DESPORTO

 
6 de março 2017 - às 12:32

MORTE DE 17 ADEPTOS NO ESTÁDIO 4 DE JANEIRO NO UÍGE ANGOLA CHORA PELA TRAGÉDIA

*Vítima aponta falhas e culpados enquanto o Presidente da República ordena inquérito 

 

A morte de cerca de 17 adeptos e 56 feridos no Estádio 4 de Janeiro, no Uíge, logo na primeira jornada do Girabola Zap de 2017, mexeu dolorosamente o País e suscitou uma enorme onda de consternação de várias personalidades e instituições internacionais, quase com a mesma repercussão sentida em 2006, devido ao ataque e mortes, em Cabinda, realizados pela Flec, contra os integrantes da selecção de futebol do Togo, que então vinha  de Ponta Negra, Congo Brazaville, para o Campeonato Africano das Nações (CAN) que Angola organizou naquele ano.

Desta vez as mortes e ferimentos  não ocorreram de um ataque terrorista, mas, claramente, devido a uma grave situação de insegurança, à entrada do estádio, que tem apenas a capacidade para cerca de dois (2) mil espectadores e que nunca mereceu obras de restauro de fundo desde a independência.

O estádio, onde na década de oitenta jogaram e treinaram as célebres equipas do FC Clube e Construtores do Uíge e, o ano passado, o União Sport  do Uíge foi dado como apto pela Federação Angolana de Futebol, para acolher os jogos do Girabola Zap de 2017, mas no dia da tragédia faltaram condições de segurança exterior na sua infra-estrutura (portão principal) e  fraco policiamento à cargo da Polícia de Intervenção Rápida.

Por esta razão, quando se estava já há sete (7) minutos do jogo  - eram  15h07 minutos -  entre o Santa Rita de Cássia do Uíge e o Recreativo do Libolo, estando esta equipa visitante a ganhar com golo de Viete, no interior contava-se uma moldura humana de oito mil espectadores sentados nas únicas bancadas do  lado direito, pois à esquerda não existe.

Oito mil espectadores já excedia a capacidade total que é apenas para cerca de dois (2) mil e no exterior, para aceder ao anterior, ainda restavam várias centenas de adeptos das duas equipas que, ávidos de entrarem, e face a morosidade,  forçaram a entrada fazendo com que muitos deles tropeçassem e, assim, pisoteados até à morte e ferimentos graves.

A tragédia ocorreu aos sete minutos, mas o corpo de polícia responsável pela entrada dos adeptos, assim como os oficiais da equipa da casa (Santa Rita de Cássia), da Federação Angolana de Futebol (comissário ao Jogo) e da Associação Provincial, apenas deram a notícia do incidente após o jogo isto é, depois de chegar ao fim quando alguns corpos dos dezassete (17) adeptos  já estavam na morgue do Hospital Geral do Uíge e os feridos a receber em assistência.

O modo como dramaticamente aconteceu a tragédia é confirmado por algumas das vítimas que sobreviveram, como é o caso do adepto Sebastião Vuvu.  "Quando os agentes da polícia decidiram abrir o portão a população desatou em correria e diante da algazarra, os agentes da Polícia Nacional tentaram travar os elementos da frente e os que estavam atrás fizeram pressão" testemunhou.

"Isto fez com que muitos caíssem e outros passassem por cima, causando ferimentos graves e asfixia às muitas pessoas, das quais algumas acabaram por perder a vida no local", explicou.

As falhas de tudo ele vivenciou. “Havia muita gente que pretendia entrar para o estádio. Já tinham comprado os ingressos e a autorização para ingressar estava muito demorada porque a polícia não facilitava", revelou.

Como que a cobrar  e a responsabilizar os culpados, Sebastião Vuvu disse mesmo, sem medo de errar, que "faltou um controlo eficaz e má gestão do evento por parte dos responsáveis pela organização do mesmo isto é, da direcção da Associação Provincial de Futebol do Uíge, da direcção do clube e excesso de zelo no asseguramento policial”.

