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6 de março 2017 - às 11:52

JOSEFA SACKO “TEMOS DE MUDAR A VIDA DE MUITOS AGRICULTORES EM ÁFRICA”

A Engenheira angolana Josefa Sacko, eleita Comissária da União Africana para a Economia Rural e Agricultura, num complexo e competitivo processo, revelou-nos em entrevista exclusiva as suas prioridades para os quatro anos de mandato realçando que as políticas a implementar devem centrar-se “no homem” ao mesmo tempo que fez uma análise profunda do sector agrícola em África que ela considera ser o “motor” para o desenvolvimento do continente

 

Figuras & Negócios (F&N) - Acaba de ser eleita Comissária da União Africana para a  Economia Rural e Agricultura. Como decorreu o processo de eleição?

Josefa Sacko (J.S.) - A direcção cessante terminou o seu mandato e a União precisava de um novo executivo à frente da Comissão, lançou-se o anúncio de vagas e Angola apresentou duas candidaturas, a do Embaixador Teté, para o cargo de Comissário para Assuntos Políticos, e a minha candidatura para o cargo de Economia Rural e Agricultura; o processo passou pela nossa organização sub-regional, a SADC, as candidaturas foram avaliadas e as duas propostas de Angola foram tidas, depois o processo foi para a União Africana e a Comissão de candidaturas validou as nossas candidaturas. A partir daí começamos com o processo de campanha, estratégia sempre sob liderança do Ministério das Relações Exteriores.

F&N - Teve um grande apoio do Governo angolano?

J.S. - O Ministério das Relações Exteriores fez a proposta, quem aprova é o Chefe do Executivo porque este tipo de candidaturas engaja o País, então, Sua Excelência o Presidente da República validou o nome dos dois candidatos para Angola e foi a partir daí que o Ministério das Relações Exteriores transmitiu as candidaturas à SADC que coordenou as candidaturas do grupo SADC. O processo de eleição foi complexo, muito difícil, são dez postos, daí sai o presidente e o vice-presidente da Comissão e oito departamentos que são os comissários e nesses dez cada região tem direito a dois e na perspectiva do género, por exemplo, na nossa região tínhamos a nossa lista de candidatos, inclusive uma candidata a presidente, caso a presidente passasse, todos os candidatos femininos seriam eliminados. Tivemos a sorte que, no nosso caso, a senhora do Botswana foi eliminada e daí as candidatas femininas da nossa região mantiveram-se e passaram para a outra etapa, depois da eleição do presidente e vice-presidente foi a do Comissário para a Paz e Segurança, aí a SADC não tinha candidato e as nossas candidaturas não correram nenhum risco mas as outras zonas geográficas correram risco, tive também vantagem na eleição do presidente pelo facto de o eleito ser da África Central, o que eliminou um concorrente meu, que era o candidato dos Camarões; ele foi eliminado porque um homem daquela zona foi eleito presidente, também tive vantagem na eleição do vice-presidente porque sendo da Africa Ocidental também tinha um maliano que foi eliminado, nem concorreram porque o sistema eliminou. A eleição do candidato para a Paz e Segurança também estremeceu a candidatura do outro angolano porque se a nigeriana ganhasse eliminava a candidata do Burkina Faso que estava a concorrer com o nosso compatriota, ganhou a argelina e a candidata do Burkina Faso continuou, depois foi a eleição do cargo para o qual concorreu o Embaixador Tete e quem ganhou foi a senhora do Burkina Faso. Se ele passasse, eu seria eliminada por ser angolana porque Angola tinha dois candidatos e só poderia eleger um Comissário. O meu departamento era o penúltimo, aí comecei a ganhar esperança porque a nossa zona ainda não havia eleito nem um candidato, já havia um consenso à volta da minha eleição aliado ao facto de que o trabalho de diplomacia que Angola fez foi muito forte. Para o posto que concorri haviam três candidatos, fomos à primeira, segunda, eu sempre a liderar o grupo, chegamos até à quinta e foi aí que venci, obtive a maioria dos votos. 

F&N - Agora eleita, quais são as prioridades que tem para o sector da Agricultura, que é complexo para o continente africano?

J.S. - A agricultura é a base do desenvolvimento económico de África e tem uma importância socioeconómica muito grande, os agentes envolvidos nesta área são camadas vulneráveis, com muitos problemas, as zonas de produção não têm desenvolvimento, hoje vimos que a maior parte da juventude emigra, há o êxodo rural, saem daquelas zonas porque não têm vida, se aquelas zonas produtoras fossem atractivas a juventude não emigrava para zonas urbanas. Se criarmos trabalho e oportunidade de emprego, a juventude que vai para o ocidente e morre no mar, se tivesse como sobreviver aqui não arriscaria a vida. Se nós (digo nós porque a União Africana é a sombrinha do continente) trabalharmos no sentido de darmos toda a atenção a essa camada podemos resolver o problema da crise migratória e do êxodo rural.

