CULTURA

 
31 de maio 2016 - às 07:00

GRUPO KILANDUKILU A EXPRESSÃO MÁXIMA DA DANÇA TRADICIONAL EM ANGOLA

O grupo Kilandukilu é uma força da dança tradicional angolana e maior referência no mercado nacional. Numa entrevista à revista Figuras&Negócios, o director do grupo, Maneco Vieira Dias, faz uma abordagem sobre o mundo da dança em Angola, perspectivas e futuro do colectivo

 

Figuras&Negócios (F&N)-Como é feita a formação no Kilandukilu, tendo em conta que desde 1985 já muitas gerações por aí passaram?

Maneco Vieira Dias (MVD): Bem nós internamente fomos criando sistemas de formação por via de várias oficinas que fomos realizando ao longo destes anos de existência. Procuramos ter sempre professores com formação na área para ministrar as aulas. Paralelamente a isso sempre que haja possibilidade de participar em oficinas aqui ou no exterior, organizados por outras estruturas, procuramos enquadrar integrantes nossos para o refrescamento. Pensamos que um bailarino só poderá ser um bom profissional se possuir uma formação sólida.

Entretanto, no Kilandukilu a nossa grande escola tem sido o próprio grupo onde temos pessoas com experiência muito sólida, de mais de 30 anos, que são o grande suporte para a criação dos novos integrantes. Não obstante a tudo que vimos referenciados, continua a ser nosso sonho a criação de uma escola só precisamos de apoio para a materialização do projecto. 

F&N-    É fácil ou há muitos constrangimentos à mistura nesta actividade?

MVD: Os constrangimentos existem sempre e é preciso saber contorná-los embora as vezes seja muito difícil. De qualquer forma, deve-se encontrar sempre algum caminho para solucionar os constrangimentos. 

F&N-    Dirigir um grupo que já ganhou o Prémio Nacional de Cultura na vertente da dança em 2011, como é num mercado com inexistência de salas específicas para a realização de espectáculos?

MVD: É sempre difícil dirigir um grupo de dimensão do nosso (Kilandukilu) pois os meios que gostaríamos de ter nem sempre existem para fazer face aos projectos, sobretudo quando é (como no nosso caso) um grupo que sobrevive de meios próprios. A falta de salas, os custos elevados para a realização de shows, só para citar estes, são factores que muita das vezes inviabilizam vários projectos. Hoje e cada vez mais os apoios não existem. Só para ter ideia ainda temos dívidas contraídas com o último espectáculo que fizemos em 2014, no Cine-Tropical. Embora exista mercado artístico para a dança, os espectáculos têm sido cada vez mais escassos e muitas das vezes quando somos solicitados, é sempre ou quase sempre como segundo plano. Resumindo, neste momento o período não tem sido dos melhores, porque há cada vez menos incentivos para a prática desta modalidade artística, sem falar da crise que tal como nos outros sectores, também o Cultural foi afectado. Ainda assim pensamos que deveria haver um maior reconhecimento a aqueles que não obstante todas adversidades vem se mantendo e produzindo um trabalho digno de realce. 

F&N- Como tem sido a reacção do público angolano? 

Encoraja-vos a continuar nesta batalha de promoção da dança angolana?

MVD: A reacção do público tem sido boa e é por esta razão que ainda continuamos, pois o público desta arte do bem-fazer tem nos incentivado a não parar não obstante todas as dificuldades que possam existir.

F&N-    Qual é a posição que Angola deve tomar para desenvolver esta modalidade artística, pois poucos são os grupos profissionais?

MVD: Se quisermos falar da dança como profissão, devo dizer que são muito poucos aqueles que vivem somente dela, embora existam muitos profissionais. Na verdade, as pessoas ainda não olham para um bailarino como profissional e nem mesmo a introdução da carteira profissional tem servido de mais-valia.

Quanto aos grupos profissionais, tenho reservas que existam (e não pessoas) já com este estatuto de facto. Ser um grupo profissional não passa só por fazer um salário aos bailarinos, mas concorrem uma série de elementos que permitam um funcionamento regular de toda estrutura, e é isso que não existe, já que as condições objectivas quase são nulas.

