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28 de junho 2016 - às 07:36

“É PRECISO CONSIDERAR A PROTECÇÃO DA PALANCA COMO PRIORIDADE NACIONAL”

Sendi Baptista, Bióloga da Fundação Kissama, chama a atenção para a necessidade da conservação da Biodiversidade em Angola, tendo alertado que “uma coisa são os parques de papel” e outra é a realidade. No que toca à Palanca Negra Gigante realçou o trabalho que tem sido feito pelo Ministério do Ambiente, Forças Armadas Angolanas e Fundação Kissama mas alertou que a Palanca corre sério risco de extinção pelo que são necessárias medidas urgentes, especialmente na Reserva Integral do Luando, para garantir a preservação desta espécie que só existe no nosso País

 

Figuras & Negócios (F&N) - Em primeiro lugar gostaria que nos falasse da relevância do trabalho dos biólogos no nosso país e qual a riqueza que temos neste campo?

Sendi Baptista (S.B.) - Em Luanda, penso que só existe um curso de Biologia, que é dado pela Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto. Devem sair cerca de 10 biólogos por ano, o que é pouco, pensando na amplitude do trabalho que um Biólogo pode desenvolver, acho que poderíamos ser mais. Há algumas universidades privadas que já têm cursos relacionados com o ambiente, como a engenharia do Ambiente, mas Biologia é na Universidade Agostinho Neto. A nossa riqueza é a imensa biodiversidade, tendo em conta que Angola é um dos países de África com maior representação de ecossistemas diferentes; temos as florestas tropicais de Cabinda até ao deserto do Namibe, passamos por uma floresta de escarpa, que é uma floresta única, florestas de montanha, floresta de Miombo, savanas, portanto, nós temos uma representação de biomas muito vasta e por causa disso temos uma biodiversidade muito ampla. Por exemplo, em Angola temos mais de 900 espécies de aves, o que é mais do que na Europa inteira (cerca de 700), isso já nos dá uma ideia da riqueza da nossa biodiversidade, justamente por causa dessa variedade de ecossistemas. 

F&N - E como é que estamos em termos de conservação desta biodiversidade?

S.B - A meu ver, estamos a dar passos positivos, já temos o Ministério do Ambiente isolado do Ministério do Urbanismo, por exemplo e, tem mais força para traçar políticas de conservação. Já aumentamos as nossas áreas protegidas, passamos de 6% para 12% de áreas de conservação. O Ministério criou inclusivamente áreas de conservação novas, o Parque Nacional do Mayombe e no Cuando Cubango os Parques Nacionais de Mavinga e Luengue-Lwiana. Portanto, as políticas vão se fazendo, mas os problemas que existem ainda são muitos, não são só em Angola mas no mundo inteiro. Estamos a falar da realidade africana, onde existem muitos problemas e acho que estamos no caminho certo em termos de legislação para fazer face a esses problemas. Falta realmente a implementação da fiscalização, a actuação no terreno.   

F&N - Uma coisa é declarar áreas de conservação, outra é a protecção efectiva dessas zonas. Quando fala dos 12% da área de conservação, como é que estamos em termos de fiscalização?  

S.B - Exactamente, é uma pergunta pertinente. Tem toda a razão, uma coisa são os parques de papel, como nós dizemos, vemos no mapa muito bonitinhas as áreas de conservação marcadas, mas o que é que existe lá? Existem já estruturas montadas nalguns parques, nomeadamente o Parque do Bicuar, na província da Huíla, o Parque do Iona, na província do Namibe, na Cangandala também, na província de Malanje, estruturas e fiscais sob a tutela do Ministério do Ambiente. Ou seja, é o Ministério do Ambiente e todas as suas direcções que coordenam as estruturas e os trabalhos mas, a meu ver, e sei que o Ministério também concorda comigo, ainda estamos numa situação primária, tem que haver além das estruturas, fiscalização mais eficaz. Estamos a falar de recursos humanos, tem que haver muito mais e com mais preparação para que essas áreas possam ser efectivamente protegidas e não só politicamente estabelecidas no papel, isso para mim é a principal lacuna.

F&N - Está a trabalhar nesse projecto da conservação da Palanca Negra Gigante. Como é o projecto em si?

