MUNDO

 
2 de January 2021 - às 08:01

Joe Biden, enfim, Mister presidente

Conhecido no meio político norte-americano como o candidato que nunca tinha ido além de um terceiro lugar nas primárias, Joe Biden entrou para a história como o que mais votos recolheu numa eleição presidencial.

 

Os mais de 74 milhões de votos que recebeu nas eleicões de 4 de Novembro, traduziram-se em  mais de 270 votos no colégio eleitoral, os quais foram suficientes para assegurar a eleição e  impedir que Donald Trump fosse reeleito. O sucesso ora alcançado está associado a uma grande penetração sua, junto do eleitorado negro, para o qual contribuíram sobremaneira o ex-presidente Barack Obama, o congressista Jim Clayburne, da Carolina do Sul e Stacey Adams, antiga senadora do estado da Geórgia. 

A circunstância de Joe Biden ter escolhido Kamala Harris para vice-presidente, ajudou duplamente junto dos negros e do eleitorado feminino. 

Barack Obama é igualmente citado como tendo contribuído para a mobilização em outros estados, particularmente no Michigan, o qual em 2016, votou a favor de Donald Trump.

De nome completo, Joseph Robinette Biden Jr, Joe Biden chega à presidencia dos Estados Unidos, depois de ter falhado 3 tentativas . Originário da Pennsilvânia, com carreira política forjada no vizinho estado de Delaware, Joe Biden leva para a Casa Branca a experiência de 47 anos no Senado, onde presidiu vários comités e dos 4 anos em que  foi vice-presidente de Barack Obama.

Com a tomada de posse marcada para 20 de Janeiro, até lá, Joe Biden terá pela frente dois grandes  desafios: ignorar a distração provocada pela barulheira à volta da reluctância de Donald Trump em aceitar os resultados das eleições, e preparar uma equipa que seja capaz de desde o dia primeiro, responder aos principais problemas da América: os efeitos da pandemia do coronavírus e o desemprego.

Apesar  de ter conseguido reverter a favor do seu partidoestados tidos como solidamente democratas, mas que há 4 anos votaram em Donald Trump, como são  os casos de Michigan, Wisconsin e Pennsilvânia, Joe Biden não pode perder de vista que o resultado apertado das eleições, signifca que  os EUA são um país políticamente dividido ao meio.

De notar que em nenhum desses  estados,  a diferença entre ele e Donald Trump foi superior  a 3 por cento ou seja há  uma parte significativa da America que se revê no ex-presidente, apesar dele ter sido sujeito a um impeachment e da economia ter contraido significativamente.

Posto isto, o discurso de "reunificação" do país, proferido na noite em que celebrou a vitória tem mais relevância ainda.

De resto ao contrário do que os democratas advogaram  durante a campanha, o país não foi tomado por uma onda azul, côr com que são associados, em oposição ao vermelho, côr atribuida aos republicanos. Na verdade, o partido Democrata viu diminuida  a vantagem que tinha na câmara dos deputados. 

A hora do envio desta edição , estavam por concluir as eleições para os dois assentos no Senado, reservados ao estado da Geórgia. Não tendo nenhum dos candidatos conseguido cinquenta por cento mais um voto, a lei daquele estado prevê uma segunda volta.

Os democratas precisam dos dois lugares para ficarem ela por ela. Se este vier a ser o caso, as votações pela futura vice-presidente, Kamala Harris, pois no sistema político norte-americano, o vice-presidente, é o presidente do Senado. Regra geral o vice-presidente apenas vai ao Senado quando existe uma igualdade de votos. Al Gore vice-presidente de Bill Clinton e Mike Pence, actual vice-presidente, foram os últimos vice-presidentes a fazerem uso dos seus direitos de voto.

 

O controlo desta câmara do Congresso facilitaria a vida a Joe Biden, em matérias como nomeações para administração e aprovação de pacotes legislativos.

