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19 de fevereiro 2019 - às 08:30

JOSÉ LUÍS MENDONÇA: "É PRECISO RESOLVER CERTAS SITUAÇÕES DOLOSAS HERDADAS DO ANTERIOR REGIME"

O escritor angolano José Luís Mendonça defende a necessidade de se incluir, nos currículos académicos, a leitura obrigatória, com avaliação de obras de autores nacionais de referência.O autor do romance “O Reino das Casuarinas” afirma que a literatura e o jornalismo são como um sacerdócio e deixa aos candidatos a escritor um alerta: ler, ler e ler até queimar as pestanas.Estivemos à conversa com este  nome que há muitos anos desponta na literatura e no jornalismo cultural. José Luís Mendonça analisa de forma bastante crítica o passado de uma governação recente que deixou o país num estado sócio, político e económico degradante.Para si, a única coisa que foi bem feita por José Eduardo dos Santos, com o recurso aos melhores quadros técnicos do país, foi a “acumulação primitiva do capital” (que, em termos históricos, é um insulto contra a memória dos nossos antepassados levados como escravos para o Brasil)".

JLM considera que o (actual)   Governo tem de ser mais expedito na resolução dos problemas relacionados com o sistema de Saúde Pública e da Educação, que deve ser inclusiva. "Nós não temos Saúde, não temos Educação de qualidade e temos uma polícia na rua a dar-nos medo. Há que ter urgência em resolver certas situações dolorosas herdadas do anterior regime", alerta o nosso interlocutor

 

Figuras & Negócios (F&N) -  Sente-se mais à vontade a fazer literatura ou a fazer jornalismo?

José Luís Mendonça (JLM) - Exerço o jornalismo como profissão, mas, como sou jornalista cultural por excelência, neste campo produzo reportagens e artigos com a mesma paixão da que imprimo na Literatura. Já na esfera do jornalismo social e de intervenção, utilizo os mecanismos do jornalismo puro. A maior parte do tempo, porém, passo-o a criar poesia e ficção, mais poesia do que ficção, mesmo mentalmente. Sou poeta por natureza. Tudo me comove. Até as pedras.

F&N - Até que ponto a escrita literária influencia os seus textos jornalísticos?

JLM - Como afirmei na resposta anterior, um poeta nunca abandona a musa inspiradora. Mesmo na procura de um “gancho” jornalístico, a peça que produzo tem as marcas profundas da poesia, aquela paixão pela arte de escrever, de criar a catarse aristotélica no leitor ou ouvinte.

F&N - Ao longo da sua carreira escreveu e experimentou vários géneros literários, como a prosa, o romance, a poesia e a ficção policial. Volvidos quase 40 anos de actividade, em que género se sente mais “solto” para debitar os seus pensamentos?

JLM - Obviamente no género lírico, a Poesia. Que me dá sempre “ganas” de tecer uma boa crónica jornalística sobre os bons e maus costumes.

 F&N - Depois de toda essa trajectória, qual é a sua grande aspiração enquanto escritor?

JLM - Ser lido pelos estudantes do meu país.

F&N - Sente que o seu pensamento crítico é suficientemente percebido pelos seus leitores?

JLM - Pelos que me lêem, sim. Recebi muitos elogios do romance "O Reino das Casuarinas, alguns de leitores estrangeiros e a Geração 80 pretende fazer um filme desse romance. Gostaria de ser mais lido e criticado, só que Angola lê pouquíssimo; estamos a cair cada vez mais no poço fundo da iliteracia literária, a tender para uma Nação intelectualmente subdesenvolvida.

F&N - Depois do "Angola, me diz ainda ", o que está a escrever ou pensa escrever de novo para brindar os seus leitores fiéis?

JLM - Aspiro dar à estampa mais algumas obras de poesia. Tenho cinco livros esboçados, e também há um romance e duas ou três novelas que já comecei, só que me falta tempo para concluir todas essas estradas da escrita. Um dia serei milionário, e aí vou fechar-me numa fazenda só a produzir Literatura, tal como Jack London, o autor americano de Presas Brancas e a Fogueira; beber maruvo fresquinho e comer muito inhame (mandioca karaji).

