REPORTAGEM

 
28 de fevereiro 2016 - às 13:58

JOVENS ESTUDANTES FORA DO PAÍS: DIFICULDADES DE ADAPTAÇÃO ÀS NOVAS REALIDADES

O Psiquiatra brasileiro Roberto Shinyashiki ensina-nos que “nesta vida temos três professores importantes: o Momento Feliz, o Momento Triste e o Momento difícil. O Momento Feliz mostra o que não precisamos mudar. O Momento Triste mostra o que precisamos mudar. O Momento Difícil mostra o que somos capazes de superar.”

 

Muitos jovens com fome de um saber completo e mais aprofundado, continuam a deslocar-se do país para outros cantos do mundo. E consideram estar certos no que respeita a excelência na ciência e saber, mas, como tudo, as dificuldades encontradas no percorrer do caminho, são muitas, desde a saudade da terra mãe, família e das coisas a que se acostumam desde muito novos, até a adaptação e vivência com povos e culturas totalmente diferentes.

Midian Pinto Congolo, é um caso a parte. Tem vinte e um anos de idade e vive em Lisboa, com a avó materna desde os catorze. Garante que nunca teve dificuldades, tanto a nível de adaptação, quanto cultural e económico.  Muito cedo emigrou e está longe de ser um sonho voltar para o país. “Volto para Luanda,  talvez pela pressão que a minha família me tem feito, e um bocado pela vontade de mudar o país”. Midian diz sentir saudades apenas do clima, e sente-se bem por encontrar os quitutes da terra em qualquer lugar por terras lusas. 

Mas para muitos outros, é como escreveu  Robert Anson Heinlein, em seu livro “Um estranho numa terra estranha”, “se você pinta um macaco de vermelho e o joga numa gaiola de macacos marrons, estes o estraçalharão.”  

Na maior parte dos casos, emigra-se em busca do que faz falta, com a perspectiva de voltar a Angola, tão logo acabem as suas formações, para abraçarem os sonhos, junto das pessoas que amam de verdade. Por isso é que a Eduarda e Eliane, Pedro, Márcia e Yara, partilham do mesmo objectivo; alguns com alguns medos, mas no fundo o sonho de voltar a Angola, toma conta dos seus pensamentos.

Eduarda e Eliane são as melhores amigas uma da outra. As circunstâncias da vida obrigaram que uma fosse para Lisboa, Portugal e outra, para Pennsylvania, nos Estados Unidos da América, respectivamente. Enquanto uma não encontrou muitas dificuldades, por estar num país de língua oficial portuguesa, a outra viveu nos Estados Unidos, as maiores da sua vida, na língua, cultura e até mesmo no método de ensino. Enquanto Eliane não ponderasse nunca ter ficado a viver por terras de Obama, a amiga confessa o contrário do país em que vive, “a princípio não tencionava voltar para o meu país de origem mas viver fora e sozinha, fez-me crescer imenso e com isso veio uma nova mentalidade. Temos a oportunidade de aprender e melhorar todos os dias, nada mais justo que, ao invés de fugir dos problemas do que é nosso, darmos o máximo para tentar solucioná-los.” Apesar de tudo, é como dois pesos e duas medidas. Estas jovens têm encontrado vários pontos positivos nessa distância com os  familiares. Eliane considera que conviver com várias culturas  tem feito dela uma pessoa  melhor. “Também é verdade que aprendi o peso da responsabilidade, e uma coisa muito importante que fazia muito: não julgar os outros”, declara. Eduarda, apenas contrapõe, no sentido de deixar claro que, beberem de muitas outras culturas e povos, têm-nas ensinado a valorizar as suas coisas “As pessoas têm muito a tendência a sobreposição e consequente aculturação. Esquecem-se que todas as culturas têm aspetos positivos e negativos. Eu acredito no conceito de transculturalidade e na concepção de que culturas diferentes podem coexistir entre si, que podemos e devemos respeitar e aprender muito uns com os outros sem impôr.”

