MUNDO

 
26 de dezembro 2016 - às 07:56

EUROPA VIVE MOMENTO DE INCERTEZAS

A Europa está um continente de incertezas ou talvez à deriva. As dúvidas são muitas, os remédios vários, muita gente a falar e alguns dirigentes que aparentam não estar a perceber o filme

 

populismo vitorioso no referendo, no Reino Unido, acerca da saída do país da União Europeia não é caso único no «velho continente» onde se sente também efeito da vitória de Donald Trump nas presidenciais dos Estados Unidos da América.

A extrema-direita está a cavalgar, apesar de falhar a vitória na Áustria e de a Frente Nacional francesa não surgir, nas sondagens, como força dominante.

Em França, uma sondagem, de início de Dezembro, deu o conservador François Fillon como vitorioso nas eleições presidenciais, com 65% das intenções de voto, contra a líder da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen. Porém, até que ponto se pode festejar esta vitória?

Em 1988, nas eleições locais, a FN obteve 5% dos votos. Nas europeias de 1989 conseguiu 11,7%. Nas presidenciais de 1995, Jean-Marie Le Pen, pai da actual líder, registou 15%. A sondagem de Dezembro aponta 35% para Marine Le Pen.

Mais sintomático do erro de compreensão, de análise ou de farsa, foram as declarações, por toda União Europeia, de regozijo em relação às presidenciais na Áustria, de 4 de Dezembro. «A Europa respirou de alívio», foi uma expressão que correu o continente.

O presidente do Parlamento Europeu considerou a vitória de Alexander van der Bellen, ecologista liberal, como uma «pesada derrota do nacionalismo e populismo antieuropeu». Mas foi isso que aconteceu? Norbert Hofer, do Partido da Liberdade da Áustria (FPO) e assumido simpatizante nazi, obteve 46,4% dos votos.

O presidente de França, François Hollande, considera que «o povo austríaco estendeu a mão à Europa e a uma política de abertura». O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, afirma que, para os tempos difíceis e de desafios, «o contributo construtivo da Áustria vai ser fundamental».

A chanceler alemã vai recandidatar-se nas próximas eleições legislativas. Com a pressão de novos refugiados, nomeadamente islâmicos, Angela Merkel prometeu banir o uso do véu islâmico. Mantém o enfoque na necessidade de disciplina orçamental.

Também na Alemanha regista-se pressão dos partidos da extrema-direita. A 4 de Setembro, o Alternativa para a Alemanha (AFD) foi a segunda força mais votada, depois dos social-democratas (SPD) nas eleições no Meclemburgo-Pomerânia Ocidental.

Embora parta como favorita ao sufrágio de Setembro de 2017, Angela Merkel vai ser testada nas regionais de 26 de Março no Sarre, 7 de Maio no Schleswig-Holstein e de 14 de Maio na Renânia do Norte-Vestefália – este último é o mais populoso da federação.

O primeiro-ministro francês apresentou a sua demissão, uma vez que vai concorrer a Presidente da República. O socialista Manuel Valls deixa o cargo e irá enfrentar, em Janeiro, as primárias do partido. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, assume a chefia do Governo. As presidenciais estão marcadas para Abril, com segunda volta em Maio.

Paolo Gentiloni é o novo primeiro-ministro de Itália, após a demissão de Matteo Renzi (Partido Democrático – centro-esquerda). A mudança acontece após a derrota, em referendo, da alteração constitucional, defendida pelo governante. Até agora ministro dos Negócios Estrangeiros, o novo chefe de Governo promete continuar a política que tem vindo a ser seguida.

A 4 de Dezembro, os italianos foram chamados a pronunciarem-se acerca da disposição para superar o bicameralismo, a redução do número de parlamentares, supressão de custos de funcionamento, entre outras propostas. Na votação, 59,9% votou contra a vontade de Matteo Renzi.

A opção do Reino Unido sair da UE tem alimentado o ânimo dos que defendem a saída dos seus países ou fim do projecto europeu. 

Recep Erdogan, presidente da Turquia, sente-se capaz de provocar os dirigentes do bloco europeu. Recorde-se que, há décadas, o país pretende entrar na UE. Recentemente, na crise dos refugiados, recebeu pagamentos para lidar com as multidões que tencionam chegar ao sonho europeu.

Embora venha a ameaçar com o fim da cooperação, caso não haja avanço nas negociações – cujas premissas de defesa dos Direitos Humanos, dos europeus, não têm tido acolhimento – Erdogan lançou uma ameaça.

Aproveitando a onda do Brexit e a fraqueza do bloco, Erdogan, numa viagem ao Paquistão e ao Usbequistão, declarou que a União Europeia não é a única saída para o seu país. «Pergunto-me por que a Turquia não se junta à Organização para a Cooperação de Xangai – criada em 2001 e da qual fazem parte o Cazaquistão, China, Quirguízia, Rússia e Usbequistão.

