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2 de maio 2016 - às 07:08

EMANUEL NKRUMA PAIM: NO TEATRO AS VEZES FAZEM-SE OMOLETES SEM OVOS

“O teatro é a transformação de factos reais da nossa vida quotidiana para a interpretação, o oferecimento da Arte da vida a um público que espera pouco ou mais de nós; o actor é o diabo, que faz a transformação com a maior responsabilidade e humor que pode, e esta é uma fusão divina. O actor dá vida a um texto ou circunstância, e a magia do teatro, está em dar ao actor a possibilidade de viver uma outra vida. Na verdade o conceito da vida assimila-se ao teatro só que na vida não temos espaço para ensaiar, o que torna o teatro não apenas uma Arte completa mas acima de tudo perfeita!” Emanuel Nkruma Paim, x anos, Secretário Geral da Associação Angolana de Teatro e Coordenador do projecto artístico Resgarte.

Resgarte é um projecto de artes cénicas, que recorre a técnicas tradicionais e convencionais do teatro para oferecer-lhe nova dinâmica e qualidade artística, que abraçou o desafio lançado em 2014, pela Globe to Globe de mostrar, em dois anos, a peça de Shakespeare em todos os países do mundo para assinalar os seus 450 anos.

 

Figuras&Negócios (F&N) - Os palcos são o centro dos aplausos  mas também de grandes embaraços. É no palco que vivemos os melhores e, muitas vezes, os piores momentos das nossas vidas. Parece-lhe justificável?

Nkruma Paím (NP) - (Risos) É verdade. Eu vivo todos os meus grandes momentos em palco. Mas vivi uma situação vergonhosa, e que, sim, hoje arrisco em chamar caricata, quando participei de uma ópera com artistas profissionais, em 2004. Tratou-se da Ópera emitida pela BBC “Light Passing”, onde d’uma seleção de actores internacionais, eu fui o mais desafinado, ao ponto de quase ficar calado durante o coro! Nao acreditei!!! 

F&N - Encenar é realmente transformar. Fale-me do que é ser profissional e viver pela Arte num país como o nosso...

NP - Faço o meu trabalho no domínio das artes cénicas, por amor à Arte. Não sou um actor profissional, fiz alguns trabalhos (comerciais, participação em Windeck), mas nada ao nível que podemos considerar profissional, pois não vivo da Arte. Infelizmente, o mercado para profissionalização dos artistas ainda é um problema, os mesmos enfrentam muitas dificuldades. O facto de muitos terem o teatro ou cinema não como a actividade principal belisca até certo ponto, a entrega e qualidade do trabalho final. Quanto a encenação na minha opinião, muita das vezes tem de se fazer omoletes sem ovos... graças a DEUS que a nossa área de actuação é criativa, senão seria um desastre. 

F&N - Onde está a real dificuldade?

NP - São inúmeras as dificuldades, desde a formação aos incentivos para dinamização das artes, problemas de estruturas físicas e até mesmo regulamentos que sirvam de incentivo para os artistas nacionais. Temos de tornar a cultura um impulsionador para o turismo, creio que o maior problema não está no que falta aos actores e encenadores angolanos, mas sim no que falta às estruturas administrativas para melhor proveito tirarem daquilo que os actores e encenadores têm a oferecer. Creio que o Teatro tem tomado o rumo certo, tem crescido mas é necessário tornar a actividade economicamente viável, uma vez mais foco na questão dos incentivos e regulamentos legais que protejam e promovam a cultura nacional. Estes são quase que inexistentes. 

F&N - E para além disso, o lado intelectual da coisa...?

NP - Precisamos escrever mais, ler mais, investir mais em estruturas adequadas para a prática teatral e que as mesmas possam ser rentáveis.

F&N - A que níveis vocês têm se sentido esquecidos por parte do Estado? 

NP - O Estado tem o seu papel. Muitas das vezes pensamos que o apoio deveria ser apenas financeiro, mas há outros tipos de incentivos e, até, políticas para reforçar ou apoiar a classe. O investimento feito por certas instituições em artistas e espectáculos de outras paragens, 30% destes investimentos faria uma diferença massiva no que posso chamar de “proletariado local” se me permitirem usar este termo. Políticas proteccionistas deveriam fomentar o consumo e investimento no teatro nacional. 

F&N - Vivemos cada um à sua maneira. Mas é verdade que o teatro une intransigentes valores. Fale-me da “pica” em fazer a Arte, entre o correr dos seus afazeres diários.  Está à vontade para se emocionar, inclusive. 

