ÁFRICA

 
2 de outubro 2016 - às 05:50

GABÃO: ESTRATÉGIAS POLÍTICAS INCORRECTAS

A violência instalada depois das eleições no Gabão sugere resultar de discursos públicos hostis e de estratégias políticas mal pensadas por parte dos líderes do regime e da oposição. A tese da nacionalidade semeou o descrédito da oposição conduzida por Jean Ping (48,23%), enquanto prisões e perseguições aos adversários diminuíram a confiança dos eleitores na liderança de Ali Bongo (49,80%) 

 

Calúnia e violência - Declarado eleito por mais sete anos de mandato, o próprio Ali Bongo reconheceu ter havido uma campanha eleitoral manchada pela violência e calúnias. Embora atribua tais factos ao adversário, Jean Ping, as afirmações do reeleito deixam clara a origem da crise. 

Já em Agosto, Ali Bongo, em plena campanha eleitoral, exprimiu publicamente a preocupação pelo teor violento da actuação dos protagonistas da política interna. 

Mas, por curioso que pareça, o regime de Ali Bongo havia ordenado, desde 9 de Julho, uma vaga de prisões de dezenas de opositores e de sindicalistas. 

O quotidiano L´Union, impresso em Libreville, criticou o recurso à repressão policial ordenada pelo Ministério do Interior contra as grandes manifestações pacíficas da oposição.  

Gabon Eco, outro jornal, insurgiu-se fazendo alusão ao uso da força para calar uma manifestação “autorizada”, vindo o próprio ministro do Interior, Pacôme Moubelet Boubeya, a afirmar não a ter autorizado. “Nada justifica a resposta brutal da polícia”, lança Gabon Eco. 

Os actos de violência havidos na sequência da intervenção das forças de ordem pública mandatadas pelo regime de Ali Bongo chegaram ao ponto de suscitar reações em França, antiga potência colonizadora.

Uma organização da sociedade civil francesa, a Survie (“Sobrevivência”), chegou mesmo a sugerir a suspensão imediata da cooperação militar francesa, no dizer do seu porta-voz Yanis Thomas. A ONG responsabilizou o poder instalado em Libreville pelo clima de violência, apontando a repressão aos opositores.

Para a Survie, a cessação do apoio militar francês ao Gabão evitaria que cooperantes militares e da polícia (franceses) tivessem implicação no que considerou “golpe de força eleitoral” de Ali Bongo. Justificou a sugestão pelo facto de existir uma assessoria da polícia francesa junto do comando da polícia gabonesa, o que, a manter-se, caucionaria a violência. A organização deplorou também a falta de liberdade de acção dos opositores no período dedicado à campanha eleitoral. 

Estratégia incorrecta da oposição  - A popularidade de Ali Bongo baixou nos últimos anos, segundo a publicação “online” Ledjely.com. A mesma indica que desde 2009 o regime de Ali Bongo se mostrou turbulento por não encontrar soluções para as consequências sociais da queda do preço do petróleo, produto que financiava a economia. Adoptou, então, medidas impopulares contra liberdades individuais e direitos humanos.

A oposição, por sua vez, elaborou estratégias incorrectas para a campanha eleitoral. Em vez de explorar as fraquezas visíveis do regime, centrou em demasia na tese da nacionalidade duvidosa de Ali Bongo. 

Como se sabe, a oposição advogou que Ali Bongo terá sido filho adoptivo do defunto Omar Bongo aquando da guerra do Biafra, em finais dos anos 1960. 

Os adversários de Ali Bongo pretendiam, assim, afastá-lo da corrida eleitoral, já que a constituição veda o acesso de candidatos não gaboneses à presidência. 

A questão da nacionalidade não era merecedora de tanta paixão e de investimento dos opositores quando sobravam inúmeras fraquezas dos anos de governação do presidente cessante e reeleito. Em primeiro lugar, as provas não seriam convincentes para afastar Ali Bongo da corrida por nacionalidade duvidosa. Em segundo lugar, a oposição ridicularizou-se ao elaborar uma tese contra um cidadão que já assumiu a liderança de um país por um mandato de sete anos caucionado por instrumentos legais e pelas instâncias do Estado.  

O jornal Le Pays, editado em Burkina-Faso, aconselhou a oposição gabonesa a ”despertar do sono”, a ver e explorar problemas que afectam a existência das pessoas. Por exemplo, no próprio campo político de Ali Bongo, um deputado de referência denunciou num comício, em Bollossoville, a incapacidade do regime de executar o programa social. O deputado Bertrand Zibi Abéghé aproveitou o mesmo púlpito e o mesmo microfone que Ali Bongo usaria no comício para criticar a degradação da vida das populações e anunciar o abandono do assento no parlamento.

Segundo ainda o jornal Le Pays, em vez da “aventura” em que se meteu, a oposição teria ganho bastante se tivesse procurado um debate sobre as reformas “mais progressistas” do sistema eleitoral susceptíveis de afastar Ali Bongo da corrida. Uma discussão direccionada para a instituição de eleições presidenciais a duas voltas beneficiaria mais os opositores por aumentar a possibilidade de “barrar o caminho a Ali Bongo”, sugere o articulista do Le Pays.   

Para o periódico gabonês La Nation, a oposição nutriu-se de egoísmo exagerado pelo facto de ter decidido bastante tarde unir-se em torno de um candidato único (Jean Ping). Tal facto “abriu as portas para Ali Bongo”, comenta.

O investigador gabonês, Falvien Enongoué (Universidade Omar-Bongo), vê na situação política actual a consequência da falta de uma nova liderança no país. “Nossa sociedade não está a gerar novas figuras”, sustenta em entrevista publicada pela rádio RFI. 

Note-se que o próprio chefe de fila da oposição, Jean Ping, emergiu das entranhas do Partido Democrático Gabonês (PDG), ex-partido único do falecido Omar-Bongo.

Na introdução à entrevista a uma entidade gabonesa, a RFI adverte que os heróis serão aqueles que souberem aceitar os resultados das eleições, num continente onde todos se querem manter no poder.

Ali Bongo de novo - A evolução da situação não parece encaminhar o país para uma solução contrária à recondução de Ali Bongo.

A revisão dos resultados das urnas reclamada pela oposição, visão partilhada pela França, antiga potência colonizadora, poderá, a acontecer, desembocar a favor do presidente cessante.

Os defensores do regime de Ali Bongo afirmam que os “processos verbais” foram publicados na mesma noite do anúncio dos resultados do pleito. Além disso, foram exibidos os resultados em cada gabinete de voto, na presença dos delegados dos partidos. Um exemplar do “processo verbal” terá sido entregue a cada delegado dos partidos. Acrescentam ainda que os resultados finais terão sido remetidos também a cada gabinete de voto, o que pressupõe terem sido respeitadas cláusulas da lei eleitoral. 

Tais pronunciamentos tendem a destruir os argumentos sobre irregularidades que a oposição pretende ver esclarecidas. 

A ser declarado definitivamente reeleito, Ali Bongo vai juntar-se à lista de filhos herdeiros do trono em África, como é o caso de Joseph Kabila (RDCongo). 

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