Poucos minutos depois da tragédia chegar ao conhecimento generalizado, difundida pela imprensa nacional e internacional, o director do Hospital Geral do Uíge, Miji Ernesto, tratou de revelar que mais de 70 pessoas foram transportadas pelos serviços de protecção civil e bombeiros àquela unidade hospitalar.

"Deste número 17 foram logo declaradas mortas, quando eram ainda 17 horas, outras cinco se encontravam em estado grave de saúde, com diagnósticos de traumatismos cranianos e outras fracturas, e mais de cinco dezenas outras ficaram ligeiramente feridas com escoriações e contusões", revelou.  

“Os mortos confirmados chegaram ao hospital já sem sinais vitais, cujo diagnóstico como causa da morte foi por asfixia. Os cinco feridos graves estão sob vigilância médica permanente e a direcção do hospital e a equipa médica está a fazer tudo para salvar-lhes as vidas”, confirmou.

O saldo da tragédia podia mortalmente ser pior caso não houvesse a pronta intervenção dos serviços de protecção civil e bombeiros no socorro dos mesmos e da pronta intervenção da equipa médica, no hospital geral.

O director do Hospital Geral do Uíge, Miji Ernesto , explicou que a situação causou uma forte ruptura de fármacos naquela unidade e a morgue, com capacidade para conservar menos de duas dezenas de cadáveres, não deu para absorver os 17 defuntos deste dia.

Os verdadeiros culpados estão por se conhecer, mas a verdade é que, um dia antes da realização do jogo entre o Santa Rita de Cássia do Uíge e o Recreativo do Libolo, a Federação Angolana de Futebol, presidida por Artur Almeida, enviou os seus inspectores àquela cidade no sentido de fazer uma avaliação a todas condições do estádio 4 de Janeiro, desde os aspectos técnicos à segurança.

Os inspectores acabaram por dar um aval positivo,  depois de, segundo os mesmos os gestores do estádio 4 de Janeiro terem cumprido com algumas recomendações, sobretudo no melhoramento da pintura das paredes da bancada central alinhamento do recinto de jogos, melhoria das casas de banho públicas, propósito que o gestor do referido estádio cumpriu com êxito em de três dias!

António Domingos, que é um dos responsáveis do estádio, disse que  o recinto estava pronto para albergar os jogos do Santa Rita de Cássia e, que, os portões principais foram revistos e igualmente melhorados para que os apaixonados da modalidade não encontrem constrangimentos na entrada e saída do estádio.

A verdade é que as condições não estavam asseguradas a cem por cento e, devido à tragédia, que resultou e perdas de vidas humanas e feridos, os implicados terão de justificar e responder aos inquéritos solicitados. 

O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, depois de lamentar a ocorrência instruiu o governo da província do Uíge a prestar todo o apoio necessário aos mais de 60 feridos, orientando ainda às autoridades competentes para a abertura de um inquérito para se apurar as causas do "grave incidente".

Rapidamente o Ministério da Juventude e Desportos solicitou à Federação Angolana de Futebol, à Associação de futebol local e às autoridades da província do Uíge a averiguarem causas do acontecimento e a tomada de medidas que se imponham necessárias.

Por esta cobrança de explicação, a  Federação abriu o respectivo inquérito para determinar as circunstâncias em que ocorreu o incidente". O presidente de direcção da Associação Provincial de Futebol do Uíge, Agostinho Neves António, considerava  que "o momento que vivemos não é para acusações mas, sim, de reflexão sobre o sucedido, pois o momento tão aguardado pelos adeptos locais, que esperavam que fosse somente de festa, acabou por se transformar em um dia de dor e luto".

“A Associação Provincial de Futebol confia plenamente nas instituições que vão realizar o competente inquérito para averiguar as verdadeiras causas da tragédia que se abateu sobre o nosso futebol e, deste modo, responsabilizar os culpados. Com base nisso, colocamo-nos à disposição da equipa de inquérito para colaborar no que for necessário”, disse depois, num documento que  a sua direcção fez chegar à imprensa.