 F&N- Quem deve dinamizar a actividade artística, em especial na área da dança, o Estado, empresários ou gestores culturais?

MVD: A política de dinamização da cultura, no geral, e da dança, em particular, devem ser da responsabilidade do Estado, sobretudo na criação de condições para que esta modalidade artística seja um facto. No domínio da investigação, sentimos muito poucas apostas para exploração do grande acervo da nossa cultura bastante vasta e riquíssima, uma vez que os meios para a sua materialização também são escassos, por falta de apoio. Claro que os empresários também têm as suas responsabilidades neste processo todo, embora ficamos com a sensação de que às vezes a dança parece um parente pobre da Cultura.

F&N- O que dizer da Escola Nacional de Dança?

MVD: Quanto a Escola Nacional da Dança, o maior problema não está na escola, como tal, uma vez que quem nela passar esperamos que consiga obter os conhecimentos técnicos científicos capazes  de lhe dar ferramentas que lhe vão facilitar uma melhor inserção na vida laboral. O que me parece ser maior preocupação são políticas claras e bem definidas para que os estudantes pós-formados tenham um emprego assegurado. Na minha opinião, ainda dever-se-ia criar políticas integradas onde para além da cultura, estejam envolvidas outras áreas do saber capazes de criarem mecanismos que visam a inserção destes no mercado de trabalho, sem sobressalto.

Não obstante a existência desta escola que a todos os títulos é louvável, achamos que se deveriam criar escolas de formação básica para permitir uma maior disseminação ou, então, ser integrado a dança no sistema normal de educação, como ocorre já com a música em algumas Instituições de ensino.

F&N- O número de coreógrafos existentes no país já o satisfaz? Porquê?

MVD: Se comparamos com a quantidade de praticantes e grupos existentes, podemos afirmar que o número de coreógrafos é ainda bastante exíguo. O outro aspecto que preocupa é que cada vez mais há menos divulgação das obras que são produzidas, pelos vários agentes ligados a esta modalidade artística.

F&N- Muitos são os grupos que surgem e foram criados por alguns instrutores que aprenderam a bailar nos grupos mais antigos. Será que é desta forma que teremos resolvido o outro salto que se pretende dar nesta arte em Angola? E a formação académica profunda, onde fica nesta perspectiva de sucesso desta arte?

MVD: O surgimento de novos grupos será sempre bom, desde que tenham uma estrutura sólida para fazer face ao que se propõem fazer. O facto de o instrutor ter saído de um grupo com maior experiência pode até ser um incentivo para que ele possa provar o seu potencial. Claro que se ele se aperfeiçoar e fazer uma formação será sempre uma mais-valia pois lhe dará outra estrutura para interpretar melhor os fundamentos da arte do bem-fazer 

F&N- Nesta índole da formação e tendo em conta que o seu grupo já esteve em vários palcos mundiais, como está a dança nos outros países, em termos de surgimento de grupos e organização de eventos? Que experiência destes países Angola poderia adoptar, a curto, médio ou longo prazo?

MVD: Olha, o pouco que sei é que existem países onde os grupos, sobretudo os que fazem trabalho de preservação, merecem sempre uma atenção das estruturas de direito.

Penso que se deve criar mais incentivos para que haja um maior interesse das diferentes franjas da sociedade, por um lado, e, por outro, criar condições para o surgimento de fóruns regulares sobre a dança e, até, festivais de divulgação das grandes potencialidades que a dança nos reserva. Em várias ocasiões já apresentamos várias ideias e projectos mas infelizmente nunca se conseguiu materializar porque os apoios não surgem, o que, desde já, lamentamos.

Hoje por hoje a dança Angolana (algumas delas) tem uma divulgação bastante considerável podendo mesmo ser citado o exemplo da Kizomba no mundo.

Ainda assim, nós não temos sabido tirar proveito da grande expansão deste movimento. Hoje esta dança no mundo é uma fonte de rendimento para muitos especialistas e ate curiosos que nada têm haver connosco. 

