DESPORTO

 
31 de maio 2016 - às 07:34

ESTE GOLO NÃO VALERIA

O recurso de verificação das jogadas duvidosas com a ajuda de vídeo marca o início do fim de uma tolice: achar que o erro e a desonestidade tornam o futebol mais divertido

 

A Mão de Deus de Maradona – a esquerda, “ la mano de Dios”, tocando a bola a caminho das redes do guarda-rede inglês Peter Shilton, nos quartos de final da Copa do Mundo de 1986 – está prestes a completar trinta anos de celebração da desonestidade, como se ela fosse aceitável. E só ela, e não a genialidade do argentino, é que permitiu a um atleta de 1,66 metro antecipar-se ao adversário de 1,83 metro. Anos depois, em um documentário dirigido por Emir Kusturica, a camisa 10 reconheceu o prazer da histórica contrafação. “Aquele golo foi como roubar a carteira de um inglês”, admitiu. Foi o primeiro da vitória por 2 a 1. O segundo, esse sim feito com os pés de um deus, foi um dos mais espectaculares de todos os tempos, com uma fila inacreditável de dribles – e, uma pena, a enganação é que colou para sempre.

Recentemente deu-se o início do fim dessa era de edulcoração da malandragem. Ao aprovar o uso de imagens de vídeo para auxiliar os árbitros nas decisões mais duvidosas, o International Football Association Board (do qual fazem parte a FIFA e quatro federações britânicas que estão na gênese do desporto) autorizou tirar de cena o que muitos, equivocadamente, consideram divertido e charmoso. Achar que a discussão de bar é o que alimenta o futebol é armadilha que atropela até os mais interessantes profissionais. Diz Casagrande, hoje excelente comentarista, atacante da Seleção Brasileira daquele Copa de 1986 de Maradona: “Posso ser considerado arcaico, mas o jogo tem de ser jogado do jeito que é. Os erros fazem parte do jogo”.

Os erros, insista-se, não deveriam estar na equação, e muito em breve – possivelmente a partir de 2017 – serão definitivamente descartados. Foi criada a figura do “árbitro de vídeo”, um auxiliar que acompanhará a partida dentro de uma cabine isolada, dotada de inúmeras telas com imagens do campo de jogo, e terá comunicação ininterrupta com o juiz que corre no relvado (veja o quadro ao lado). Apoiado num arsenal de recursos de checagem, o juiz, tão xingado, tão vilipendiado, o eterno filho da mãe, verá aquilo que os comentaristas de televisão vêem e que lhes permite ser tão categóricos, mesmo em lances exponencialmente polémicos.

Uma dúvida fundamental, para quem aprendeu a gostar do futebol com todas as suas imperfeições: o jogo mudará? Não. “A impressão é unânime. É melhor parar a partida por alguns momentos para tomar a decisão correcta do que errar”, diz o ex-árbitro baiano da Escola Nacional de Arbitragem de Futebol. “E não serão todos os lances, qualquer faltinha no meio do campo.” Coube a Serapião, há anos lidando com essa questão, a primazia de pôr a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na primeira fila das experiências com o novo mecanismo. Os testes liderados pela CBF podem acontecer já no Campeonato Brasileiro deste ano. E então xingar a mãe do juiz será coisa do passado. Em modalidades como o tênis, o vôlei, o rúgbi e o futebol americano, ela já é poupada – e as disputas não perderam emoção, ao contrário.

Houve muito falatório quando a FIFA decidiu pôr câmaras na linha de golo. Usadas na Copa do Mundo de 2014, elas agora são unânimes, universalmente aceites. Só não são mais usadas porque custam caro. É um problema real e potencialmente perigoso – há risco, sim, de termos duas castas, no futuro breve. A dos campeonatos ricos, e portanto menos afeitos a apitos equivocados, e a dos campeonatos pobres. Mas esse é enrosco cuja resolução pode ser adiada. O que vale, agora, é o elogio à honestidade, aprovado, quem diria, pela cartolagem. 

 

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