F&N - Mas há muitos outros desafios, por exemplo, o financiamento da agricultura.

J.S. - Estou a falar do homem em primeiro lugar, temos políticas mas quem é que implementa? É o homem, não podemos construir uma casa sem ter alicerces. A juventude precisa mudar de consciência, saber que não é só vender computadores na rua, fazer outros trabalhos mas que, através da agricultura, também pode empoderar-se. É nesta pessoa que temos de investir, que temos que educar, consciencializar, capacitar e fazê-lo entender que a agricultura é lucrativa, se conseguirmos incutir esta mentalidade, poderemos resolver muitos problemas no continente. 

F&N - Mas essa juventude a que se refere precisa também de aumentar o seu nível de formação.

J.S. - Durante a minha campanha falei do profissionalismo da agricultura, a juventude de hoje não é a juventude de outrora, temos muitos jovens que foram à escola, pelo menos à escola primária. O profissionalismo passa pela formação, pela capacitação e são programas passíveis de financiamento mas tem que haver decisão política, e, em muitos países, esses modelos já existem. Na Etiópia, no Kénia, no Rwanda a juventude está implicada no sector agrário e são empresários. Vamos também olhar para os factores de produção: por exemplo, Angola não produz sementes, quando chega a campanha agrícola tem que encomendar sementes, tem que importar e hoje não temos recursos para tal porque não há divisas, então, porquê que a esses jovens não se lhes dá um campo para produção de sementes? Em África já existem estes modelos e são estas boas práticas que devemos encorajar. Quem coordena essa área é o meu departamento, podemos organizar seminários e propor programas de “side efects” durante as cimeiras para partilha de experiências. A União Africana serve de órgão para cooperação entre os estados membros, para troca de experiência.

F&N - Em África já há jovens empreendedores que estão a ter sucesso nesta área?

J.S. - Sim! No Uganda, na Tanzânia, no Kénia, na Costa do Marfim e Burkina faso já existem micro e médias empresas que fazem a produção de sementes, a produção de fertilizantes e quando os camponeses precisam têm esses produtos localmente, agora é preciso analisar o custo de produção para minimizar o custo de produção para o camponês. Antigamente não se olhava muito porque a agricultura era de subsistência, hoje estamos a falar de uma agricultura de grande escala, temos o problema da explosão demográfica, quem é que vai dar de comer a essa população? Hoje estamos a 1.2 biliões de habitantes em África, a previsão será de 2 biliões até 2050, como poderemos evitar a fome como resultado das alterações climáticas? Diante destes desafios todos temos que trabalhar com os estados, temos o desafio da segurança alimentar, das alterações climáticas, o desafio do capital humano…

F&N - E o desafio do financiamento para a agricultura.

J.S. - Esses programas todos são exequíveis se os nossos governos respeitarem a resolução de Maputo que diz que dez por cento dos orçamentos nacionais têm que ser alocados ao sector agrícola. Muitos países não o fazem, se tivermos os dez por cento, todos estes programas podem ser executados sem necessidade de recorrer aos parceiros externos.

F&N - Quando se fala de financiamento para o sector agrícola, as organizações de “Bretton Woods” deverão ser parceiros relevantes?

J.S. - Não discordo mas como Comissária prefiro que haja uma parceria bilateral, uma cooperação entre os estados e as “Bretton Woods” porque eles têm a sua agenda, os seus mecanismos de avaliação e concessão do financiamento, as negociações dos financiamentos deverá ser feita directamente entre os estados e as organizações de “Bretton Woods”. A União Europeia e a União Africana têm um protocolo de cooperação em várias áreas, vamos trabalhar muito com a FAO e o FIDA, que é um fundo para a agricultura. Podemos negociar com a FAO para a assistência técnica e com o FIDA para o financiamento porque a Organização tem que estar ao serviço dos seus estados membros. 

F&N - E o velho sonho da exportação em grande escala de África para os outros continentes?