F&N - Que mudanças estéticas poderemos encontrar nos seus futuros escritos?

JLM - Muitas. Estou sempre a renovar-me como o diamante no kimberlito. Estou a recriar a nossa realidade histórico-social e cultural com ferramentas ficcionais que eu próprio vou forjando.Deixei a poesia hermética dos anos 80.

F&N - José Luís Mendonça fez parte da “geração das incertezas”, na década de 80, e “bebeu” muito da experiência de emblemáticos poetas, como Agostinho Neto. Olhando para trás e num tom comparativo, como caracteriza, hoje, a literatura angolana?

JLM -  Hoje a Literatura angolana é um pássaro de seis asas, um pássaro mítico, cujos olhos são ainda os clássicos, e as principais asas, as da frente, são os escritores que despontaram na década de 80 e alguns em 90 e vão florindo em muita prosa e pouco verso, coisas novas da nossa Literatura.

F&N - Numa entrevista concedida por si, afirmou que muito do que se escreve hoje, pelos escritores angolanos, sobretudo em poesia, “é oco e como um boneco de palha”. O que pretendia dizer, exactamente, com essa mensagem crítica?

JLM - Faltou dizer, pelos pseudo-escritores angolanos, aqueles que nunca chegarão à excelência, por falta de espírito de sacrifício, pois desconhecem completamente a história material (as obras escritas) da história literária angolana. Para além da incompetência linguística, muitos desses pseudo-escritores não sabem o que é literatura, pois quase nada leram. Então, produzem palha. Mesmo que coloquem, como é moda agora, títulos pomposos na capa das obras, lá dentro é tudo oco, falta-lhes substância literária.

F&N - Volvidos alguns anos, continua a ver a coisa nesse mesmo prisma?

JLM - Está cada vez pior, por causa do nosso sistema de Educação e Ensino, que é outro sector oco e vazio de intelectualidade, onde nada se lê, nem mesmo os manuais escolares.

F&N - O que estaria na base disso? Será apenas a falta de cultura geral e literária?

JLM - Já o disse atrás, temos o Ensino mais pobre e fraco da África Austral e dos Grandes Lagos. Nem ainda a RDC, nem o Congo Brazzaville, a Zâmbia ou a Namíbia se comparam a nós, em termos de descalabro pedagógico-didáctico. Esta é a pior herança do Eduardismo. Não é a crise económica.

F&N-Como vê a convivência entre os escritores mais velhos e os mais novos? O que tem faltado para que não se mantenha a qualidade dos escritos literários de outrora?

JLM - A convivência é bastante salutar. Só que um jovem com 18 ou 20 anos que almeja ser escritor e leu um ou nenhum livro, encontra-se já numa fase um pouco avançada para recuar no tempo em que devia ter consumido pelo menos 50 obras. Como não possui o hábito de ler, sente uma tortura enorme em pegar num livro e devorá-lo numa semana ou em três dias. Salvo raras e boas excepções de jovens que seguem os meus conselhos...

F&N - A esse respeito, a política do livro em Angola já o satisfaz?

JLM - Nem pensar! Não há política nenhuma do livro nem da leitura. O novo presidente, João Lourenço, criou agora uma comissão multissectorial para tratar deste aspecto crucial da nossa vida, do nosso futuro, enquanto Nação inserida no contexto  Universal.

F&N - A seu ver, como se pode estimular melhor os hábitos de leitura em Angola?

JLM - Primeiro, há que aliciar os professores todos para a leitura dos clássicos. Todos os professores, dos diferentes níveis do Ensino devem ler os clássicos, seja qual for seu ramo ou disciplina, para atraírem os estudantes à leitura.

Segundo, há que produzir papel em Angola, para baixar o custo do livro e as alfândegas não podem cobrar impostos sobre o livro literário e didáctico.

