CULTURA

 
2 de outubro 2016 - às 05:17

ESTILISTA LISETE POTE: "NECESSITAMOS DE CURSOS LIGADO AO MUNDO DA MODA"

 A estilista angolana Lisete Pote apontou, em Luanda, a necessidade da abertura de cursos de criação de moda no país, como forma de potenciar os agentes do sector de conhecimentos teóricos e práticos que os habilita a melhor executarem as suas obras.

Em exclusivo à Revista Figuras&Negócios (F&N), Lisete Pote adianta ser imperioso que se olha, com a máxima urgência, na vertente formação, para que os criadores angolanos possam estar dotados de conhecimentos e técnicas que garantam a produção de obras com a qualidade desejada e que concorram para a entrada dos estilistas angolanos no mercado internacional

 

F&N - Já apresentou as suas colecções em vários países. Sente-se uma criadora realizada?

Lisete Pote (LP) - Não, pois a minha carreira sempre foi por metas, a primeira foi conquistar a minha província (Luanda), depois o meu país e neste momento a conquistar o nosso continente...tenho estado a fazer desfiles internacionais, mas através de uma organização africana proveniente da Nigéria e sediada em Paris (França).

O primeiro desfile foi na Nigéria, depois Paris, onde foi suspenso devido aos actos terroristas, mas este ano está previsto ir a Berlim (Alemanha), Paris e Etiópia.

F&N- Quando e porquê  mergulhou no mundo da moda?

LP - Entrei para este mundo por intuição da minha mana mais nova, a Paula Pote. Desde pequena que fazia roupa, para mim e amigas, e ela achou que me estava a perder...(risos). Mas a minha entrada no mundo da moda começa em 1998 quando convidada para vestir as concorrentes do Miss Namibe, "aventura" que infelizmente, não correu bem porque como só tinha levado tecidos e desenhos, a organização ficou com medo que eu não estivesse à altura e preferiram ir comprar à Namíbia. Apesar disto não foi tão mau assim, porque estava lá o Kaiaia Júnior que na altura preparava a ida para Portugal fazer o desfile na Expo 98. Ele convidou-me e apesar de ir sem muita convicção, isto é, insegura, o desfile correu bem e foi um sucesso, a partir daí, como já sabia coser, resolvi fazer o curso de desenho de moda, que enriqueceu mais os meus conhecimentos e foi muito bom para o desenvolvimento da minha carreira.

F&N- De onde surge a inspiração para as suas peças? O que é que distingue a sua assinatura da dos outros estilistas?

LP: Tenho uma linha e um estilo próprio, isso é o que define cada estilista; cada um tem seu estilo. A minha inspiração tem muito a ver com mulheres e flores, principalmente rosas olho para uma mulher e normalmente idealizo uma roupa para ela, ou pego no tecido e imagino o modelo que irá ficar bem no vestido ou às vezes pego no pano e coloco-o directamente no corpo da pessoa e monto assim o vestido... o resto é o público que diz e nos julga.

F&N- Trabalha exclusivamente com o público feminino ou também projecta colecções para homem? Qual é o seu público-alvo?

LP: Faço normalmente colecções para senhoras, mas também tenho feito coisas para homens, principalmente camisas africanas para fim-de-semana, mas dentro em breve irei ter uma colecção para homens... O meu alvo é vender mais, evoluir cada vez mais. Mas o que crio é normalmente para mulheres jovens, o que não significa que não tenha uma peça ou outra mais formal.

F&N- Quais são as características das suas colecções? 

LP: As minhas criações são vestidos de festa, onde tento dar sempre um toque apimentado às criações, as vezes um pouco arrojados, mas que têm tudo a ver com a beleza da mulher, junto sempre Ocidente/África e direcciono para mulheres mais ousadas.

 F&N- Tem algum artista a trabalhar consigo para fazer o portefólio dos seus vestidos?

LP: Não, nunca o fiz, normalmente uso as manequins que trabalham comigo para fazer as fotos.

F&N- Os dois maiores eventos da moda nacional neste momento são o Moda Luanda e o Angola Fashion Week. Como vê a evolução dessas plataformas? 

LP: Neste momento nada tenho a dizer sobre os eventos, pois há quatro anos que não entro. Normalmente aceito dois desfiles por ano, faço simplesmente uma colecção anual e como vou sempre para fora fica difícil entrar, até porque as datas normalmente coincidem... o ano passado em Agosto, eu estava no Quénia e era em direção a Paris, mas chegada a Lisboa, Paris deu o Boom!