Embora fazendo negócios pouco divulgados como a construção de dois gasodutos evitando a Ucrânia, a União Europeia e a Rússia têm mostrado sinais de tensão. Aumenta a presença militar norte-americana e o maior país do mundo instala mísseis no enclave de Kaliningrado – metade da antiga Prússia Oriental, dividida com a Polónia, após o final da Segunda Guerra Mundial.

Vitória de Theresa May - No contexto puramente político, a primeira-ministra britânica conseguiu que o seu calendário fosse aprovado pelo Parlamento. A estratégia de Theresa May obteve 461 votos favoráveis, contra 89, na votação de 7 de Dezembro.

Assim, o Reino Unido pode accionar o artigo 50, do Tratado de Lisboa, até 31 de Março de 2017. As negociações não serão simples, pois os países não querem ser prejudicados. 

Alemanha e França têm liderado o bloco e negam-se a permitir o acesso ao mercado europeu sem a aceitação referente à circulação de pessoas. Note-se que este ponto foi determinante na vitória do Brexit.

O arrastar das negociações não beneficia ninguém e em Março de 2019 realizam-se eleições para o Parlamento Europeu. A indefinição criará um imbróglio sui generis: um país que quer abandonar o bloco ir votar para uma instituição que faz parte do conjunto donde deseja sair; ou não votar apesar de ainda fazer parte.

O francês Michel Barnier, que se ocupa da pasta do Brexit, do lado do bloco, estabelece em Outubro de 2018, o limite para um acordo de solução. O estabelecido no Tratado de Lisboa é de dois anos para negociações. Tal como outros dirigentes antes dele, afirmou que as discussões não serão ditadas pela vontade do Reino Unido. «Cabe aos britânicos dizerem que tipo de relações querem e aos 27 definirem as suas futuras relações com o Reino Unido».

Este antigo comissário do executivo de Durão Barroso visitou a maioria das capitais do bloco, périplo que terminará em Janeiro, e garante existir unanimidade dos países quanto ao plano para o divórcio.

O presidente do Eurogrupo considera que o Reino Unido vai perder com a saída do Mercado Único e que essa informação deve ser dada aos britânicos. Porém, Jeroen Dijsselbloem admite a hipótese de se conseguirem alguns acordos.

David Davis, o ministro britânico para o Brexit, admite a possibilidade do seu país para à UE para ter acesso ao Mercado Único.

Internamente, Theresa May não tem tudo garantido, com a pressão da Escócia e da Irlanda do Norte, territórios onde a votação foi favorável à manutenção do país na UE. Os escoceses constituem a maior ameaça, uma vez que o referendo acerca da permanência no Reino Unido voltou ao discurso político.

Corrida contra Londres - O Banco de Inglaterra considera que os riscos da estabilidade financeira e económica são elevados. No relatório de estabilidade financeira, divulgado a 30 de Novembro, a instituição salienta como ameaça um processo de Brexit «desordeiro». A maior preocupação é o abandono, da City, de empresas.

Os activos na praça financeira britânica têm vindo a ser cobiçados por outros mercados. Frankfurt, à cabeça, e Paris, logo a seguir, apresentam-se como os principais beneficiários da crise criada com o Brexit, referendada a 23 de Junho. Mas Milão e Madrid se têm vindo a interessar pelo património bolsita britânico.

Espanha anunciou que está a estudar uma redução do imposto sobre o rendimento, para os não residentes, de modo a captar os banqueiros da City. Com eles virão os bancos e outras instituições financeiras.

Antes, França tinha avançado com medidas idênticas. Respondendo a esse apelo, o HSBC admitiu transferir 20% dos seus trabalhadores.

Após os testes de stress da banca britânica, o governador do Banco de Inglaterra adiantou que as instituições mostraram uma resistência relativamente boa, apesar da turbulência, nomeadamente do Brexit. Apenas o Royal Bank of Scotland chumbou.

Mark Carney considera que as maiores ameaças, para o sector financeiro, vêm da China, derivado a fuga de capitais, e dos EUA, com subida das taxas de juro. Apesar da instabilidade na União Europeia é parte da complicação.

BCE revê programa - O Banco Central Europeu vai reformular o programa de compra de activos, informou a instituição. O anúncio levou à subida das taxas de juro dos vários países. O presidente do BCE, Mario Draghi, revelou que o plano vai estender-se até Dezembro do próximo ano.

A partir de Abril, as compras mensais passarão de 80.000 milhões de euros para 60.000 milhões. Contudo, se não houver uma resposta positiva da economia, o BCE irá rever o plano.

A instituição prevê agora, para este ano, um crescimento da economia de 1,7%. Para 2018 e 2019 a estimativa é de 1,6%, mantendo-se a expectativa. A inflação será de 0,2% em 2016, de 1,3% em 2017, de 1,5% em 2018 e de 1,7% em 2019. Ou seja, abaixo da meta dos 2%. 

 

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