Terceiro, há que incluir nos currículos académicos a leitura obrigatória, com avaliação de certos livros como "A Sagrada Esperança", de A. Neto, "Luuanda", de Luandino Vieira, "Quem me Dera ser Onda", de Manuel Rui, "Maka na Sanzala", de Wanhenga Xitu, "Wanga", de Óscar Ribas, "Gente de Meu Bairro", de Jorge Macedo, "A Morte do Velho Kipakaça", de Boaventura Cardoso, "O Segredo da Morta", de Assis Júnior, "Angola, Angolê, Angolema", de Arlindo Barbeitos, "Terra Morta", de Castro Soromenho e alguns outros que agora não me vêm à mente. Só (ainda) os clássicos de verdade. Nós, os do pós-independência, ficaríamos para outra fase, pois há que se estudar bem, seleccionar bem quais das nossas obras deverão integrar esta lista, pois, no afã de querermos ser modernos, por vezes ( eu próprio) incorremos em certos modismos que nos tornam difíceis à leitura por parte dos jovens estudantes..

F&N - Até que ponto a Lei do Mecenato poderá ajudar para que o livro chegue a um preço mais acessível aos consumidores?

JLM - Os Mecenas são sempre benfeitores desinteressados dos Artistas. Se eles patrocinarem as edições dos bons livros, estes entrarão no circuito comercial a um preço mais acessível ao bolso do potencial leitor, o estudante.

F&N - É impossível dissociar a sua figura da escrita jornalística, sobretudo cultural. Como avalia o jornalismo cultural feito hoje em Angola?

JLM - Em Angola, o jornalismo cultural está uma calamidade. Quem hoje faz recensão das Artes Plásticas ou da Literatura ou até do Cinema, com regularidade e precisão na imprensa angolana? Eu e mais um ou outro jornalista directamente vinculado aos órgãos.

F&N - Quais são as suas grandes lacunas?

JLM - Não quer dizer que não haja especialistas que dominem essas matérias. O que quero dizer é que não existem dentro dos órgãos de informação.

F&N - Em várias ocasiões tem vindo a reclamar da falta de jornalistas especializados na crítica literária, como acontece por exemplo em Portugal. Como pensa que a classe jornalística nacional vai conseguir ultrapassar esse défice?

JLM -  Há que formar os jornalistas. Há que criar desks de Cultura, com jornalistas especializados em Literatura, Pintura, Cinema, Teatro, etc. 

F&N - Isso passaria, necessariamente, por um sistema de ensino mais eficiente?

JLM - Sim, como já anteriormente defendi. Mas passa também por um trabalho de formação interna em cada órgão, um trabalho metódico e bem dirigido.

F&N - Com as actuais fraquezas da reforma educativa e a falta gritante de cultura literária de quase toda a sociedade, pensa ser possível ter esses especialistas a médio prazo?

JLM - Em um, dois anos, poderemos formar alguns, e depois acompanhá-los no seu trabalho. Estes jornalistas a formar, de Cabinda ao Cunene, têm de ser pessoas dedicadas à causa do jornalismo cultural, pois terão de ler um livro por semana. Tudo passa pela competência linguística, para ser bom jornalista cultural. Para isso, é preciso ler muito, não só livros de escritores nacionais e estrangeiros, mas também revistas e jornais da especialidade. Bem gostaria de me dedicar a esta tarefa, se o ministério da Comunicação Social me quiser aproveitar.

F&N - Já agora, o que pensa ser necessário para uma melhor assimilação da Língua Portuguesa e para a expansão das línguas nacionais?

JLM - Qualquer língua se assimila com muita leitura. As línguas nacionais são línguas de Cultura. Devemos aprendê-las a nível comunitário, fazer da vida nos bairros verdadeiros centros de estudo das línguas com as pessoas que ainda a sabem e não deixar os nossos jovens se consumirem no álcool e na desbunda, com música tão alta.

F&N - Qual é a sua visão sobre as vantagens do Acordo Ortográfico?

JLM - O Acordo Ortográfico deve ser ratificado por Angola. Apesar das razões linguístico-culturais invocadas pelos especialistas, que eu aprovo, o facto é que Angola ficou ultrapassada por quase quatro décadas de mau Ensino e a juventude, hoje, já escreve e fala à moda do Acordo; fomos muito influenciados pelas novelas e igrejas brasileiras...Agora já não podemos continuar a ser o país mais lusófono da Lusofonia. Há que ser pragmáticos.

