REPORTAGEM

 
1 de dezembro 2016 - às 19:20

FIM DE TEMPESTADE SEM BONANÇA DRAMA SOCIAL OFUSCA SONHO METROPOLITANO

 O roncar de máquinas que preparam a terra para iniciativas de "outro mundo" parece incomodar as mais de duas mil pessoas que sofrem na área dos Cabrais, província de Benguela. 

Fala-se do luxo de um Mónaco (França), uma linda cidade construída sobre relevos, enquanto milhares de compatriotas pernoitam em tendas rasgadas, sem condições de sobrevivência. 

Com a ajuda de activistas, a revista Figuras & Negócios faz o retrato do contraste, sem nunca perder de vista vantagens para o relançamento da economia da província de Benguela    

 

Falar do ordenamento Biópio/Culango, adstrito ao município da Catumbela, é falar de um ponto estratégico para uma região metropolitana na província de Benguela, com abertura para a actividade económica, mas também de um drama para trezentas e setenta famílias sem condições sociais básicas. 

O mesmo é dizer que os apelos para o investimento privado na circunscrição, já com seiscentos lotes de terrenos para indústrias, têm a companhia do grito de socorro de centenas de cidadãos instalados em tendas, sem água, luz, saneamento, transporte e outros serviços. 

Falamos das vítimas das enxurradas de Março de 2015, transferidas para a zona dos Cabrais, outrora uma enorme fazenda agrícola, que deverá, como se anuncia, estar ligada à comuna do Dombe Grande, município da Baía Farta, por intermédio de uma auto-estrada. 

A obra, qualquer coisa como 115 quilómetros, atravessando as cidades do Lobito e Benguela, está a ser projectada debaixo da crítica de segmentos da sociedade que não se conformam com a situação vigente. 

O activista José Patrocínio, coordenador da OMUNGA, organização com estatuto de observador africanos dos direitos dos povos, saiu do local agastado com o modo de vida das famílias. 

Na hora do retrato, feito em companhia de representantes da Administração Municipal da Catumbela começou por lembrar que as tendas as mesmas de há quase dois anos, estão deterioradas (rotas), revelando-se frágeis para o novo período de chuvas. 

Patrocínio, um conhecido agrónomo ao serviço de causas sociais, teme que as pessoas sejam forçadas a enfrentar o frio, o sol, a chuva e outras intempéries. 

O activista acrescenta que a urbanização Biópio/Culango, a mais de vinte quilómetros das cidades da Catumbela e do Lobito, de onde são oriundas as famílias, não dispõe de água, electricidade, saneamento básico, transporte e mercado. Pior do que isto, conforme sustenta, é que as autoridades não prestam informações, mormente em relação à construção das casas, instaladas que estão as bases (alicerces). 

A resposta, certamente longe das cogitações de quem não vê chegar a hora da bonança aponta para uma gritante falta de recursos financeiros. 

O governador de Benguela, Isaac dos Anjos, que não se cansa de apresentar a essência do sonho metropolitano, utilizou os microfones da R.N.A para pedir a empresários apoios para a compra de 400 mil blocos! "Cada bloco pode custar entre 85 a 90 Kwanzas. Por favor sociedade civil e senhores empresários, preciso de blocos para acabar o trabalho na urbanização’’, apela. 

Trata-se de uma quantidade avaliada em 36 milhões de Kwanzas, cerca de 250 mil dólares norte-americanos. 

 

Habitação condigna é mais do que alicerce - Num momento marcado por forte agitação, própria de uma tragédia que provocou quase cem mortos, as autoridades optaram por instalar as famílias sinistradas na zona do Camuringue, Lobito, de onde saíram, quase seis meses depois, para a área definitiva. 

Ainda antes da transição, já os cidadãos alertavam que não tinham capacidade para construir a casa própria, mesmo, como veio a acontecer, com os alicerces oferecidos. 

Em resposta aos clamores de cidadãos que viram a chuva arrastar tudo o que possuíam, o Governo explicava que não faria mais do que as bases. Assim foi que construiu os trezentos e setenta alicerces, sendo trezentos para os sinistrados e setenta para uma pequena comunidade que vive nos Cabrais há vários anos. 

Cada alicerce custou um milhão de Kwanzas, equivalente a USD dez mil à data dos factos. 

O activista Martinho Lofa, coordenador da A.J.S, Associação Juvenil para a Solidariedade, lamenta o sofrimento da população da urbanização dos Cabrais e afirma que o Governo tem o dever de colocar mãos à obra. ‘’Estou admirado com o quadro social vigente’’, reforça, para mais adiante assinalar que era suposto haver uma rubrica orçamental para situações catastróficas. 

 

A ambição de Isaac vista ao pormenor - O Governo de Benguela tenciona criar, à boleia das valências das quatro cidades do litoral, uma região metropolitana com áreas agrícolas de grande intensidade, um diversificado parque industrial, turismo, pescas e produção de sal. 

Isaac dos Anjos já aqui o dissemos, acredita que a Refinaria possa funcionar como uma ‘’grande bandeira para o desenvolvimento’’, já que tem reservada uma zona envolvente na urbanização dos Cabrais, pela qual passará uma conduta de água e uma subestação para a electricidade. ‘’Esta zona envolvente não deverá ser ocupada de forma anárquica, à semelhança do que se verifica na área da Refinaria de Luanda’’, adverte. 

Ciente das responsabilidades do Estado no processo de infra-estruturação, o governante refere que o investidor não deve ter condicionada a sua actividade por falta de espaços, de energia, água e comunicações. 

Esta passagem serviu de mote para o anúncio de um ordenamento capaz de albergar quatro mil e quinhentos habitantes ao lado de mil e trezentas empresas e zonas especiais para unidades industriais.  

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