No  dia e acto da cerimónia fúnebre e enterro no Hospital Geral do Uíge e nos cemitérios municipal e em outros da periferia da cidade e municípios do Songo e Mucaba, o governador da província, Paulo Pombolo, ao lado da  Secretária do Estado para o Desporto, Ana Paula Sacramento, prometeu que os culpados serão responsabilizados. 

 

O NÚMERO DE TRAGÉDIAS E

INCIDENTES DENTRO E FORA DOS ESTÁDIOS

A tragédia ocorrida no estádio 4 de Janeiro, no Uíge, não é o primeiro facto que abalou o futebol nacional. Houve anteriormente, em datas e locais diversos,  outros acontecimentos tristes. Nalguns houve mortes e luto, noutros agressões protagonizadas pelos adeptos, contra ouros adeptos, treinadores e árbitros e, também, acidentes, esfaqueamentos  e assassinatos chocantes. Em todas as situações, falhou, efectivamente, a segurança da Polícia. Fazemos nesta edição uma recapitulação resumida dos que foram mais mediáticos

 

16 de Junho de 1989 - Novato, atleta do 1º de Agosto, é assassinado defronte ao cinema Ngola, no bairro Nelito Soares. Na sequência, a partida da sua equipa diante da EKA do Dondo não se realiza.

 

11 de Agosto de 1993 - O técnico do 1º de Agosto, Djalma Cavalcanti, sai fortemente escoltado do estádio da Cidadela Desportiva, porque os adeptos da equipa militar o queriam linchar pelo facto da equipa ter perdido para o Progresso do Sambizanga, por 1-0, facto que nunca tinha acontecido antes, desde que ambas equipas passaram a jogar entre si em 1978.

 

11 de Agosto de 2010 - Cinco adeptos com idades entre 20 e 27 anos identificados arremessam objectos ao interior do campo, destruindo cadeiras do estádio, vidros retrovisores de viaturas de particulares e do autocarro do Kabuscorp do Palanca. Detidos, acabaram julgados e condenados.

 

18 de Outrubro de 2011 - Victor Bondarenko, técnico principal de futebol do Kabuscorp, foi agredido pelos adeptos enfurecidos do clube do Palanca, após a sessão de treino realizada no estádio da Cidadela, em Luanda, devido à derrota com o Recreativo do Libolo, por 1-3, em partida pontuável da 28ª jornada do Girabola.

A agressão começou a ser protagonizada no princípio do treino de recuperação dos atletas, mas um elemento da direcção do clube acalmou os ânimos dos ferrenhos e exigentes adeptos do conjunto do Palanca.

 

8 de Fevereiro de 2012 - Zezão atacante  do Santos FC,  sobre forte agressão à facada a saída dos treinos, quase conhece a morte, mas depois recuperou satisfatoriamente.

 

3 de Abril  de 2012 - O guarda-redes do Progresso do Sambizanga, Titi, é esfaqueado por desconhecidos, na avenida Deolinda Rodrigues, também à saída dos treinos e por pouco conheceria a morte não fosse a pronta assistência recebida.

 

4 de Agosto de 2012 - O 1º de Agosto-Kabuscorp foi interrompido aos 85 minutos por 15 minutos, na sequência da alteração de ânimos dos adeptos militares, após exibição de cartão amarelo a um jogador agostino, tendo-se mais tarde se instalado a confusão e obrigado a intervenção da polícia.

O Tribunal Municipal de Polícia da Ingombota, em Luanda, condenou seis adeptos da claque do 1º de Agosto a penas efectivas de 15 a 45 dias de prisão efectiva, por crimes de vandalismo durante o jogo da equipa frente ao Kabuscorp do Palanca (0-1), para Girabola.

 

5 de Agosto de 2012 - Vinte e três adeptos do Kabuscorp do Palanca morreram e 29 outros ficaram feridos, resultado de um acidente de viação, ocorrido na estrada que liga as províncias do Cuanza-Norte e Luanda.