S.B - Bem, o projecto, só para fazer um historial rápido, começou informalmente em 2002, quando o Engenheiro Pedro Vaz Pinto, actual coordenador do projecto, quando acabou a guerra queria confirmar se realmente a Palanca Negra Gigante, que é um animal que só existe em Angola, tinha sobrevivido ou não. Algumas pessoas diziam que já não existia, outras que existia, e, portanto, em 2002, o Pedro começou a fazer viagens para Malanje - que na altura demoravam mais de 20 horas para lá chegar - e a tentar falar com a população, apurar qual era a situação da Palanca. A partir de 2003 conseguiu juntar algumas ajudas financeiras para as viagens e, em 2003, teve o apoio institucional da Universidade Católica e começou o projecto propriamente dito. O objectivo deste era saber se a nossa palanca estava ou não extinta. Fez-se alguns levantamentos aéreos e terrestres mas não se conseguiu ver nenhuma palanca. Conseguiram ver alguns indícios de fezes ou de marcas mas por existência de outros animais parecidos, não podia confirmar que era a Palanca Negra Gigante. Por isso colocaram-se câmaras ocultas que disparam automaticamente na presença de movimento e calor e só em 2005 se obteve as primeiras imagens da Palanca Negra Gigante, isto no Parque da Cangandala. É importante referir que a Palanca Negra Gigante existe em duas áreas de conservação: o Parque Nacional da Cangandala e a Reserva Integral do Luando, e essas viagens estavam a ser feitas só no Parque da Cangandala, porque o acesso à Reserva nessa altura ainda era impensável. A partir de 2005, depois de se provar que a palanca ainda existia, começou mais efectivamente o Projecto de Conservação da Palanca Negra. Em 2009 construiu-se uma área vedada para se colocar as poucas palancas sobreviventes, que eram nove fêmeas do Parque da Cangandala, e trouxemos um macho da Reserva do Luando, num helicóptero da Força Aérea Nacional, porque na manada da Cangandala não havia machos. Essa área vedada agora chamamos de “Santuário da Palanca” e neste momento a reprodução está a correr bem. Em 2011, mais animais foram trazidos da Reserva do Luando e colocados no santuário para melhorar a reprodução. Neste momento a situação no Parque, dentro do Santuário, está estável, as palancas estão a reproduzir-se bem e, naturalmente, no seu habitat natural, com a vigilância dos fiscais do Ministério do Ambiente que operam na área. Há problemas de caça ainda mas a situação está controlada. Infelizmente, não posso dizer o mesmo da Reserva do Luando que continua a ser uma área de mais difícil acesso apesar de agora ser possível lá ir. No entanto, não tem um corpo de fiscalização montado, não tem nenhum fiscal, não tem o funcionamento e a protecção do Parque da Cangandala. A meu ver, é bastante preocupante uma vez que a Reserva do Luando é o verdadeiro berço da palanca, as principais populações da Palanca Negra Gigante estavam lá. E a população do Santuário não tem viabilidade a médio/longo prazo se também não protegermos a população do Luando porque vai ter que haver sempre passagem de animais para se evitar consanguinidade. Achamos que o esforço tem que ser nesse sentido, que a conservação seja a par e par entre o Parque da Cangandala e a Reserva do Luando.

F&N - E há iniciativas que garantam que para breve poderemos ter essa protecção na Reserva Integral do Luando? 

S.B - Bem, em todas as reuniões que há entre a Fundação Kissama, o Ministério, Força Aérea Nacional e todas as entidades envolvidas no projecto se discute isso mas realmente nós estamos sempre a falar do mesmo problema que é a falta de recursos humanos. Portanto, são problemas que o próprio Ministério tem que resolver, já existem muitas áreas protegidas em Angola, muitas prioridades, tem que ser uma decisão política, uma priorização do Estado. É preciso considerar a protecção da Palanca como prioridade nacional.

F&N - A caça furtiva, para o caso específico da Palanca, continua a ser uma preocupação?   

S.B - Sim, continua a ser um problema muito sério, a principal ameaça. 

F&N - Na Reserva Integral?

S.B - Sim, no Parque não se verifica tanto por estarem justamente num Santuário e por ter fiscais. Há tentativas, ainda no ano passado houve um incidente com um fiscal da Cangandala que foi baleado por caçadores furtivos, portanto existe o perigo. Mas as palancas estão mais protegidas. Infelizmente, na Reserva do Luando a realidade é completamente diferente. Existe muita caça com armas de fogo, mas a maior ameaça, a meu ver, são as armadilhas. As armadilhas são colocadas principalmente no cacimbo perto de fontes de água e quando os animais vão beber ficam presos. A maioria morre e os que não morrem ficam mutilados, amputados, enfim. Sabemos disso porque mais dos 20% dos animais que capturamos no Luando, para fazer o controlo, porque as coleiras estavam com marcas de armadilhas. E esses são os animais que sobrevivem porque a maior parte deles não sobrevive, essa é uma forma de caça completamente nociva, não só para a Palanca mas sobretudo para ela, que é o animal mais importante de se proteger aqui.