F&N - Mudando um pouco de tema; disse numa entrevista que Angola “tem um Estado autoritário”. Como vê hoje o país no novo ciclo político?

JLM - Neste novo ciclo político, o MPLA, que continua a mandar em Angola, pretende fazer uma mudança, mas não pode abdicar da construção da burguesia nacional, capaz de competir com a classe empresarial estrangeira. Este desiderato não foi alcançado pelo anterior regime, pois levaram o Capital todo para o estrangeiro. Isto é o aspecto principal que a nova governação está a encarar. Por isso, está a aproveitar os capitalistas já constituídos para arrancar com o desenvolvimento. Só que o anterior regime deixou-nos uma herança de autoritarismo sem precedentes, em que a polícia de patrulha também manda parar desavergonhadamente um automóvel e exige “gasosa”. Os governantes não sentem isto na pele, como nós, cidadãos comuns, sentimos. 

Ainda hoje,  a polícia (a SIC) pode ir a casa de alguém ou esperar alguém na rua e levar para um calabouço, por simples suspeita. Isso é que João Lourenço devia corrigir. Já sofremos bastante. Queremos segurança. Que prendam os bandidos, mas deixem o cidadão honesto em paz. O facto de se constituir arguidos alguns "pesos pesados" não significa que o Poder Judicial esteja já independente, nem podia ser de outro modo. Vejo que tudo vai levar um certo tempo...

F&N - Sente que a sociedade está a conviver da melhor forma com essas mudanças?

JLM - Bom, há os intelectuais independentes que analisam o fenómeno da mudança sob olhos mais académicos e mais cépticos e há o povo em geral que vê a coisa de forma mais entusiasta. O que todos queremos é dormir em paz nas nossas casas, sem barulho de música alta todos os dias, com água corrente e energia eléctrica 24 horas, e emprego fixo. Enquanto houver tantas zungueiras nas ruas, numa concorrência nunca vista, em que voltam bem à noitinha para casa com as bacias cheias da fruta que levaram pela manhã;  enquanto a polícia nos estiver a dar no coiro e a pedir gasosa; enquanto ligamos para o 112 a reclamar pelo barulho de música House todos as noites no Chamavo e a polícia não aparece porque o dono do bar do Chamavo é um alto madié; enquanto não tivermos os nossos jardins e escolas devolvidos ao seu objecto de lazer e pedagogia, sem comércio dentro dos recintos, creio que não há ainda mudança plausível. 

O nosso Governo tem de ser mais expedito em certas áreas. Cuba, por exemplo, tem um óptimo sistema de Saúde Pública e de Educação inclusiva. Aí, eu defendo uma transição lenta. Nós não temos Saúde, não temos Educação de qualidade e temos uma polícia na rua a dar-nos medo. Há que ter urgência em resolver certas situações dolorosas herdadas do anterior regime.

F&N - No domínio cultural, como pensa que o Estado deve actuar, para consolidar a questão da identidade nacional e promover da melhor forma a cultura angolana no estrangeiro?

JLM - É preciso dotar o Ministério da Cultura de uma pessoa ligada à Cultura, uma pessoa com amor pela Cultura, um africanista de gema, uma pessoa que não tenha vergonha de falar com os escritores e os artistas deste país. Como é possível ter um país onde a Cultura visível é apenas o que se faz em Luanda?

Depois há que promover a nossa inserção cultural no contexto africano, nós estamos voltados para o Brasil e para a Europa e a América do Norte. Não conhecemos os nossos irmãos zambianos, namibianos, ou congoleses. Somos uma ilha cultural na África Austral. Há que fazer uma diplomacia do Renascimento Cultural Africano, preconizada por Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, que actuaram sob o lema "Vamos Descobrir Angola", sob a égide do Pan-Africanismo.

F&N - A actuação da sociedade tem vindo a ser bastante questionada por alguns círculos políticos, por suposta colagem ao partido governante. Vê algum fundamento nisso?

