SOCIEDADE

 
1 de fevereiro 2017 - às 18:46

GOVERNO APROVA PROGRAMA PROJOVEM: LINHA DE CRÉDITO ANIMA JOVENS EMPRESÁRIOS

Em meio a crise económica o anúncio de que o Governo vai apoiar os jovens empresários com uma linha de crédito animou os empreendedores nacionais. Os possíveis beneficiários mostram-se satisfeitos mas realçam que é necessário que as taxas de juros sejam bonificadas e que a selecção dos projectos tenha em conta as propostas mais viáveis


 

O Governo angolano aprovou, recentemente, uma linha de crédito no valor de quatro biliões de Kwanzas destinada a financiar projectos para jovens empreendedores. Cada projecto poderá beneficiar de um valor equivalente a 200.000 dólares.

O facto foi revelado pelo ministro da Juventude e Desportos, Albino da Conceição à margem da 1ª reunião ordinária conjunta das Comissões Económica e para a Economia Real do Conselho de Ministros, orientada pelo Chefe de Estado Angolano, José Eduardo dos Santos. O encontro discutiu e aprovou o Projecto de Decreto Presidencial do Regulamento da Linha de Crédito de Apoio ao Empreendedor Jovem (PROJOVEM), que será assegurado pelo Banco de Desenvolvimento Angola (BDA).

Com o programa, o Governo angolano pretende dar resposta a solicitações feitas durante o Fórum Nacional de Auscultação dos Jovens, realizado em 2013, no quadro do Plano Nacional de Desenvolvimento, frisou na ocasião Albino da Conceição. O Ministro acrescentou que a linha de crédito vai enquadrar actividades no quadro da hotelaria e turismo, comércio, prestação de serviços, indústria, agricultura, pecuária e pescas, tecnologias de informação, comunicações e empreendedorismo cultural.

Esta notícia chega como uma “lufada de ar fresco” para os jovens empresários nacionais, numa altura em que o país enfrenta uma crise económica resultante da baixa do preço do petróleo, a maior fonte de receitas do Orçamento Geral do Estado (OGE). Os bancos nacionais e o INAPEN recebem diariamente empreendedores em busca de informação sobre a linha de crédito.

O jovem Hélder Neto, empresário do ramo da Hotelaria, é um dos que já está a recolher informação para preparar-se para submeter a sua proposta. Para ele, o “PROJOVEM” é uma mais-valia para os empreendedores nacionais que têm enfrentado grandes dificuldades no actual contexto da economia nacional. Apesar do contentamento, o nosso entrevistado fez questão de realçar que é bom que o Governo pense não só em dar créditos mas também na taxa de juros que ainda é muito alta. “É preciso reavaliar a taxa para que o apoio tenha o impacto desejado nas empresas”, acrescentou.

Quanto aos critérios estabelecidos, nomeadamente ser uma empresa nacional, com impostos pagos e viável, Hélder Neto é de opinião que são aceitáveis. 

Quem também se mostrou satisfeito com a linha de crédito lançada pelo Governo é Wadson Gonçalves, proprietário de uma empresa de prestação de serviços de manutenção de viaturas que conquista cada vez mais clientes. Ele revelou-nos, com orgulho, que nesta altura recebe mensalmente 150 carros para além de vender peças de automóveis. 

“O crédito é importante porque para nós, os pequenos empresários, dá para ampliar os projectos. Com 200.000 dólares em três anos posso triplicar este valor e dar outro rumo a minha empresa”, referiu Wadson Gonçalves.

Para além da satisfação, muitos jovens mostram-se preocupados com a transparência do processo. “Já tivemos muitas linhas de crédito antes e os critérios de atribuição não foram claros, espero que desta vez seja tudo mais claro, que apoiem aqueles que realmente tenham capacidade e projectos com pernas para andar”, fez questão de realçar Angélica Dulo, dona de um restaurante.

 

“Cedência do crédito” - Para entendermos melhor o impacto desta medida, ouvimos o economista Josué Chilundulo. Referiu que “ignorando os aspectos subjectivos em torno de uma decisão como essa”, a disponibilidade de uma linha de financiamento para iniciativas de jovens empreendedores é positiva, justo porque eles representam, segundo o censo 2014, a maior força económica activa desse País e, por isso, financiar as suas iniciativas representa, acima de tudo um pequeno passo para o relançamento da economia angolana.

Na mesma senda, o economista alerta que numa altura em que, fruto do elevado nível de incertezas  devido a situação económica que vivemos, os bancos têm dificuldades em financiar a economia, a garantia pública do financiamento do micro e pequeno negócio pode significar o alargamento do fomento de uma cadeia produtiva necessária para o preenchimento de uma série de oportunidades de negócio que o nosso mercado tem, com efeito sobre uma maior disponibilidade de empregos e variedade de bens e serviço. 