J.S. - Temos que olhar em dois prismas, o primeiro é assegurar a segurança alimentar, alimentar as populações. Se conseguirmos atingir estes objectivos poderemos exportar o excedente, se conseguirmos atingir a autossuficiência alimentar temos excedente para o mercado e podemos, segundo o programa da SADC de comércio transfronteiriço, dinamizar esta parte. Quando falamos das “commodity”, elas ajudam a trazer divisas porque são cotadas no mercado internacional, o café, a madeira, as flores, esta é uma outra abordagem, são produtos estratégicos que queremos exportar e para tal temos que ter em conta as exigências dos mercados onde queremos penetrar. Por exemplo, o Canadá é um país muito exigente, o produto que lá entra tem que ter muita qualidade, é feito o controle fitossanitário dos produtos, temos que ter laboratórios para o controle de qualidade com as exigências dos mercados para onde estamos a exportar, vou falar também do mercado da União Europeia que também é muito exigente. Quando eu era Secretária-Geral da Organização do Café tivemos um caso com ocratoxinas (bolores que aparecem no café por má conservação), eles queriam vetar a exportação de produtos de origem africana, a Organização Inter-Africana do Café, da qual eu era Secretária-Geral, teve que jogar um papel, negociamos com os parceiros para dar uma moratória para nos equiparmos e adequar às normas, na altura a FAO ajudou-nos tendo em conta que se trata de um produto estratégico para a economia de muitos países. 

F&N - Acredita que com as acções a serem implementadas poderá mudar a vida daquele agricultor que está algures numa aldeia longínqua?

J.S. - Com a ajuda dos estados membros, se implementarmos as políticas que foquei, se obedecermos a resolução de Maputo, se implementarmos políticas de acesso ao crédito, acho que vamos mudar a vida de muitos agricultores. A agricultura é tudo, é a base do desenvolvimento, somos 55 países, noventa por cento destes países têm a sua economia voltada para a agricultura, mesmo Marrocos que entrou ontem (voltou, porque é membro fundador da Organização de Unidade Africana) vive da agricultura e para um país do deserto, que não tem terras aráveis conseguir transformar terra desértica em terras aráveis, hoje Marrocos exporta laranja, exporta tudo para a Europa, porquê que nós que temos não o fazemos? quando eu entrei na indústria do café, o Vietname não era o segundo produtor mundial de café, em 20 anos tornou-se o segundo produtor mundial depois do Brasil. Um Estado tem que ter visão, ter estratégia de como chegar a esta visão e implementar os seus programas, não é só deixar os programas nas prateleiras. A população africana cresceu, há um novo modelo de fazer agricultura e, nós, na África subsariana temos que aplicar, temos que garantir a paz e a segurança que também faz parte da agenda 20/53, que é a bússola da União Africana que foi elaborada quando a nossa organização fez 50 anos, é uma agenda para mudar a África em 50 anos. Dentro desta agenda existem sete aspirações, dentre as quais a preocupação de melhorar as condições de vida, uma transformação inclusiva com equilíbrio de género e participação da juventude. Estou contente porque quando eu estava na organização Inter-Africana do Café olhavam para países como Nigéria e Angola e viam este sector como se não fosse importante mas hoje reconhece-se que é o sector motor, como se diz em inglês “backbone”, é a coluna vertebral do continente africano. 

F&N - Mas África tem grande parte das terras aráveis do mundo mas apesar de tudo continua a ter todos estes problemas que focamos. O que é que se pode fazer para um melhor aproveitamento destes espaços?

J.S. - África tem 33 por cento das terras aráveis do mundo, depende do programa nacional de cada país que deve ter metas específicas. Se for para agricultura de grande escala o processo é outro, se for para reagrupar os pequenos agricultores é uma questão de dar meios, facilitar o acesso ao crédito, dar títulos de propriedade aos camponeses para poderem usar os títulos como garantia para terem acesso a financiamentos. África não tem um sector privado forte, com o sector privado cria-se as pequenas e médias empresas que dão empregos e é esse conceito que é preciso incutir nos nossos países para explorarmos esses 33 por cento. Outro problema muito grave é a questão do clima, assinamos o acordo de Paris em 2015 que entrou em vigor, os países africanos ainda não estão a aplicar a estratégia de adaptação e mitigação mas têm possibilidade de ter financiamento, através do Fundo Verde, para adaptar às populações, as terras estão a devastar-se, há o problema da erosão, há o problema da desflorestação, há pragas que aumentaram em certas zonas produtoras. Um dos meus sonhos, que não consegui implementar quando estava na Organização Inter-Africana do Café, é criar centros de excelência na área da investigação, temos institutos de investigação mas não temos centros de excelência que podem facilitar as trocas de material vegetativo, troca de experiências, a formação e a troca de material vegetativo. Durante o meu mandato vou trabalhar com o Banco Africano de Desenvolvimento para pormos pelo menos dois centros de investigação de excelência aqui em África, em duas zonas diferentes do continente.  

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