Yara Gourgel, vive no Reino Unido e como todos, encontrou grandes dificuldades, que hoje, felizmente deixaram de as ser, mas que desencadearam num problema maior. A jovem, está neste momento, com trinta anos, a viver uma grande incerteza “A princípio é tudo muito interessante, uma experiência incrível de vivência e  aprendizagem. Dentro dessa experiência vivemos coisas novas, fazemos novas amizades,conhecemos novas culturas aumentando o nosso conhecimento geográfico. Temos de nos adaptar a uma nova cultura, hábitos e costumes. E essa é talvez a maior dificuldade, quando tens de abraçar novos hábitos para te sentires um pouco integrada. É que no meu caso, foi importante ter de lidar e integrar-me com as mais diversas culturas, porque eu estou a estudar Gestão de Hotelaria e turismo, e interação foi importante. E mais, a tecnologia e a segurança que o país me dá, só aumenta a insegurança de voltar para o incerto que é neste momento o meu país, instável”, desabafou.

Pedro Silva, chegou aos estados Unidos da América, e foi para Dakota do Norte, onde encontrou um clima considerado por ele “estrangulante”. Felizmente para Ele, hoje vive em Texas, onde a adaptação ao clima foi melhor. Pedro conta que a maior das dificuldades, quando chegou, foi a língua, ultrapassada pelo tempo, e considera-se adaptado, mas apenas até 2019. Para este rapaz de vinte e um anos de idade, nem uma proposta milionária de emprego o faria ficar pelos Estados Unidos pelo resto da sua vida. “Infelizmente eu haveria de negar essa oferta embora seja muito tentadora. Mesmo porque, como já havia dito, um dos requisitos da minha bolsa de estudo é o de voltar para o meu país assim que terminar os meus estudos.”

Entre lágrimas, o jovem estudante fala que aprendeu a valorizar a família “Nunca tinha dado conta do valor que tem a família, até sair de perto. Já teve muitas vezes que pensei em desistir disso tudo para poder voltar para a minha família. Mas eles próprios sempre me aconselharam a continuar a lutar que isso um dia trará frutos não só para mim, mas para toda família. O que eu encontro aqui que me dá forças para continuar não deixando a opção de sentir saudades da terra mãe são os meus companheiros angolanos. Nós aqui nos auto-adoptamos como família uns dos outros. Quando um passa por dificuldades, os outros estão sempre de braços abertos para poder ajudar como poderem. Seja essa ajuda financeira ou até emocional”, declarou. 

Yara, no seu desabafo, põe este factor acima de todos os outros “como não há bela sem senão, chega uma altura que sentes saudades de casa e do calor da família. Por mais apaixonante que seja viver fora, o ser humano tem as suas necessidades. Para mim, família é o bem mais precioso e por mais que adiemos, chega a hora que as nossas raízes dizem “CHEGA, QUERO VOLTAR PARA CASA.”

Do Zimbabwe, falou para a revista a Márcia Kipuco, que incrivelmente, foi a que mais reclamou da distinção cultural com Angola, “apesar de ser um país africano, não tem nada a ver com o nosso. Eles são mesmo africanos. Preservam mesmo! Para dizer a verdade, não sei direito se eles gostam dos angolanos ou não, pelo que percebo, somos considerados um povo sem identidade, e postos a parte de Africa.”

Marcia que também encontrou dificuldades na língua, que hoje domina de olhos fechados, diz que sente muita falta da família e amigos, da alegria e simpatia características do povo angolano, e do país em si. 

De entre dificuldades e imensos pontos positivos, experimentamos dizer que entre problemas e imensas dificuldades que o país atravessa, o angolano tem uma maneira tão própria de viver, que se aflige tão logo se veja fora do “seu ninho”. 

Entretanto, apesar de servirem-se da casa do vizinho apenas com algum interesse, a instabilidade continua a ser entre os jovens um factor de preocupação. O que para Eles, tem sido grande motivo de luta, para que possam chegar ao país, e conseguirem contribuir para a mudança que todos referiram. É como nos declarou Pedro Silva  “Aqui faz-se sentir o valor da educação. Isso é algo extremamente valioso para eles. Tão valioso que nem o dinheiro pode comprar. Por isso, eu acho que está a valer a pena sim ter deixado tudo para trás porque sei que um dia esse sacrifício vai dar frutos não só na minha vida financeira mas na maneira de como vejo o mundo.”

Estes jovens lutadores, muitas vezes conotados como maus elementos, que na maior parte das vezes são postos à margem da sociedade, quando chegam ao país, continuam a lutar em busca de um futuro melhor para os seus e o país no geral. Outro grande apelo feito por esses “peixes fora da água” é que os organismos que representam o Estado angolano nos países em que vivem, comecem a estender um pouco mais a mão, e a preocupar-se realmente com aqueles que são os problemas vividos pelos estudantes, principalmente. 

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