícia Federal no estado (província) do Paraná. Os efeitos da prisão do presidente mais popular da história recente do Brasil na sociedade ainda são incertos.

A prisão do ex-presidente Lula é um fenómeno tão complexo e cheio de nuances que os especialistas ouvidos pela reportagem de FIGURAS&NEGÓCIOS no Brasil se dividem sobre alguns dos efeitos práticos disso nos curto e médio prazos.

Uma ala defende que Lula deverá “esticar a corda” ao máximo e evitar a “passagem de bastão” nas eleições de 2018. Outra ala, ao contrário, diz acreditar que a prisão fará com que o ex-presidente, finalmente, transfira a liderança.

O jurista Walter Maierovitch é do grupo que acha que Lula vai “esticar a corda”. "O Lula está jogando xadrez enquanto os outros pré-candidatos à Presidência da República estão jogando damas." Para Maierovitch, a cúpula do partido sabe que, por conta da Lei da Ficha Limpa e da condenação em segunda instância, a chance de Lula se efectivar como um candidato viável no dia da eleição é mínima. Ou obrigado a admitir que a estratégia eleitoral deles é clara e tem grandes chances de dar certo", afirma o jurista. 

"Pelo que mostraram até agora, vão esticar a corda da candidatura de Lula até o final, de preferência até quando as eleições acontecerem. 

De acordo com a pesquisa sobre intenção de voto mais recente divulgada pelo Datafolha, no 31 de Janeiro de 2018, Lula lidera todos os cenários analisados para o primeiro turno, com entre 34% e 37% das intenções de votos. Em segundo lugar está o deputado federal Jair Bolsonaro, que tem entre 16% e 18% das intenções de voto. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), concorda com Maierovitch. Ele opina que há mais um factor que "empurra" o PT para esse caminho: a falta de um nome nacional capaz de substituir Lula.

O PT não possui nenhuma outra liderança de expressão nacional, apenas lideranças regionais", diz.

O cientista político e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Cláudio Couto também afirma que Lula será "obrigado" a passar o bastão de olho nas eleições de 2018. "Agora, ele não tem escolha. Ele vai ter que indicar esse nome". Parte dos impactos que a prisão do ex-presidente Lula pode causar no meio político ainda é desconhecida, entretanto, a julgar pelos números das pesquisas, ele deverá continuar a ser um "cabo eleitoral" influente nas eleições de 2018.

Líder nos levantamentos de intenção de voto, Lula ainda parece manter parte da sua capacidade de transformar candidaturas competitivas, algo que deverá ser explorado, novamente, neste ano. O cientista político Alberto Carlos Almeida diz que, ainda que preso, Lula continuará a ser um poderoso cabo eleitoral. 

“Não acredito nessa história de transferência de votos. Não há prova de que as pessoas votam em alguém apenas porque A ou B disseram que ele tem que fazer isso. O que o Lula faz, no entanto, é jogar luz sobre um candidato que pode não ser muito conhecido’’.

 

Próximos passos - Preso na Operação Lava Jato, que o condenou a 12 anos e um mês de reclusão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no polémico processo do caso triplex do Guarujá, o ex-presidente Lula pode progredir de regime quando cumprir um sexto da pena (2 anos) para o semiaberto. Mas pode ser solto bem antes se o Supremo Tribunal Federal acolher pedido cautelar no âmbito da Acção Declaratória de Constitucionalidade 43 – que trata do cumprimento de pena antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

 

A encruzilhada da esquerda - Em seu último pronunciamento em liberdade, o ex-líder sindical deixou muitas mensagens. Comunicador brilhante, Lula esteve o tempo todo cercado pelos jovens pré-candidatos da esquerda Manuela d'Ávila PCdoB), que mal conseguia conter as lágrimas, e por Guilherme Boulos. Para ambos, teve palavras sobre seus futuros promissores, que contrastaram com as menções bem mais protocolares daqueles que podem substituí-lo como candidato pelo PT para outubro.

"Agora não tem nomes fortes dentro da legenda. [Os ex-ministros] Jaques Wagner, Fernando Haddad são pessoas qualificadas, mas não têm pegada. Então Lula poderia apostar em alguém de esquerda, mas não necessariamente do PT", afirmou Cesar.

Ainda é prematuro, contudo, falar da eventual união de uma frente progressista tão fraturada quanto a brasileira. "Talvez Lula tenha lançado esse anzol para ver qual é a reacção, levando-se em conta que o país inteiro estava vendo, com Globo transmitindo seu discurso ao vivo", sugeriu.

 

Os adversários - Com Lula preso e sua participação nas eleições praticamente inviabilizada, abre-se a disputa pelo capital eleitoral daquele que era o líder com folga nas pesquisas. E, apesar de a maioria de seus adversários ter-se mostrado prudente em um primeiro instante, os movimentos após a prisão do petista podem decidir o nome do próximo presidente.

"O cenário ficou agora menos previsível e mais pulverizado, porque já não tem uma pessoa que polarize tanto quanto Lula", disse à AFP o professor Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas.

Um novo panorama que, segundo vários analistas, pode neutralizar a ascensão da extrema direita, cujo candidato Jair Bolsonaro (PSL-RJ) aparecia em segundo lugar nas sondagens.

"Quem mais vai sofrer com o facto de Lula estar fora é Bolsonaro, porque ele cresceu como um dos possíveis anti-Lula e, agora, a campanha tende a ser menos polarizada", acrescentou.

Como vem acontecendo nos últimos e frenéticos anos no Brasil, tudo pode mudar em questão de horas, porém.

"No Brasil, tudo é possível. Pode acontecer de Lula passar uma semana na prisão e, por exemplo, um juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) mandá-lo depois para prisão domiciliar", afirmou Stuenkel.

"Como faz tempo que estamos no campo das decisões sem precedentes, é realmente complicado dizer o que vai acontecer", apontou. 

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