F&N - Tem uma ideia de qual é a população de Palanca na Reserva do Luando?

S.B - Pelas estimativas que se fez em 2013, que foi a última vez que se sobrevoou a área, fizemos um censo muito vasto pela Reserva, estamos a falar de uma Reserva de mais de 800.000 hectares e, infelizmente, o máximo da população que nós estimamos é cerca de 50 animais. Só para fazer a comparação, estamos a falar dos anos 70, de uma população estimada em 2.000 animais. A redução é drástica, é uma situação mesmo grave e nas situações que eu já referi, em que cerca de 20% dos animais capturados estavam mutilados pelas armadilhas.  

F&N - E no santuário e em todo o Parque da Cangandala, qual é a população, neste momento, da palanca?

S.B - Nem lhe sei dizer bem, porque na última visita que o Pedro fez nem conseguiu contar todas, de tão bem que se estão a reproduzir. O Santuário começou com 9 fêmeas e um macho e depois foi aumentando e neste momento temos certamente mais de 50 Palancas, acho que é um bom sinal.

F&N - No parque da Cangandala só existem Palancas no Santuário? 

S.B - Nós não acreditamos que exista uma população desconhecida de palancas fora do Santuário. É uma possibilidade mas pelo trabalho que tem sido feito na área, não acredito que hajam neste momento Palancas Negras fora do santuário que não sejam conhecidas.  

F&N - Qual é a causa dessa redução da população, é apenas a caça ou houve uma mudança também no ambiente, alguma dificuldade de obterem alimento?

S.B - É só a caça, infelizmente não conseguimos responsabilizar mais nada. Para já, passamos de uma situação em que a Palanca era protegida antes da guerra para uma situação de descontrolo total. Claro que durante a guerra não há prioridade de conservação da vida selvagem. Costumamos usar a frase de um soba que disse “a guerra acabou para as pessoas e começou para os animais”, porque, de alguma forma, as pessoas que estavam restritas a algum sítio tiveram mais possibilidade de se mover e foram mais longe para caçar, e isso verificou-se na área da palanca, e não só. Não houve nenhum desequilíbrio no ecossistema, a única coisa que aconteceu mesmo é que o Homem passou a ter acesso a áreas que antes não tinha, os animais começaram a reduzir drasticamente os seus números. Neste momento, quando viajamos por zonas remotas, andamos quilómetros e quilómetros sem ver animais, isso não é normal mesmo numa Reserva Integral ser tão difícil ver animais de grande porte.    

F&N - Tendo em conta esse cenário que nos apresenta, qual é a esperança para si ou, em termos de projecção de futuro, para a Palanca? 

S.B - (suspira longamente) Que pergunta tão difícil! A Palanca tem que ser tida em conta como prioridade máxima em Angola. Sei que estamos numa realidade financeira diferente do que estávamos há dois anos em que era mais fácil falar sobre isso e fazer algumas exigências ao Estado para a Palanca. Estamos numa situação difícil, a minha esperança é que não se esqueça que a Palanca Negra Gigante realmente só existe em Angola e que se a gente a perder, perde para sempre. E isso para mim é grave porque não perdemos só um animal no mundo científico mas um símbolo de um país. Acho que todos os angolanos sabem o que é uma Palanca, apesar de eu muitas vezes brincar e dizer: “todos os angolanos conhecem a Palanca mas poucos se lembram que a Palanca é um animal verdadeiro”. Conhecemos a Palanca do futebol, da TAAG, a Palanca está na boca de todo o mundo mas o animal que está lá no mato pouca gente se lembra que ele está realmente ameaçado, a ser caçado e em vias de extinção. Não me arrisco se disser que é o antílope mais ameaçado neste momento.    

F&N - Em Angola?