NP - Sou um profissional ligado às Nações Unidas, mais concretamente ao Fundo das Nações Unidas para População, já fui docente de Comunicação Social e Relações Internacionais, uma actividade que muito amo, mas sempre que possível regresso à academia. Trabalhar na ONU é um grande complemento, sinto uma super realização  especialmente porque a agência a que estou ligado, tem no seu mandato questões ligadas à Juventude, é preciso investir nos jovens, especialmente na educação das meninas e raparigas, trabalhar para alcançar tal objectivo torna o meu trabalho muito mais interessante e prazeroso. 

Mas a actividade artística é o meu maior complemento, nada melhor do que a adrenalina, a sensação, os desafios das luzes e do palco, consigo entender melhor o porquê que Deus se orgulhou da criação... (Risos)... Dentro da arte nos sentimos pequenos deuses. 

F&N - E a desvalorização pelo público, que lhe parece?

NP - O público precisa de ser educado, este é um processo! A qualidade das obras, a organização dos espectáculos pensando no público alvo poderá ajudar a atingir este desiderato. O actor de teatro é um educador social e, como tal, merece mais respeito e valorização.  

F&N - Nisso, entramos para o papel da Associação angolana de teatro. Em que pé estamos?

NP - A associação Angolana de teatro, alcançou o objectivo traçado para o primeiro ano, que é o de estar legalmente habilitada para ser o interlocutor da classe teatral junto das instituições. Neste momento as atenções estão centradas para o levantamento estatístico dos grupos, estruturas físicas e companhias teatrais, bem como actores que existem no país. Desta forma poderemos melhor intervir junto dos órgãos competentes e reclamar o apoio necessário para dar respostas aos inúmeros desafios que a classe enfrenta. 

F&N - Pensa que o teatro em Angola tem vindo a impulsionar o resgate de valores e cultura angolanos?  

NP - Concerteza! Se formos  para as zonas urbanas, poderemos perceber a força que o teatro tem, mas claro, temos é de entender, também, que valores queremos ou estamos a transmitir. Embora acredite que aqueles fazedores de teatro que promovem o teatro com base na cultura local nunca são tidos nem achados; grande prova disto é a trienal... (risos)... este tem sido um grande problema,  o investimento feito deveria ser direccionado ao teatro nacional e não apenas ao mesmo grupo de indivíduos que estão sempre presentes em festivais internacionais e nunca representando a cultura nacional. Esta segregação tem matado o teatro. Atrevo-me a chamar de segregação porque consiste da criação de uma elite inexistente. 

F&N - Que repercussões pretende atingir o Resgarte a nível social?

NP - O Resgarte é um projecto artístico dentro das artes, que tem como principais objectivos a criação e apresentação de espectáculos de teatro, dos vários géneros com as obras referenciais, clássicas e contemporâneas, do repertório dramático nacional e universal. Actua na vertente das artes cénicas cultura e educação. 

F&N - O que dizer sobre a primeira temporada do Hamlet? Para quando a segunda temporada e o que se espera dela?

NP - Podemos considerar que a Primeira Temporada de Hamlet ultrapassou a nossa expectativa, isto em termos de como a crítica e o público iriam encarar a peça. Dada a grandeza de Shakespeare adaptar a história do dramaturgo inglês em um contexto africano usando surrealismo nem sempre é bem-vindo para os críticos tradicionalistas. Ou fazes bem ou não o fazes, posso regozijar-me em dizer que consegui alcançar o objectivo traçado pelo projecto com relação a adaptar tal história. 

A primeira vez que encenei e adaptei Hamlet foi em 2001, na altura a peça não teve o impacto que teve agora. A sequência de cenas era exactamente a mesma e parte do diálogo adaptado. Nesta versão de 2015, trabalhei durante alguns meses em como contextualizar o enredo num reino fictício com características notáveis de África, adicionando glamour bem ao nosso estilo a uma das maiores obras da dramaturgia Universal. Portanto, receber análises positivas sobre a forma com que a peça foi adaptada, encenada e representada representa uma grande satisfação especialmente porque tivemos apreciações vindas de outros países, pelo que gostaria de destacar um artigo do Jornal Húngaro! Isto foi mesmo de não esperar... 

Trabalhei com um grande elenco de actores " Resgatados", a segunda temporada faremos algumas alterações básicas e vamos aprimorar alguns aspectos para não defraudar o público.  A Segunda temporada arranca em Maio e esperamos venha a ser melhor e mais aceite que a primeira. 

Entretanto, pretendemos levar a obra, não apenas a outros cantos do país, mas também do mundo. Já temos agendadas viagens para Cabo verde e Brasil, temos ainda em vista uma para Moçambique. 

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