F&N- Pensando nestas iniciativas que estão a ser dados, quais deveriam ser as prioridades na moda angolana? 

LP: Formação! Há muita gente que, por falta de conhecimento comete muitos erros no mundo da moda e não aceita que está errada, o que muitas vezes faz com que se desacredite na moda angolana, lógico que não me refiro a todos. Mas se um dia abrissem uma escola de formação superior a nível de moda, acredito que tudo mudaria radicalmente, a todos os níveis.

F&N- O que se produz no país, em termos de moda, tem a qualidade necessária e desejada para competir no mercado internacional?

 LP: Não, até porque ainda não temos capacidade para vestir todos os angolanos. Teríamos de trabalhar muito e abrir muitas fabricas, mas fabricas onde se empregasse desenhadores de moda, tivesse controlo de qualidade, porque o que peca aqui são os acabamentos. Muita gente tem ideias lindas mas poucos têm peças com qualidade, mas isto só vê e percebe quem realmente sabe do assunto e o que é uma peça de vestuário bem acabada, o que muitas das vezes aparece no mercado, peças bem acabadas, embora o material não seja de qualidade, mas compram mais pelo aspecto que ela tem, por isso a importância  do acabamento das peças de vestuário.

 F&N- Até que ponto a falta de uma escola de formação tem prejudicado o vosso trabalho?

LP: Por exemplo, um fotógrafo, em vez de se preocupar em fotografar bem os vestidos com os seus pormenores, fica mais preocupado com a manequim do que propriamente com o trabalho do estilista. Não há rigor nas colecções, pois lá fora fazem inspecção às colecções, aquí não, tudo passa no barulho, etc...tudo isso forma um conjunto de coisas que prejudica um criador. Falo em formação de jornalismo de moda, fotografia de moda, coreógrafo, aulas de preparação para as manequins,...

F&N- Para se entrar no mundo da moda é assim tão necessário uma formação nesta vertente ou é dispensável, bastando, para tal, ser-se autodidacta?

LP: É necessário, porque moda e criação têm muito que se lhe diga, tanto que há diferenças nos nossos novos criadores com formação que apresentam colecções com qualidade e criatividade, com as junções do material coordenado, um conjunto de coisas que fazem uma boa colecção... não basta só saber desenhar, nem só saber confeccionar. 

F&N- Onde sente mais dificuldade para fazer o seu trabalho diariamente?

LP: Sempre e sempre na procura de material. Voltei a ir buscar fora, o que dificulta, por exemplo, fazer uma cópia de um tamanho maior para uma cliente pois trago peças limitadas porque aqui, embora já exista muito tecido de estampa africana, porque na maioria são imitações, corremos o risco, como já aconteceu comigo e algumas colegas, estarmos com as colecções de tecidos iguais.

F&N- Lisete, um dos grandes handicaps dos criadores angolanos está relacionado com a matéria-prima. Em que mercados recorre para ter os seus cestos sempre cheios com material para trabalhar? 

LP: Depende, normalmente quando viajo trago. Por exemplo, o ano passado trouxe do Quénia, tenho umas pessoas que trazem de vários pontos de África e que vêm vender-me.

F&N - Em função das dificuldades ligadas a matéria-prima, o mercado nacional também se recente com à falta de recursos humanos qualificados. Como supera este deficit para levar a cabo o seu trabalho e com a qualidade desejada?

LP: Este é um dos grandes buracos no mundo da moda, existem poucos que realmente sabem as pessoas habituaram-se a fazer a costura africana e é complicado mudar, é um método que não dá para tecidos ocidentais, aí realmente é muito difícil. Precisa-se urgentemente de formação nessa área.

F&N - Compensa o binómio preço/qualidade tendo em conta o que gasta para produzir uma obra?

LP: Para os criadores que fazem peças únicas não. É muito complicado, porque o orçamento é feito antes do corte dos tecidos. Só se corta se a encomenda foi confirmada, pelo menos metade do valor.

F&N- Para além do mundo da moda, quem é e como é a Lisete Pote fora dos holofotes?

LP: Do pouco tempo que me resta dedico-me a casa. Este ano tenho trabalhado como apresentadora. Convivo com amigos, saio fora da cidade para relaxar, ler... uma vida normal.

F&N- Que projectos está a Lisete a desenvolver fora do mundo da moda?

LP: A área da moda não me deixa muito tempo, estive meia parada, mas voltei a carga, pois a profissão assim o exige, tive um bar, mas desisti, porque era muito cansativo, pois nem vida tinha, tenho um projecto com uma amiga, mas ainda é cedo para falar dele. 

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