SOCIEDADE

 
2 de setembro 2016 - às 06:59

ENSINO UNIVERSITÁRIO ANGOLANO: LIMITES DE VELOCIDADE OU ARRISCAR MULTAS?

Os momentos de crise e/ou de desaceleração de processos, como verificamos neste momento em Angola, não constituem somente limitações e obstáculos ao desenvolvimento organizacional, podem trazer dificuldades, mas são também momentos muito interessantes para a reflexão mais pausada e, provavelmente, mais frutífera. Esta capacidade de transformar obstáculos em oportunidade(s) deve constituir a “pedra de toque” dos gestores atentos e visionários. Tanto mais que com as contrariedades ficamos mais sensíveis, possivelmente mais argutos e necessariamente mais assertivos.

Quando o centro da atenção é o Ensino Superior, num contexto e num tempo específico, em Angola, essa reflexão tem a obrigação de ser permanente e esforçadamente partilhada, pois estamos perante uma realidade ainda muito jovem, de frágil construção até pela muito diversa natureza/origem dos seus fundamentos (até em resultado/conformidade com os múltiplos locais de formação dos seus quadros responsáveis)

 

Assim, proponho abordar, na forma sumária a que o formato de um artigo de Revista obriga, três pontos referentes ao ensino universitário que, em nosso entender, merecem reflexão.

 

1. Adequabilidade Crítica ou “Cópia Chapada”?

O ensino superior peca, via de regra, por assumir modelos de sucesso consolidado noutros países, sem tratar de ponderar a adequação de tais modelos ao país, ao sistema e à(s) instituição(ões) de ensino receptores.

Isso mesmo se constata em Portugal, onde, segundo algumas vozes, o “Processo de Bolonha” foi assumido um tanto acriticamente, como uma imposição dos novos tempos, como a panaceia que resolveria todos os problemas e não como uma base de trabalho obrigatoriamente porosa a modificações em função da realidade concreta do ensino superior em Portugal.

Olhando à especificidade dos cursos universitários nos países africanos, nomeadamente nos países com processos de independência relativamente recentes, fazendo o contraponto com instituições universitárias do chamado “Primeiro Mundo” – muitas destas a funcionar há décadas, há alguns séculos mesmo -, é natural que os responsáveis das universidades africanas se sintam tentados a adoptar modelos alóctones (o m. q. externos) de sucesso comprovado.

Em Angola, e em muitos outros países que passaram pelos mesmos processos de independência e a necessária formação de quadros no exterior, levou a que se recorresse aos mais diversos sistemas de ensino para conseguir tais propósitos o que, como tudo, aliás, acarreta prós e contras.

Os prós resultam de uma grande diversidade de visões e de práticas, sempre benéfico na “construção/reconstrução” de processos. Negativamente, identificamos a enorme dificuldade de, muitas vezes, se conseguir conciliar e operacionalizar de forma tangível e efectiva a “babilónia” de modelos que cada um “traz na cabeça”, em função do sistema onde efectuou a sua aprendizagem/graduação.

Se a assunção de um modelo com provas dadas se pode considerar à partida como algo salutar, há, ao mesmo tempo, que sopesar o risco de uma importação acrítica. E tal risco não se subsume na dicotomia Primeiro/Terceiro Mundo, vale na mesma entre países ricos e países pobres ou remediados que se encontrem ambos no “Primeiro Mundo”.

 

2. NÓS… e os outros? - Outra questão passa pela erecção de uma redoma pasteurizadora do ensino universitário (o NÓS, os doutores) em relação ao ensino secundário e básico (os outros…).

São recorrentes as queixas dos docentes do ensino superior quanto à preparação deficiente dos alunos que chegam às universidades.

Os professores do ensino secundário replicam as mesmas queixas, tendo como alvo os primeiros anos de escolaridade, considerando residir aí a fonte de todos os males. É o famoso exercício de “chutar para trás”, passar a “bola a outro”.

Esta é uma questão fundamental. Dar inteira razão aos queixosos nem sequer é difícil; não é preciso leccionar no ensino superior para rubricarmos o livro de reclamações sem hesitarmos – a sabedoria popular acerta quando sentencia que não se começa a construir uma casa pelo telhado.

O problema é que os docentes de graus superiores parecem satisfazer-se com o passa culpas e os responsáveis ministeriais não adoptam medidas tendentes a minorar as deficiências detectadas. Daí vermos vantagens, mas também desvantagens na separação gestionária e organizacional – no que às políticas diz respeito – entre a existência de dois ministérios para as questões da educação e do ensino ou de um único organismo que agregue educação, ensino e formação. Este aspecto, por si só, merece uma reflexão mais vasta e sustentada, até com estudos de política comparada (ver outras e diversas realidades em diferentes contextos internacionais).

