FIGURAS DO MÊS

 
25 de junho 2019 - às 07:30

JOAQUIM GRILO RECLAMA AJUDA PARA A PUBLICAÇÃO DO SEU LIVRO LIVRO SOBRE BENGUELA

Joaquim Grilo, um pesquisador conhecido por dar a cara na defesa do património histórico-cultural de Benguela, volta a dar voz a uma luta de vários anos em busca de apoios para publicar um livro sobre a história da província. A viver em Benguela há mais de 60 anos, a Figura do Mês da sua revista chega mesmo a insinuar que está a ser boicotado por não ser natural da província que descreve em várias dezenas de páginas. Na conversa que a seguir transcrevemos, o mais velho Grilo lamenta o facto de já ter concluído a sua obra desde 2010, fala sobre o presente e o futuro do país político e mostra-se , sobretudo, esperançado que  a dimensão  sócio-histórica  e cultural do que vai deixar como herança para as gerações vindouras contribua no crescimento da província que o acolheu há sessenta anos, natural de Malanje, afirma que "prometem muito, já tivemos reuniões, perante televisões, num jantar patrocinado por um grande empresário de Benguela. Mas aquilo foi mais parra do que uva. Conclusão: a montanha pariu um rato, o mesmo é dizer que não há interesse dos benguelenses verem este livro publicado"

 

JOAQUIM GRILO ANALISA A SITUAÇÃO ACTUAL DA CIDADE E DO PAÍS

UM GRITO DE  SOCORRO DAS ACÁCIAS  RUBRAS PARA ANGOLA 

Figuras & Negócios (F&N) - Comecemos pelo livro. Já conseguiu o apoio para lançar o livro sobre a história de Benguela?

Joaquim Grilo (J.G.)- Ainda não, infelizmente. Concluí o livro, como sabes, em 2010, e continuo com a esperança de que apareça alguém que queira ajudar, talvez a sociedade benguelense. O meu livro não é melhor nem pior do que os outros, é diferente. Contém mil e tal páginas preenchidas com o historial de Benguela enquanto província. Olho para o historial da capital, a ‘’cidade mãe de cidades’’, falando de mais de 32 bairros históricos, entre os quais o bairro das facadas, e do campo da aviação, e outros que mudaram de nome. Avanço para os municípios, mas sem agregar o Dombe Grande à Baía Farta, porque é a única comuna com o seu historial próprio, sua própria riqueza, daí que tenha quase 20 páginas. Como se diz na gíria, põe a Baía no bolso em termos de riqueza histórica. 

F&N - A lógica é a mesma? O que aborda nele?

J.G. - Eu falo de assuntos económicos, culturais, falo de famílias, no geral. Aglutino o patrão, o empregado, o rico, o pobre, branco e o azul, sem protocolos. Aglutino mesmo, falo de famílias de Benguela, de desportistas, homens de cultura e religiosos. Por exemplo, falar dos bairros Benfica e da Camunda, ambos históricos, é falar das famílias que lá estiveram. No Lobito igualmente, mas não falo tanto dos bairros, faço um panorama geral, mas abordo acima de tudo o surgimento do nome, os passos até chegar a município. É, modéstia à parte, a melhor forma de nós cumprirmos … aliás, é obrigação de qualquer homem ter filhos, plantar uma árvore e escrever um livro. Portanto, o livro está em banho-maria, já que tenho filhos e plantei várias árvores.

F&N - Qual é a estimativa, quanto é necessário?

J.G. - Houve muita mudança sim. O último contacto com uma editora brasileira apontava para uma redução drástica, ficava em 6 milhões de Kwanzas. Digo baixou porque tenho uma factura da Dammer orçada em 60 mil dólares e outra, de Portugal, em 39 mil Euros. Esta última, a do Brasil, caiu do céu. Na verdade, para quem tem dinheiro é pouco, mas para mim continua a ser muito. Continuo a estar preso por ter e não ter cão.

Então, podemos fazer aqui o último apelo, já que os custos baixaram.

Já fiz das tripas coração. Tenho o braço direito com dores no cotovelo de tanto estendê-lo, nada caiu por cima desta mão que um dia a terra há-de comer. Mas como a esperança é a última a morrer…  

F&N -Mas já há, digamos, algum valor? Lembro que a batalha é antiga.

J.G. - Quando eu digo que este valor baixou substancialmente, comparando com os outros, estou a dizer que eu também apliquei algo meu. Optei pelo sistema da galinha, o do grão a grão, somando é um quinhão razoável. Por isso digo que baixou, estou, agora, a precisar das últimas pás de areia para acabar de enterrar o meu caixão. Isto no sentido figurado, claro. Por enquanto o livro é meu, mas um dia será da sociedade, quando sair.

F&N - Às vezes, como apontam alguns críticos, surgem apoios para ‘coisinhas’, vindos até do Governo. Não conta com as autoridades?

J.G. - Há apoio em sentido figurado, de forma abstracta, muitas promessas… agora vem aquele bichinho da crise, que contribui para a pouca vontade de quem de direito.

 F&N -E os amigos e empresários? 