SB - No mundo! É o mamífero de grande porte, o antílope, digamos assim, de grande porte que tem o estatuto de conservação mais ameaçado. Temos uma população muito reduzida e temos esforços que estão a ser feitos há algum tempo e que tem os seus frutos, mas como me perguntou, esperança para o futuro, para ser melhor, para eu acreditar mais na sobrevivência, era preciso haver um engajamento político maior. Como existe, por exemplo, na África do Sul em relação ao Rinoceronte, onde todos os esforços vão para a conservação deste animal: militares, polícia, corpo de fiscalização da Vida Selvagem. Eu acho que é isso que falta em Angola, é considerar a protecção da Palanca como a prioridade nacional, canalizar todos as forças naquelas áreas de conservação. E quem for apanhado a caçar nas áreas da palanca terá de ser efectivamente punido. Sendo a caça a principal ameaça, se não houver uma directriz forte nesse sentido, vamos tentar aqui remediar uma situação que a longo prazo, a meu ver, está condenada.           

F&N - Se a situação continuar a Palanca está condenada?  

S.B - Está condenada, justamente porque o Santuário da Cangandala nos moldes em que está, não é suficiente, podemos ter uma população a prosperar no santuário mas sem a Reserva do Luando, sem uma população viável, vamos ter problemas de consanguinidade no Santuário a médio ou longo prazo.          

F&N - Qual é o impacto deste problema que coloca (da consanguinidade) para a sobrevivência da Palanca? 

S.B - O problema da consanguinidade para uma população de animais é que esta perde a sua diversidade genética original. E o que é que isso significa? Que perde a sua capacidade de adaptação. Por exemplo, numa família de pessoas em que são todos relacionados, sabemos que nalgumas famílias há mais incidência de algumas doenças, há famílias em que quase todos são diabéticos, outros têm hipertensão, etc. Isso será igual nas palancas, elas vão ter todas as mesmas características e se houver algum problema externo, alguma epidemia, uma seca extrema, é muito mais provável essa família estar toda condenada do que se tiverem animais com características diferentes. Esse é o problema da consanguinidade, estamos a falar de animais todos muitos parecidos uns com os outros que podem estar muito bem num momento, mas face a um problema externo, não está de todo sob o controlo dos humanos. Aqui não estamos a falar de caça, mas de outros problemas que  vão ter respostas todas parecidas. Por exemplo, face a uma epidemia, se forem todos sensíveis a ela, vão morrer todos, enquanto se tivermos animais diferentes, vão morrer alguns mas outros vão resistir, e assim é que se faz a adaptação das espécies. A consanguinidade é um problema para a biodiversidade, por isso é que estamos sempre a falar da diversidade genética, a adaptação das espécies depende disso, da capacidade de adaptação dos organismos.         

F&N - Não há, também, apoios a nível mundial para iniciativas de protecção da Palanca?

S.B - Sim, existem entidades internacionais que apoiam o projecto da Palanca. Mas proteger a palanca deveria ser uma questão de orgulho nacional. Se nós temos capacidade de proteger o animal, deveríamos fazê-lo. Claro que se nós declararmos que não temos capacidade de proteger o animal, muitas organizações poderão entrar, mas nós ainda não declaramos essa incapacidade, e, na minha opinião, devíamos investir esforços para tratarmos nós da conservação da Palanca, e até pode ser com ajudas externas, mas com o nosso trabalho, sermos nós os responsáveis por isso. 

F&N - E quanto ao próprio projecto de conservação da Palanca, podemos contar a longo prazo? 

S.B - Não! Esses projectos são todos com apoios financeiros, o principal apoiante deste projecto é a Sonangol, através do seu aval para outras petrolíferas, o Bloco 15 da ESSO foi durante muitos anos o principal financiador do projecto e neste momento a Angola LNG é um dos principais. Os projectos vivem de financiamentos, patrocínios, o que for, não é uma garantia, se esses financiamentos acabarem, o nosso trabalho de investigação, a colocação das coleiras etc., tudo isso acaba também. O Ministério já tem a questão da fiscalização, que já não é nada fácil. Se não tivermos apoios financeiros não há trabalho, neste momento ainda temos financiamento. Aliás, este ano, se tudo correr bem, em Julho vai haver mais uma operação de capturas e ter mais Palancas controladas.     

F&N - Para além da Palanca, que outras preocupações temos?

S.B - Neste momento, o alerta é mundial, o principal perigo, à biodiversidade é a degradação dos habitats. A população humana está a crescer e consequentemente está a roubar o habitat natural de várias espécies, animais, vegetais, etc., e em Angola não é diferente. Por exemplo, no interior temos uma agricultura de corte e queima, abatemos as árvores e queimamos a área, produzimos durante dois anos, depois abandonamos a área e vamos fazer a lavra noutro sítio. Não é uma agricultura de todo sustentável, os principais alertas vão neste sentido, trabalho com as comunidades para actividades alternativas. É um trabalho difícil de organizações e do Estado, pois não podemos chegar a um sítio e dizer: “olha, vocês não podem fazer lavra aqui”. É preciso trabalhar em conjunto para procurar alternativas mais sustentáveis e dar alternativas económicas, porque todos nós precisamos de alimentar as nossas famílias. Isso é um trabalho que se faz no mundo inteiro, é um desafio, sem dúvida. Na Europa, eles já atingiram um nível de civilização tal que já quase desmataram todas as áreas naturais. Aqui em África podemos aprender com os erros dos outros e tentar manter essas áreas.          

