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2 de outubro 2016 - às 05:08

JOSÉ SEVERINO: “TEMOS QUE MELHORAR O AMBIENTE DE NEGÓCIOS”

José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA) chama a atenção para o momento que o país vive realçando que, apesar da redução do crescimento económico, “o país tem todas as condições para ultrapassar a actual situação” mas que é necessário “mudar o pensamento” no sentido de “tomar medidas correctivas” o mais rápido possível. Na sua visão, 2017 pode ser um ano melhor, caso as mudanças sejam implementadas.

 

Revista Figuras & Negócios (F&N) - Neste momento, tendo em conta a área de actuação da AIA, quais são as principais preocupações da associação?

José Severino (J.S) - O país está em constante exigência de mudanças, a AIA pretende não ser estática, faz um esforço de ter sempre uma direcção com a mente aberta, atenta aos problemas da economia, da classe empresarial, aos problemas sociais, do desenvolvimento da nossa democracia e por isso a nossa preocupação é com o crescimento que está a baixar, a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto está a baixar. Entendemos que o país pode encontrar mecanismos para reverter esta redução do nosso crescimento porque se ele não for superior ao índice de crescimento demográfico, naturalmente que o objectivo de uma vida melhor para todos não será atingido. O que chamam de crise nós chamamos de momento de reestruturação da economia; crise seria se não tivesse perspectiva de solução. A nossa pretensão, enquanto parceiros sociais, é contribuir para que haja mudança do modelo de gestão, do ambiente de negócios, mais investimento tanto nacional como estrangeiro porque temos que tornar-nos competitivos na região, no quadro de uma concorrência aberta e franca com a maior economia de África, que é a África do Sul. 

F&N - Uma das questões recorrentes é a necessidade de revitalização do parque industrial angolano. Qual é a visão da AIA a respeito?

J.S - Na sua estratégia a AIA entendeu sempre que apesar da sua designação ser industrial, que tínhamos de ter um conceito amplo; é uma associação transversal que engloba no seu elenco de associados diversos sectores, somos uma associação com sessenta ramos de actividade. Só com um conjunto de forças, coesas, que harmonizam os seus interesses, desenvolvem-se no sentido de termos uma economia estruturada, sustentada, preocupamo-nos quando os índices de crescimento são baixos. Sempre dissemos que só teríamos crise prevalente se não crescessemos a dois dígitos, como não crescemos a dois dígitos estamos numa situação considerada de crise mas nós consideramos que o país tem todas as condições para ultrapassar este ponto, mas há necessidade de mudanças permanentes.

F&N - E estruturais?

J.S - Conjunturais e, sobretudo, de pensamento. Olharmos para o país, com o combate as assimetrias, olhando para as zonas de fronteira fazendo a integração de todas as funções. Acredito que se isso for feito teremos a possibilidade de crescer, não digo a dois dígitos porque quero ser realista mas perto de dois dígitos. Se não conseguirmos fazer isso, somos um país em crise. 

F&N - Mas como ultrapassar a actual situação?

J.S - Essa questão só se resolve com o investimento estrangeiro, não negligenciando o investimento nacional,  o volume de investimentos que precisamos de aplicar em infra-estruturas, sem colocar de lado a questão do melhoramento das vias ferroviárias, das telecomunicações, dos investimentos no turismo. Entendemos que a Lei do Investimento Privado deve ser adaptada à nova situação financeira e cambial do país na medida em que quando a lei foi feita o petróleo estava a cem e aí o executivo (bem intencionado) colocou um princípio de que o investimento estrangeiro nestas áreas estratégicas, incluindo a parte de construção civil, obriga a 30% de participação nacional. Ora, nós sabemos que no nosso país os bancos não são suficientemente grandes para participarem em investimentos em infra-estruturas, sendo assim pergunto: será que quem construir uma barragem, uma estrada, pontes (construir, operar e ter dividendos), quem fizer redes de hotéis, vai poder levar isso ou vai ter que permanecer num sistema de confiança com o país? Pensamos que teremos que adoptar o sistema sul-africano de integração progressiva do capital nacional nesses projectos. Se queremos ser competitivos na região, se quisermos mobilizar recursos naturais que temos, se queremos ter uma agricultura eficiente (que se faz com água irrigada e electricidade), não basta a vontade dos empresários e dos pequenos agricultores, sem termos um excedente de oferta de água, eletricidade, boas estradas, caminhos-de-ferro mais eficientes, telecomunicações mais abrangentes, teremos dificuldades de suprir as insuficiências que obviamente vieram do processo de guerra civil. Continuaremos sempre atrás da África do Sul, perdemos as oportunidades que temos com a África do Sul e os seus setenta milhões de consumidores, temos que penetrar nos grandes centros económicos da República Democrática do Congo mas isso só se faz com uma indústria competitiva. Um dos aspectos que se põe é, também, da nossa indústria, factores conjunturais decorrentes da guerra que nos impediu de investir no interior tornou-nos num país extremamente dependente da importação de matérias-primas, quer de origem agrícola como mineral. Se não nos virarmos para o interior, se não tivermos uma lei de investimento que encoraje mais investimentos no coração do país, em zonas fronteiriças, não teremos custos para termos competitividade nem na região e muito menos no mundo. Há um esforço para fazer barragens, transportes, estradas mas temos que fazer muito mais para termos infra-estruturas que aliciem o investimento, quer seja nacional ou estrangeiro. 

F&N - Como é possível falarmos em maior investimento em infra-estruturas (que é extremamente caro) com a redução significante das receitas?