Um inquérito simples, com uma só pergunta, a vinte ou trinta professores universitários revelar-nos-ia de imediato como pouco ou nada se faz para acabar com a clássica estanquicidade entre os vários graus de ensino: “Quantas vezes participou em reuniões com docentes do ensino básico ou secundário para discutir méritos e deméritos da formação ministrada nesses graus de ensino e partir pedra em busca de soluções?”

Presumimos que já adivinharam o resultado do inquérito, com o NENHUMA a ganhar bem destacado. Mas, também ninguém assume a culpa (pelo menos parte da culpa) do desastre anunciado, ao manter os dois subsistemas de costas voltadas.

Urge avançar para esse diálogo, que deve correr a par com uma formação mais rigorosa, pelo menos melhorada, dos professores que se encontram a montante do ensino universitário.

 

3. Teoria! Prática? - Por último, outra dicotomia com barbas e respeitosas câs: falamos da teoria e da prática.

Em muitas universidades (europeias, e um pouco por todo o mundo, e de forma muito acentuada em Angola) a palavra “prática” ainda causa urticária, é palavra maldita, t’arrenego para bem longe, para os institutos politécnicos, para as escolas profissionais.

 

Vale a teoria, sempre a teoria, só a teoria - A famosa frase de Kurt Lewin “não há nada mais prático que uma boa teoria” ganha estatuto de sentença irrevogável, indo mesmo ao arrepio do sentido que, olhando à obra do autor, este pretenderia com ela. Sentença irrevogável e geral, pois há quem pretenda “meter na cadeia” todos os cursos universitários, não valendo as suas especificidades para uma pena suspensa ou duas excepções à regra.

Ora, o “preconceito teórico” é malsão, como qualquer preconceito; também o condenaremos se nos aparecer travestido de “prático”.

E é malsão porque, se levado à letra, desliga a Universidade da vida real, do que se passa cá fora. A interpenetração entre o ensino superior e a vida empresarial não é recomendável, é uma exigência que devíamos ter como lema, uma bandeira que devíamos desfraldar ao lado do computador assim que começamos a gizar novos cursos ou novos programas para unidades curriculares do ensino superior. Daí a importância de estágios académicos levados a cabo em entidade e empresas, tanto públicas como privadas.

E, mesmo os que içam a bandeira e se orgulham do acto o fazem, bastas vezes, sem conhecerem, eles próprios, a complexidade da vida empresarial. Ficcionam um mundo empresarial ao jeito de algumas advertências que lemos no início de certos filmes e romances: “Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção”. Muitos docentes, gente honesta, aplicada, trabalhadora, preocupada com o futuro dos seus alunos, orgulha-se de fomentar estágios em empresas, de programar actividades curriculares fora do campus universitário, de promover visitas de estudo. Mas podemos perguntar-nos: e quantos desses docentes decidiram, de motu próprio, com humildade académica, estagiar em empresas do seu ramo de conhecimento antes de iniciarem a leccionação no ensino superior?

Infelizmente, são poucos os professores universitários que aliam as credenciais académicas a um passado profissional fora do ensino. Mas mesmo estes, que, à partida, surgem com uma mais-valia de peso, não voltam a pôr “as mãos na massa” depois de conquistarem a “cátedra”, ou muito raramente o fazem. Também nesta dimensão estamos todos, ou quase todos, de costas voltadas, mas com farpas afiadas para espetarmos no “outro”, seja ele universidade ou seja ele empresa.

Acontece que o mundo não pára, e o valioso acquis desse passado no terreno torna-se vertiginosamente obsoleto.

Nos bancos da escola, aprendemos que a Pré-História tinha acontecido há muito, muito tempo; hoje ouvimos falar da Pré-História da Internet e, imagine-se, situamo-la em 1990/1995.

 

Foi ali mesmo, há bocadinho, há um instante. Acontece que a História não pôs o pé no acelerador apenas na rede, os radares dizem nos que os excessos de velocidade são cada vez em maior número, atingindo os mais diversos campos do Saber. E a Universidade só tem que acompanhar a passada, estugar bastante o passo.

Cair nas boas graças da polícia por conduzir o ensino superior respeitando os limites de velocidade é uma má opção: ao sair do carro, o risco de atropelamento é grande!  

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