O acidente ocorreu quando um autocarro que transportava adeptos da formação do Palanca regressava da vila de Calulo, após o encontro de futebol entre o Recreativo do Libolo do Kwanza-Sul e o Kabuscorp, referente a 20ª jornada do campeonato nacional da I divisão, Girabola2012, que terminou com vitória de 2-0 a favor dos anfitriões.

 

22 de Maio de 2013 - O árbitro da primeira divisão nacional Vladmiro Diogo Sebastião foi agredido no estádio 1º de Maio, em Malanje, pelos adeptos da equipa local do Sport Clube, após ter expulso o jogador Diniz, na partida da segunda jornada do provincial de futebol.

O juiz exibiu a cartolina vermelha ao médio trinco Diniz, após cometer falta perigosa contra o avançado Mussa, do Pekandec de Malanje, na linha de golo, aos 42 minutos. Na sequência da confusão, Vladmiro Sebastião expulsou igualmente os jogadores Serafim e Turé, por se envolverem na agressão. Com isso, interrompeu a partida, numa altura em que se registava empate a um golo.

 

de Agosto de 2013 - Dezasseis adeptos da equipa de futebol da Académica do Lobito morreram e quatro outras ficaram gravemente feridos, na sequência de um acidente de viação na localidade do Kulango, no Lobito, Benguela, quando a viatura que transportava adeptos embateu contra um camião que se encontrava avariado. O excesso de velocidade esteve na base da tragédia.

Catorze (14) pessoas, das quais o motorista do Hiace perderam a vida no local. Outros dois faleceram no Hospital Geral do Lobito, enquanto os quatro feridos ficaram em cuidados intensivos na mesma unidade sanitária.

 

10 de Outrubro de 2013 - Um adepto do Petro de Luanda morreu, alegadamente, em consequência de agressões por parte de elementos da claque do 1º de Agosto, a 2 de Outubro, dia em que as equipas rivais se defrontaram para a 25ª jornada do Girabola.

O adepto do Petro de Luanda foi repetidamente agredido e atirado para fora das bancadas pela claque rival do 1º de Agosto. Não suportou a gravidade dos ferimentos e acabou por morrer no mesmo dia. A direcção do 1º de Agosto, na altura, veio a público condenar as acções da sua claque.

 

7 de Novembro de 2014 - O Árbitro João Goma sofreu actos de vandalismo praticados por adeptos das equipas do Petro de Luanda e do 1º  de Agosto, no estádio 11 de Novembro, durante o jogo da 30ª e última jornada do campeonato nacional de futebol da I divisão, Girabola2014.

Tudo aconteceu na sequência da expulsão do jogador Ary Papel, por acumulação de cartão amarelo. O presidente de direcção da AAFA, Manuel da Rosa, defendeu na sequência a necessidade de se reforçar o policiamento nos recintos.

 

26 de Julho de 2015 - O jogo entre o Benfica de Luanda e o Progresso do Sambizanga, do campeonato angolano de futebol, ficou interrompido durante 25 minutos para aparentes manobras de reanimação do internacional angolano Gilberto.

A intervenção junto do jogador das "águias", realizada em pleno relvado, foi bem-sucedida e Gilberto acabou por ser transportado depois para um hospital de Luanda, para prosseguir com a assistência médica.  

 

28 de Julho de 2015 - O encontro entre a Académica do Lobito e do Kabuscorp  que terminou com a derrota da equipa da casa, por 1-2, levou a confrontos entre adeptos “académicos” e a Polícia Nacional, resultando num morto e sete feridos.

Pouco tempo depois do apito final no Estádio do Buraco, os ânimos exaltaram-se, com apoiantes da Académica furiosos, depois de a equipa até ter jogado bem sem conseguir vencer.

Dos sete feridos, cinco ligeiros tiveram logo alta depois do tratamento, ficando apenas dois com ferimentos de média dimensão a receber maiores cuidados.

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