FIGURAS DO MÊS

 
17 de June 2019 - às 14:57

JOÃO FRANCISCO, MESTRE DA FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE XADREZFIDE

Quem o conhece e acompanha a sua carreira como um dos jornalistas desportivos mais empenhados em promover o xadrez, bastas vezes viu-o a percorrer o país de lés a lés à procura da notícia, dos factos que fizeram de si um especialista convencido  de que jamais dispensaria um minuto sequer para deixar para trás um lance, uma vitória, uma derrota ou empate do "jogo-ciência" importante.

...Pouco lhe interessava se fazia sol ou chuva, e João Franscisco abraçou também a modalidade como ninguém e  foi campeão. Para os amigos mais próximos e colegas de um tempo que já vai distante, é, ainda, o  "Karpov". Pouca gente se recorda que a alcunha foi-lhe dada em homenagem ao campeão russo, detentor dos  maiores títulos mundiais de xadrez, juntamente com o seu conterrâneo de império (União Soviética) Kasparov

 

 UMA VIDA DEDICADA AO XADREZ E AO JORNALISMO ESPECIALIZADO 

João Francisco aceitou de bom grado ser chamado de "Karpov", mas naquela altura (anos 80) provavelmente já sonhava que poderia ser , também no seu país,um verdadeiro Mestre. Ele conta-nos parte da sua história de vida casada com o jornalismo especializado. Raramente nos vem à memória alguém que tenha escrito tanto sobre a modalidade no país. E alguém que tenha conseguido ser jornalista e xadrezista a tempo inteiro,mas não é que  João Francisco  conseguiu ser Mestre FIDE em 1996?. 

Há anos que anda nesta vida: jornalismo, xadrez e ciclismo ou...vice-versa!Por isso foi chamado à conversa, porque o homem não pára. E, pela sua determinação e elevado grau de profissionalismo, merece o seu espaço, o seu tempo para falar de si e de uma escola de xadrez que fundou em 2000: a Escola de Mestres de Xadrez João Francisco  EMXJF), depois do Clube Desportivo ASA ter acabado com a modalidade, tendo mesmo chegado a assumir as funções de chefe de departamento  na agremiação.

Sem fins lucrativos,todavia,  a instituição procura rever tal situação, na medida em que  é suportada por uma taxa  mensal que sai do seu próprio salário e da sua esposa que é Presidente de Direcção da Escola. Entretanto, João Francisco dá uma pedalada importante na Federação Angolana de Ciclismo, na qual é o Secretário Geral "não executivo" (sem remuneração) desde 2000. "Já fui também vice- presidente para o Markting daquela instituição entre 2012-2016, função que acumulei com a de Secretário Geral", recorda.

"Karpov" jamais pensou em abandonar o projecto de formação de novos talentos em xadrez, pois, dando o seu melhor para que tal aconteça, considera que está sómente a fazer com que a modalidade se desenvolva e mais gente chegue a conquistar o título de Mestre da Federação Internacional de Xadrez. "Ainda só "paguei" a minha parte com o estudo e a prática da modalidade ao longo de mais de três décadas. Agora chegou a hora de retribuir para os outros, principalmente para as nossas crianças, aquilo que de mais belo aprendi com o "jogo - ciência", afirma.

Ainda em relação ao seu projecto de formação, o nosso interlocutor declara ter sido muito gratificante ter estado a contar sempre com o apoio da família, pois ela sentiu-se mesmo obrigada a aderir ao Projecto, como é o  caso da sua companheira, Lucrécia Francisco, que, a partir de 2014, passou a exercer o cargo de Presidente da  EMXJF, uma vez que existiria   incompatibilidade de funções de sua parte se   exercesse este cargo.E porquê? Porque ele continua no activo como jogador, com pontuação.

João Francisco diz que, com o xadrez, aprendeu quase tudo,"até  para viver pelo menos até aos 100 anos, sem preocupações", mas tem um desejo: gostaria que os seus filhos e netos também aprendessem a jogar/praticar a modalidade mais cedo, pois, infelizmente, começou a fazê-lo muito tarde, quando tinha 15/16 anos, devido à guerra (a sua família emigrou de Cacuso-Malange-para Luanda, capital do País, onde tinha já a residir outros familiares que a acolheu.

Recorda, com orgulho, o facto de ter outros "craques " conterrâneos na galeria de honra do xadrez angolano e, quiçá mundial, nomeadadamente os Mestres Manuel Mateus, Francisco Briffel, Armindo de Sousa, Aristóteles Ramos, os Especialistas Abilio Ribeiro, Manuel Pedro e  tantos outros, mas considera que entre todos estes malanginos de gema, foi  o que teve mais dificuldades para se impôr no Xadrez. "Fiz , quase,  senão toda a minha carreira escaquística , ao lado de “feras”, e, em Luanda,  nos primeiros anos, assistia os meus conterrâneos , provenientes das  terras da Palanca Negra já qualificados para as provas nacionais...Eu ainda tinha que me qualificar diante dos “tubarões “de Luanda!", conta.

"Quando apanhei a “pata” dos melhores jogadores de Xadrez que se encontravam em Luanda, foi só ganhar Zonais, atrás de Zonais A (principal preliminar enquadrada na finalísssima para o Campeonato Nacional Individual Absoluto). Ainda hoje, ninguém bateu o meu recorde de vitórias no Zonal A", conta a nossa "Figura do Mês".

João Francisco foi  Vice- Campeão Nacional Absoluto em 1984. Lembra que,em 1985, quando  todos vaticinavam a sua vitória no respectivo campeonato,  aconteceu um episódio inédito no xadrez angolano: um  jogador foi expulso na prova, por proferir “palavras consideradas graves” pelo árbitro ,  que exibiu de imediato o “cartão vermelho”. E este jogador era exactamente ele!

Hoje, lamenta o sucedido, mas, naquela prova, já ia bem embalado na liderança.Por isso, mesmo “expulso”, já tinha feito mais do que 50% da prova do torneio e  acabou por ficar classificado nos lugares  de acesso à Selecção Nacional, integrando-a em 1986.Neste ano, representou o país na 36ª Olimpíada de Dubai (Emiratos Árabes Unidos), onde foi considerado um dos melhores jogadores do combinado nacional, terminando com pontuação internacional (2005).Na altura, era  o exigido para figurar no Ranking mundial. 

 

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