F&N-    Quando um bailarino ou homem ligado a dança em Angola poderá estar na arte e fazer dela uma verdadeira profissão, sem recorrer a outros empregos para sobreviver?

 MVD: Só quando sentirmos que as politicas existentes permitam a sua integração no mercado de trabalho de forma condigna. De outra forma temos reservas diante de tudo que vivenciamos no mundo artístico. É ver quantos prémios existem dedicado a outras modalidades artísticas comparando com a dança.

Portanto, até aí somos parentes pobres, o que é uma pena. 

Historial do grupo - Kilandukilu-Significa divertimento na Língua nacional Kimbundo e nasceu como um pequeno grupo de jovens amantes da arte, em especial a dança e a música folclórica. 

O objecto social do grupo pauta-se essencialmente na pesquisa, recolha e estudo das manifestações culturais do povo angolano e outras a elas associadas.

O Ballet Kilandukilu nasceu no Bairro Maculusso, em Luanda, a 15.03.1984, com a designação inicial de Grupo Experimental de Dança Tradicional Kilandukilu.

Participações em eventos - O grupo já participou em vários certames nacionais e internacionais, com destaque para países como Portugal, Alemanha, Suécia, Polónia, África do Sul, Zimbabwe, Marrocos, Brasil, Cuba, Costa Rica, Nicarágua, Índia, Corea do Norte, Singapura, Japão, Espanha, Itália, Emiratos Árabes Unidos, Qatar, Israel, Coreia do Sul, França, Argentina, Turquia. 

 

Instrumentos que usa nas suas obras - Batuque, Mondó, Ngongue, Puita, Ngaietas, Djembés, Reco-Reco, Bate-Bate (bambu), Apitos, Marimbas, Flauta, Sacos Plásticos, Chocalhos, Banheiras, Dum-dum, Pedrinhas, Garrafa, e outros efeitos sonoros como água, vento da boca, assobios. 

 

PRÉMIOS E HOMENAGENS

Tem no currículo vários prémios e homenagens, com destaque para o 1º lugar no festival provincial para  trabalhadores, em 1984, Luanda, prémio Revelação, agraciado pela UNAC-S.A. em 1996 e Cidade de Luanda agraciado pelo Governo da Província de Luanda, Prémio Identidade em 1998 agraciado pela UNAC-S.A- União Nacional dos Artistas e Compositores – Prémio referente ao melhor grupo, Melhor Ballet Tradicional de Dança Africana na VII Gala da Rádio Clube de Leiria/Portugal, em 1999.

Venceu ainda o 8º Festival Internacional de Dança e Música Folclórica em Roodepoort/África do Sul, (1995) nesta ocasião foi considerado o melhor grupo Africano, Prémio de melhor grupo de dança tradicional angolana, agraciada na gala do 2º aniversário da Revista Tropical, Prémio Prestigio agraciado em Lisboa Abril/08, Embaixador do COCAN 2010 , Troféu Carreira Moda Luanda 2010, Prémio Nacional de Cultura e Artes na disciplina de Dança 2011,autorgado pelo Governo Angolano. 

O grupo foi homenageado pelos Embaixadores Africanos por ocasião da gala em alusão 25 Maio 2011-Dia de África realizada em Abu Dhabi-UAE, Diploma de Mérito agraciado pela Comissão Administrativa de Luanda, 2014 por ocasião do 438º Aniversário da cidade. 

Hoje o Kilandukilu está dividido em 3 num só, funcionando uma parte em Luanda, um núcleo no Uíge, denominado Nkembo Kilandukilu, e uma parte em Portugal. 

Mais recentemente foi convidado e já esta a desenvolver um projecto no Recife-Brasil em parceria com uma organização não governamental denominada pés no chão cuja essência é de retirar crianças da rua e inseri-los em projectos sócio-culturais.

 

ALGUMAS OBRAS 

N´golo (Força)

Dança Cazukuta/Xinguilamento

Yma Yeto (Nossas Coisas)

Tchianda

Dança do Galo

Ohamba (Rei).

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