J.S - A saída é o investimento estrangeiro. Temos que criar um melhor ambiente de negócios, continuamos com um mau indicador, embora se possa dizer (e ouvimos muitas vezes) que o Governo está a fazer, que todos nós estamos a fazer, mas é preciso fazer muito mais porque nesta questão do ambiente de negócios, em que estão envolvidos 190 países, é uma competição, não vale a pena pensar que se estou a correr cem metros em vinte segundos que estou a ganhar espaço no índice. Os outros estão a correr a quinze, catorze, dez segundos, é uma competição! Temos que fazer uma reflexão, sermos pragmáticos e, até digo mesmo: sermos patriotas, que o somos, mas temos que pôr esse patriotismo ao serviço do desenvolvimento económico e social do país para que possamos melhorar o índice de competitividade. Temos que melhorar o ambiente de negócios no país, são indicadores internacionais sérios que assentam muito nas investigações feitas no nosso país, aqui temos o mérito da Universidade Católica que tem estudos excelentes e tomarmos medidas correctivas. Mas temos que ser céleres!

F&N - Com o actual cenário em que Angola reduziu o ritmo de crescimento e a crise económica internacional, a tendência é mesmo a retração do investimento.  

J.S - Não, esta não é a causa, o que acontece é que o nosso ambiente de negócios não é o melhor. O investidor sabe que Angola tem recursos extraordinários, é um país com índices de pluviosidade muito bons, que permitem em termos de agricultura duas colheitas, essas vantagens, os cursos de água que temos, o investidor conhece o nosso mercado que não é de 24 milhões mas de 200 milhões de consumidores porque a nossa posição geográfica coloca-nos na posição de país que pode ajudar no desenvolvimento de países encravados, que é uma responsabilidade das Nações Unidas, temos a responsabilidade de criar desenvolvimento para levá-lo aos países encravados, particularmente a Zâmbia, República Democrática do Congo e Zimbabwe. Os países desenvolvidos querem ver Angola protagonista desse desenvolvimento, e temos também responsabilidades regionais com a questão do mercado da Costa Ocidental de África e, como disse e bem as crises são cíclicas e eles sabem que a nossa economia pode viver para lá do petróleo e o petróleo, mesmo a USD 45 é recurso. Não nos podemos abismar ou ficar estagnados porque o petróleo era 100 USD e agora está a 45, em 2 milhões de barris dia, 45 dólares é muito dinheiro.

F&N - Mas isso sem contar com a nossa elevada dívida?

J&S - Afirmativo! Dívida externa, questões do asseguramento da soberania, o investimento que temos que fazer em modernização das Forças Armadas, embora aqui as opiniões se contradigam. Sou de opinião que o momento de paz não pode ser de acomodação, deve ser um momento de termos as nossas organizações capazes de atender a emergências, para além desta questão, o importante é que a gestão cambial seja orientada para que todos funcionem. Queremos um mercado mais funcional, com maior interação da banca que zela pelos interesses dos empresários (senão não é banca) e os empresários, as empresas que importavam x quando as receitas cambiais eram o que eram, hoje podem importar um terço mas continuarem a funcionar por uma rotação de stock mais rápida. Se nós orientamos os recursos para um sector e depois para outro, a economia não funciona, desarticula-se.

F&N - Já agora, como é que estão os filiados da AIA diante desta situação?   

J.S - A perceção que temos é que a gestão cambial tem que mudar, compreendo qual é a preocupação de acudir aos fogos mas o bom bombeiro é aquele que os evita, se não formos “bom bombeiro”, essa política de apagar fogos vai continuar e vai desarticular a economia. Por exemplo, se muita gente usa óculos e não se importar óculos como é que vamos ver? Podemos importar máquinas e equipamentos mas se não importarmos correias, como é que as máquinas vão funcionar? Todos têm que importar menos mas numa rotação mais rápida de stocks, depois vamos nos adaptando às novas circunstâncias. Há empresas que hoje têm dependência de cem por cento de matérias-primas subsidiárias, com a questão do financiamento e estamos a trabalhar também na pauta aduaneira, vamos encorajar a diversificar a economia. Agora, se os grandes grupos continuam a ter o benefício das grandes importações, eles não vão investir nas alternativas. 

F&N - Há cinco anos fez a previsão de que neste período o preço do petróleo iria baixar. Agora pergunto-lhe, quando é que o cenário económico vai começar a melhorar?

J.S - Os efeitos são corrosivos para a máquina empresarial, para as pessoas. Continuo a dizer que o mercado informal, hoje, ainda tem que ter acesso aos cambiais, as pessoas têm que viajar e nós fizemos apelos ao Presidente da República, que aderiu e começou-se a ver hoje que as pessoas têm recursos para fazer face aos seus problemas pessoais. Em casa onde havia 10 pães, só há cinco não se deve entender que há crise, é preciso saber repartir e as pessoas vão viver com o mesmo sorriso e novas expectativas. 

F&N - Com menos cinco pães!

J.S - Com menos cinco pães porque vão ter noção de uma realidade e que todos devem contribuir para a mudança e não o pai ser o que tem que garantir os pães, tem filhos adultos que estão na cama, a dificuldade aguça o engenho e, como tal, digo que essa situação é benéfica, embora o melhor seria se tivéssemos evitado. Mas há quem diga que chorar sobre o leite derramado não adianta, eu digo que temos de gritar mas gritar no sentido didáctico e não continuarmos com a mesma estrutura de pensamento.

F&N - Mas quando é que o cenário económico pode começar a melhorar?

J.S - Escrevi em 2010, que o petróleo iria baixar e que era necessário fazer mudanças, posso fazer prognóstico, se haver mudança. Isso não é crise, é um processo, como tal, 2017, 2018 serão anos melhores, quem tem o poder político tem de ter a percepção de que urge fazer mudanças e elas têm de vir exactamente do poder político.

F&N - Sem mudança de pensamento não é possível melhorar?

J.S - Não é possível, já dizia em 2010 e continuo a dizer.   

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