Membros do seu gabinete de transição deixaram escapar que Joe Biden deverá recorrer a decretos executivos para revogar algumas das decisões tomadas por Donald Trump. É um dado adquirido que a (futura) administração deverá optar pelo regresso à Organização Mundial da Saúde  e ao Acordo de Paris, sobre política ambiental. Se estas decisões não carecem de aprovação do Congresso, outras como a reforma do sistema de saúde, aumento de impostos, apresentam-se como os maiores desafios, mum cenário em que o Senado seja controlado pelos republicanos.

Se for este o caso,  Joe Biden terá que fazer o uso da sua reconhecida capacidade de negociação para não alienar  a ala mais à esquerda do seu partido, nem abrir uma frente com o  partido republicano. 

A chamada ala progressista do partido, liderada por figuras como o senador Bernie derrotado por Joe Biden nas primárias, advoga mais intervenção do Estado na economia e na serviços sociais. Esperam também uma reviravolta complexa na política ambiental, o que a acontecer poderá colocar Biden em choque com uma parte signifcativa de eleitores da Pennsilvânia, estado que lhe deu a vitória. Enquanto isso os republicanos opõem-se terminantemente ao aumento dos impostos, à obrigatoriedade da aquisição de um seguro de saúde e à política de imigração mais branda. Antes que tudo isso aconteça, todos os problemas que levaram Donald Trump a não admitir a derrota, precisam ser resolvidos. A certificação dos resultados está oficialmente marcada para 14 de Dezembro.

O impasse que eclodiu logo a seguir ao fecho das urnas, projectou a ideia de uma repetição do que tinha  acontecido em 2000, quando a eleição do presidente apenas se consumou  após o Tribunal Supremo ter negado provimento a um pedido de Al Gore candidato derrotado por George Bush. É quase certo também, que embora nada indique que Donald Trump venha a ter sucesso nos inúmeros recursos que submeteu, a  eleição de Joe Biden apenas seja um caso arrumado após chegar ao Tribunal Supremo. 

Donald Trump vai para a história como um presidente que não conseguiu a reeleição. O último a ter falhado, foi George Bush (pai) o qual foi derrotado  por Bill Clinton em 1992. Apesar de não admitir, Donald Trump teve contra si a resposta que deu à pandemia do coronavírus. Além de  nunca ter encorajado tanto o uso de màscaras quanto o distanciamento social, Donald Trump também não foi consistente em relação à evolução do virus e na validação do que diziam os grandes especialistas. Trump, entreteve uma disputada com a OMS, que desembocou na sua decisão de retirar o seu país daquela organização. 

Apesar disso, e à semelhança de outros governos, a administração Trump também abraçou a ideia  do fecho de fronteiras. Tal como aconteceu noutros países, esta decisão estancou a importação dos virus, mas em contrapartida, resultou na descapitalização de várias empresas e numa vaga de desemprego. Seja como não tendo nunca encorajado o distanciamento social, Trump, viu o virus alastrar-se assustadoramente. No dia da eleição,  os EUA registaram o número record de  100 mil novos casos. Nessa altura haviam morrido de COVID-19, 239 mil americanos, de um total de 10.2 milhões de infectados.

Por essa razão, não foi  surpresa o facto de  Joe Biden ter feito da luta contra a  pandemia, o grande tema da sua campanha. Advogando sempre o uso de máscaras e o distanciamento social, foi ao ponto de ter feito uma convenção virtual. De igual e para evitar exposição tanto para ele quanto para os seus apoiantes, as pessoas quando fossem  aos seus comícios não saiam dos  carros. 

 De 77 anos de idade, Joe Biden será o mais velho de todos os presidentes  no início do primeiro mandato. Kamala Harris, filha de pai jamaicano e de mãe indiana, será a primeira mulher a assumir a vice-presidência dos Estados Unidos. Joe Biden será o segundo presidente católico dos Estados Unidos, depois de John Kennedy. 

 

Texto Steve Werner*  / Fotos DR

Em Nova Iorque, especial para a Revista Figuras e Negócios

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