J.G. - Uns por dor de cotovelo, acho eu, outros por falta de interesse, só sabem contar cifrões, não sabem da importância da história. Se for armador, querem ver o peixe que chega à terra; se for lavrador, querem pesar os camiões que levam o tomate e a cebola, que estão a dar, porque Angola é um zero na agricultura. Portanto, eles querem lá saber de um livro, é como apresentar a um analfabeto uma tábua de logaritmos, não se pede a ele que resolva o problema de uma raiz quadrada.  

F&N -É de Malanje, mas tem Benguela no coração…

J.G. - Atenção aí. Este será um dos casos que fazem com que o meu livro não saia. Porque dizem por aí que ele é de Malanje. Mas quando fiz o ensino primário, na década de 50, eu aprendi a história e a geografia de Portugal, a Serra da Estrela, as linhas que vão até à Beira Alta, passando por Pampilhosa. Conheço mas nunca lá estive a estudar, vou a Portugal de quando em vez para matar saudades da terra dos meus avós. Portanto, o ser de Malanje não significa que não consiga entrar nos preâmbulos da história de Benguela. Eu vim a Benguela com seis anos, em 1952, coincidentemente no dia 17 de Maio – aniversário da cidade -, estou cá há 67 anos. Terei em Benguela o dobro da sua idade (risos). No fundo, o ser de Malanje é conversa para boi dormir.  

F&N - Triste com a situação de Benguela e do país ? Como vê a Benguela de hoje?

J.G. - Com sentimento de tristeza. Aliás, em termos comparativos, quer dizer… posso considerar que essa cidade teve duas faces, a do passado e a do presente, que são dois extremos que nunca se encontrarão.  Conheci-a limpa, arborizada. Aliás, um primo meu, regente agrícola, era o responsável por esta área. Perdemos, creio que para a Ndalatando, o estatuto de cidade- jardim e estamos em vias de perder para o Luena o estatuto de cidade das acácias rubras. Benguela estava cheia de acácias, na fase natalícia ficava ao rubro, tal como o meu glorioso Benfica. Hoje, lamentavelmente, procuramos acácias como quem procura a agulha num palheiro. Até a nova cidade do Kilamba tem mais, isto porque não se planta uma árvore, não há arborização, tanto nos bairros como na cidade. 

Temos buracos nas estradas, lixo e problemas na distribuição de energia e outros serviços sociais... 

Antes, sem minimizar, deixe dizer que temos, aí sim, estradas nos buracos, é muito pior.

F&N - De quem é a culpa?

J.G. - A culpa morre sempre solteira. A culpa, modéstia à parte, com todo o respeito, é do país que nos colonizou, já que houve problemas na transição. Eu tenho filhos adultos que beberam da minha sabedoria. Após 500 anos, a retirada de Portugal deveria ter sido condigna. Deveriam ter ficado alguns especialistas, na condição de cooperantes, mas cooperantes de verdade, não como os que estiveram aqui a encher o bandulho. Estou a falar daqueles que nos pudessem transmitir conhecimentos em várias áreas, como a indústria, a saúde, a educação e por aí fora.

Voltando, a cidade de Benguela, em termos técnicos e geográficos, tem uma espécie de cilindros para os lados sul e norte, a partir das ruas de Angola e 5 de Outubro, pelas quais as águas das chuvas eram escoadas para o mar. Tudo isso porque existiam sarjetas e manilhas subterrâneas com diâmetros que quase nos permitiam andar de gatas. Foi tudo tapado, hoje quando chove é um Deus me acuda.  

F&N - Mas nós, independentes há vários anos, já tivemos muito dinheiro, aí antes da crise. A culpa é só do colono? 

J.G. - Não estou a sacrificar o colono. Você fez uma pergunta, estou a responder.

F&N - Pergunto justamente onde ficamos, nós, angolanos?.

J.G. - Perdemo-nos no tempo e no espaço. Os poucos que governaram foram os donos do país, tal como você sabe, daí que se fale de marimbondos. Isso ajudou a enterrar mais o nosso desenvolvimento, isso também conta. Há um slogan em Umbundu que diz, mais ou menos, que o visitante não se compara com o dono. Portanto, todos esses cooperantes vieram fazer tudo menos desenvolver o país, talvez não precisássemos deles, poderiam ter regressado e, se calhar, morrido à fome.  

F&N - Esta análise serve para o país?

J.G. - Fotocópia. É a mesma coisa, quer estejamos cá ou em outro lugar. Nem é preciso ter lupas nem binóculos. 

F&N - Como encara, já agora, a prestação de João Lourenço? 

J.G. - Esta área é melindrosa, eu não sou político. Até agora… não sei, não sou apologista de quem ponha a carroça à frente dos bois, temos de esperar. Existem boas intenções, já vemos luz ao fundo do túnel... Por isso digo que este senhor Presidente caiu do céu, é um salvador. Espero, pois, que leve o barco, Angola, a bom porto, que realize o projecto que tem. Atenção que todos devemos apoiá-lo, ele não pode estar em todos os sítios. Então, nós, cidadãos, temos de apontar o que está mal. 

 

Texto e Fotos:João Marcos

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