F&N - Tocou aqui a questão da agricultura familiar ou de pequenos agricultores mas, por exemplo, no que toca à floresta nós também temos a invasão dos madeireiros de grandes empresas de grandes?  

S.B - Exactamente, essa também é uma grande ameaça. A exploração de madeira, em qualquer que seja a região mas principalmente nas florestas, - estamos a falar aqui da nossa floresta tropical, floresta do Maiombe e na das Lundas - é uma realidade e a maior parte não é de todo autorizada, é a maior ameaça para as espécies porque não há reposição nenhuma. Eles entram, cortam a madeira e vão embora. A floresta tem uma capacidade de regeneração mas demora 20, 30, 40 anos, e se for completamente desmatada não recupera mesmo nunca. Portanto, é, mais uma vez, um problema de fiscalização que não funciona a 100%. Isso são as prioridades, acho que neste momento estamos num ponto em que temos uma boa legislação, agora temos de a implementar no terreno.     

F&N - Com essa crise económica será possível? 

S.B - Com essa crise económica, não vejo um futuro muito risonho, porque o ambiente nunca é aquela prioridade máxima, mas como organização não-governamental e, mesmo, o pessoal do Ministério do Ambiente, temos que puxar a brasa à nossa sardinha. Se calhar, agora já estamos num ponto de trabalhar mais com Instituições Internacionais de conservação da natureza, temos de encontrar um caminho, as prioridades em relação ao ambiente e os passos que queremos dar a seguir.      

F&N - No que toca à economia e num momento em que vivemos a crise, o ecoturismo seria uma opção para Angola? 

S.B - É sempre uma boa opção só gostava de fazer a ressalva, para chegarmos a um ponto em  que podemos fazer o ecoturismo, temos muito trabalho para fazer antes, de conservação efectiva. Temos muito pouca fauna neste momento, é um trabalho que demora muito tempo e que exige muitos recursos financeiros e que só depois de uns anos é que pode ser rentável, e, mesmo assim, existem muitos poucos parques nacionais em África que são economicamente rentáveis. E temos também de pensar na competição que já existe em África, nós já temos países muito perto, como o Quénia, a Tanzânia e a Namíbia que já oferecem esse tipo de turismo e estão “a anos luz” de Angola em relação à protecção das espécies e a todas as estruturas necessárias para esse tipo de turismo. Claro que é uma visão de Angola obviamente. Como bióloga, também acredito que o futuro da biodiversidade, a conservação da vida selvagem tem que passar justamente pela proximidade das pessoas aos animais e aos ecossistemas. Acho que protegemos muito melhor aquilo que vemos, conhecemos e aprendemos a gostar. Angola tem ainda a dificuldade na aquisição de vistos de turismo, tem de resolver uma série de problemas para ter um turismo normal antes de chegar ao ecoturismo (risos). E os preços também. Em países como o Botswana temos uma coisa chamativa onde podemos ver elefantes e muitos outros animais a preços que aqui em Angola nós não conseguimos praticar porque é tudo muito mais caro. Mesmo que eu seja uma empresa que queira fazer ecoturismo, vou ter que fazer preços muitos mais altos do que uma empresa no Botswana. 

 F&N - Para inverter o quadro que apontou seria necessário, também, investir na educação ambiental da população?

S.B - Sim! Eu pessoalmente acredito que só podemos proteger aquilo que conhecemos e que nos ensinam a gostar. E acho que isso vem da educação ainda na infância. É aí que acredito que podemos fazer maior diferença na conduta de alguém no futuro. A Fundação Kissama iniciou um projecto de educação ambiental para crianças em 2012, uma coleção de livros infantis "Estórias para Conservar". Temos tentado chegar a cada vez mais crianças, com as nossas histórias sobre os animais e os seus habitats e acredito que temos sido bem sucedidos, apesar de saber que podemos fazer ainda melhor e chegar a mais crianças. Mas se tudo correr bem continuaremos aqui para isso!  

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