JLM - Há que analisar bem a situação angolana. O anterior regime criou uma situação social que eu chamo de armadilha do desemprego. Ao não investir em indústrias e serviços amplos no país, ao descurar a agricultura, o anterior Governo engendrou uma teia de dificuldades de colocação de cidadãos que necessitam de entrar para o mercado do trabalho. Qual foi a saída? Ou te manténs de bico calado e tens umas sobras do regime, ou aplaudes o que está mal e sobes numa carreira qualquer, até embaixador ou ministro podias ser, ou reclamas e ficas a passar fome. Até os partidos da oposição, excepto o Bloco Democrático, caíram nessa armadilha. Mas também não tinham como sobreviver. Se não estivessem na Assembleia Nacional ou nas FAA, ainda por cima saídos das matas, o que é que iam jantar? Só os revús se imolaram, se sacrificaram sem medo. Palmas para eles!

F&N - Como pensa que a sociedade civil deve actuar, nesse novo quadro político?

JLM - Claro que há e houve os moderados, as vozes críticas de escritores que nunca tiveram medo, associações como a Chá de Caxinde e ONGs como a ADRA que sempre lutaram pela dignidade humana do povo angolano. A ADRA nunca recebeu subsídios do governo, por causa dessa sua postura. A sociedade civil deve unir esforços para denunciar violações dos direitos humanos, como o faz Rafael Marques. O Governo precisa dessas vozes críticas para melhorar.

F&N - Uma das questões que muito critica é a falta de preservação da História das cidades. Continua insatisfeito com a forma como urbanizam as cidades em Angola?

JLM - Eu decidi fazer um boicote cultural contra o Shopping Fortaleza. Nunca hei-de lá pôr os meus pés. E apelo a todas as mulheres e homens de Cultura a juntarem-se a mim. Continuarei a lutar pela devolução dos nossos jardins públicos à edilidade, pela criação de bibliotecas em cada parcela de bairro e jardins públicos para as crianças ao lado dessas bibliotecas.

F&N - Pensa que a realização das eleições autárquicas, já anunciadas pelo Executivo, venha, finalmente, responder ao seu clamor de ver uma Angola e uma África sustentada, que assente o seu desenvolvimento na comunidade, ou seja nos municípios?

JLM - É. Eu luto para que os ministros passem a morar (ainda que só em pensamento) no musseque.

F&N- De maneira global, que futuro antevê para Angola e quais os principais desafios?

JLM - Os desafios são tão grandes, que o presidente João Lourenço não pode contar só com a equipa do MPLA para governar. Se analisarmos bem a situação actual de Angola, quase tudo está mal, para ser corrigido. A única coisa que foi bem feita por José Eduardo dos Santos, com o recurso aos melhores quadros técnicos do país, foi a “acumulação primitiva do capital” (que, em termos históricos, é um insulto contra a memória dos nossos antepassados levados como escravos para o Brasil). Então, vamos melhorar o que foi bem feito? E o resto? O que sugiro é que o Presidente João Lourenço se socorra das ONGs, como a Pastoral da Criança e a ADRA, expanda o seu trabalho, com fundos do Estado, para acudir as populações carenciadas dos musseques. É preciso notar que o actual Governo tem no seu seio, quase todas as figuras do anterior regime. O que é que alguém que apoiou com unhas e dentes o anterior regime tem para dar a uma nova governação apostada em mudar os ventos da História? Pelo menos, que se agregue a esta governação o contributo, o esforço meritório da sociedade civil, representada em ONGs credíveis, não ONGs criadas para encher os bolsos dos próprios fundadores.

F&N - Para terminar e em espécie de rodapé, que mensagem quer deixar para os jovens jornalistas e jovens escritores que lê e acompanha diariamente?

JLM - Só uma mensagem e a mesma de sempre: ler, ler e ler até queimar as pestanas. A literatura, o jornalismo, são como um sacerdócio. Por isso é que certos grandes escritores mundiais, certos jornalistas que levantaram o escândalo Watergate nos EUA, só foram grandes porque nem tempo tiveram para constituir família, uns e outros ficaram anos a investigar com paciência certas situações. Não brinquem às literaturas. É preciso muito sacrifício, apenas para dominar a língua, quanto mais para conhecer a fundo as técnicas de escrita literária e jornalística. 

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