Quanto ao valor máximo que poderá ser disponibilizado para cada projecto, o nosso interlocutor defende que será suficiente em função da tipologia, localização e, acima de tudo, do custo de oportunidade da iniciativa.

“Para Jovens que já têm estruturas empresariais, ainda que precárias, o alargamento do seu investimento em até USD 200 mil, poderá ser positivo, sem perder de vista de que, mais do que o limite do valor a financiar, as empresas terão de avaliar muitíssimo bem as suas estruturas de negócios antes de recorrem ao financiamento”, acrescentou Josué Chilundulo.

Já foram lançadas anteriormente linhas de apoio a empresários que não tiveram sucesso, o que deve ser feito diferente desta vez para que a medida tenha impacto real nas empresas? “Os erros do passado fazem parte de um conjunto de atitudes que submeteram o País onde está hoje. Os rótulos, as subjectividades dos processos e a carga excessiva de clientelismo, fazem parte de um pacote que justifica o nível elevado do crédito malparado hoje e, por isso, são males a eliminar”, respondeu o economista. 

“Nosso apelo é que, mais do que a função política do processo, que se observe um rigor na cedência do crédito, com menos burocracia, maior rapidez nas decisões, mais objectividade e assertividade. Só assim os efeitos multiplicadores que se esperam serão alcançados”, alertou o economista Josué Chilundulo.

Josué Chilundulo faz questão de lembrar que os jovens precisam entender que, mais do que uma oportunidade de negócio, estarão diante de uma oportunidade de afirmação, de realização e comprometimento. A responsabilidade da devolução também vai significar o ilibar de responsabilidades futuras.

“O credito é uma dívida e como tal, implica o respeito de compromisso com o futuro. O não pagamento da mesma, mais do que corromper o processo para novas cedências, redunda em juros de mora e suas respectivas taxas e correcções e a possibilidade de uma ficha suja. Por isso todo o cuidado é pouco”, alertou.  

 

CONFERÊNCIA SOBRE CIDADANIA: JOVENS EXIGEM MAIS ESPAÇO DE PARTICIPAÇÃO 

Aconteceu na última semana de Janeiro, em Luanda, a Conferência sobre “Cidadania e Participação, as Eleições em Questão”, que teve lugar no quintal da União dos Escritores Angolanos por indisponibilidade da sala principal 

Falaram para os presentes Mbanza Hamza, Sizaltina Cutaia, Cecília Quitombe e Walter Ferreira que apresentaram os seus pontos de vista sobre o tema em meio a aplausos dos presentes. Mbanza Hamza, que esteve preso no âmbito do conhecido “processo 15+2”, fez uma das apresentações mais aguardadas, que se centrou na ideia de que a juventude precisa “forçar” a sua participação. 

Falando para os presentes, na conferência organizada pela Plataforma Juvenil pela Cidadania, Mbanza Hamza focou que para a participação existem barreiras criadas propositadamente e que é preciso entender e descortinar o que acontece para que os jovens possam participar na vida do país. 

Já Walter Ferreira, que também fez uma intervenção para os presentes, realçou que os processos eleitorais em Angola (2008 e 2012) resultaram muito pouco em termos de benefícios porque "o nosso contrato social não está a ser respeitado". “As autoridades do poder instituído entendem que só podemos participar se estivermos integrados nelas, nesses momentos eleitorais temos que evoluir para outro tipo de cidadania, temos que fiscalizar a nossa democracia”, frisou. Ele lembrou que muitos dos jovens convivem com a pobreza. “A pobreza também fala, as vezes entra na nossa casa quando a energia vai, quando não temos água, muitos de nós não temos ideias de a quem devemos responsabilizar e exigir que a situação nas comunidades seja melhorada”, acrescentou Walter Ferreira.

“Os jovens querem cidadania, querem participar”, clarificou o orador tendo acrescentado que tal só vai acontecer se a consciência dos intervenientes salvaguardar os interesses mais nobres da democracia.

Outra das apresentações aguardadas com expectativa foi a da activista cívica Sizaltina Cutaia. Para ela, que se assume como uma defensora acérrima da cidadania, os jovens devem participar nos processos políticos não apenas nos períodos eleitorais e que o exercício de cidadania não se esgota com o voto. É necessário que os jovens participem de forma mais sistemática, mais constante, nos processos de elaboração das políticas públicas, na discussão dos problemas da cidade" - disse.

Sizaltina Cuitaia realçou que é impossível pensar em desenvolvimento sustentável se a franja da sociedade, que é a maioria e a força produtiva do país, não participar. Ela acredita que a realização de conferências e a intervenção pública poderão produzir mudanças no país. 

“A forma como se construiu a estrutura política em Angola divide muito os jovens, é preciso acabar com isso, é preciso que os jovens conversem independentemente da ideologia na qual acreditam”, acrescentou a oradora.   

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