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23 de agosto 2019 - às 08:57

ELSA MAJOR EM ANGOLA ERA INEVITÁVEL A HORA DA MUDANÇA!!

A escritora Elsa Major destacou a necessidade de se colocar Angola em primeiro lugar, contribuindo com acções e ideias para o seu desenvolvimento e afirmação no contexto das nações. De acordo com a escritora, o procedimento deverá ser participativo. “Somos todos chamados a contribuir, sem qualquer tipo de distinção, e colocar Angola em primeiro lugar. Angola é um projecto de todos os angolanos, não podemos nos consubstanciar em minorias”.

Para Elsa Major,as sociedades são dinâmicas e garante que Angola, em algum momento, iria sofrer mudanças substanciais. "Assistimos a alguns indícios políticos e sociais que divisavam novos rumos; era inevitável e é bem chegada a hora da mudança", afirma.

Em entrevista à revista Figuras&Negócios, a autora da obra “Versos Confessos”, aborda, com especial interesse, o actual momento do mercado literário angolano e do seu dia-a-dia

 

Figuras&Negócios  (F&N) – Publicou, recentemente, a sua segunda obra. O que nos pode dizer sobre este trabalho literário?

E.M.: “Versos Confessos” é o título da minha segunda obra poética, cuja abordagem se encerra no mundo e nos fenómenos que se desenvolvem à minha volta e no meu interior: expresso o quotidiano, o amor, a saudade, as dores e as alegrias, com uma pitada de imaginação e revelação de sonhos poéticos. Refere-se também à nossa Angola, enfim, às vivências (…)

F&N – A aposta continua a ser a poesia. Porque não outro género literário?

Elsa Major (E.M).: Sou apaixonada pela poesia. A vida sem poesia não faz sentido! É nela onde encontro a minha essência e por isso a minha predilecção. Não consigo imaginar um mundo sem pinceladas poéticas... A sociedade precisa de poesia, sensibilidade e de amor.

Os outros géneros literários também têm lugar na minha vida literária e oportunamente colocarei à disposição da sociedade.

F&N – O que a impulsionou para apostar no mundo das letras?

E.M.: Penso que não se aposta nas letras. A arte de escrever nasce connosco e se desenvolve a medida que se ganham hábitos de leitura, e da escrita - dois exercícios que dependem da exigência e acompanhamento, tanto da família  como da escola. O processo de ensino e aprendizagem deve conter políticas que incentivem as crianças a desenvolverem hábitos de leitura. Felizmente tive uma boa orientação neste sentido, facto que me impulsionou a abraçar a escrita com  responsabilidade.

F&N – Onde ou como se inspira para a sua produção literária?

E.M.: O poeta inspira-se até com o ar que respira, não há um lugar nem momento específico para a inspiração. O poeta vive em constante invasão dos espaços e se, por um lado, o quotidiano o impele a experimentações constantes, por outro lado, a imaginação o eleva a uma criatividade em que a melodia transcende o silêncio e as palavras deixam de ser somente palavras, pois o poema é uma oração e cada verso uma confissão.

Hoje penso que não devemos ficar à espera da inspiração; o hábito pela escrita nos obriga a criar ambientes propícios e espaços inspiradores para o deleite.

F&N  – Como caracteriza o estado actual da literatura angolana?

E.M.: Observamos uma melhoria na literatura em Angola. Deixamos de constatar a letargia de há alguns anos e seguimos com atenção o aparecimento de mais escritores, produção de mais obras literárias, e de vários géneros. A juventude surge com a sagacidade que os tempos impõem, pese embora o facto de que as edições de livros terem custos muito elevados, factor que impede, sobremaneira, o maior e cabal desenvolvimento da literatura em Angola. Há, todavia, um longo caminho a calcorrear, e todos somos chamados a unir sinergias para alcançarmos o objectivo almejado, o que implica colocar livros no mercado em quantidade e qualidade, redução dos preço dos livros, aumento de bibliotecas e criação de bibliotecas nas escolas, desenvolvimento de políticas e projectos para incentivar o gosto pela leitura e pela escrita, essencialmente em crianças e jovens.

Neste contexto, as organizações focadas na literatura têm esta responsabilidade.Porém, cabe essencialmente ao Executivo Angolano, isto é, aos Departamentos Ministeriais afins, implementar as políticas que concorram para o desenvolvimento da literatura de qualidade e, com certeza, os escritores angolanos estão dispostos a participar em todo este processo.

F&N – Diz-se que o mercado regista escassez em termos de produção. O que se pode fazer para se reverter o quadro?

E.M.: É verdade que se regista muita escassez de produção local, pois a maior parte dos livros publicados são editados fora do país. Em Angola a produção fica muito onerosa, o que dificulta a edição de obras no mercado. Este facto impede o desenvolvimento e a expansão da literatura angolana, dando lugar ao encarecimento dos livros.

É evidente que o último aspecto que atrás referi também contribui para que a camada infanto-juvenil deixe de  ter o livro como um amigo predilecto.

F&N  - O que deve ser feito para que não haja tanto custo?

E.M.: Compete às instituições do Executivo Angolano, vocacionadas para o efeito, executar e implementar as políticas que concorram a redução dos custos de edição das obras. Um país sem leitores é um país sem esperança, sem futuro.

F&N - Que acções podem contribuir para o incentivo ao gosto pela leitura no seio da juventude?

E.M.: Aumentar o número de bibliotecas em escolas nas comunidades, incentivar e dar liberdade de escolha aos jovens dos temas, géneros literários, leitura e escrita constitui um desafio para o país. É necessário estabelecer parcerias entre a escola e a família, utilizar as tecnologias para estimular o gosto pela leitura e escrita criativa.

F&N – Até que ponto a Lei do Mecenato pode ajudar para que o livro chegue a um preço mais acessível ao consumidor final?

E.M.: Atendendo que a Lei do Mecenato prevê as isenções fiscais, a sua implementação provocará a redução de custos na produção dos livros e concomitantemente um preço mais justo.

F&N - Aponta-se à nova geração muitas deficiências. Não acha que está na hora de os mais velhos promoverem mais acções que levem a camada infanto-juvenil a mudar de atitude perante a sociedade?

E.M.: As políticas do Executivo em relação a educação e a cultura e a respectiva implementação, constituem as marcas basilares para a criação do homem novo, e isto é uma responsabilidade do Estado. A família e a sociedade devem evidentemente contribuir para o fortalecimento dessas políticas.

F&N - Como vê a convivência entre os escritores mais velhos e os mais novos?

E.M.: Tem melhorado substancialmente e nota-se maior entrosamento entre os mais velhos e mais novos, sem descurar as diferenças que as considero legítimas. A medida que o tempo passa, mudam-se os estilos, as perspectivas, os interesses. Contudo, a qualidade depende em última instância de algumas editoras, por falta de critério e controlo de qualidade das obras para as colocar no mercado.

F&N - A política do livro em Angola já satisfaz?

E.M.: Ainda não satisfaz, porque o livro deve constar das prioridades do país, ser de abrangência total, inequívoca e não ficar somente em algumas capitais de províncias. O livro deve chegar em todos os municípios e comunas, para educar e prover o desenvolvimento são da mentalidade das crianças e dos jovens.

F&N - Como o Estado deve actuar para consolidar a questão da identidade nacional e promover da melhor forma a cultura angolana no estrangeiro?

E.M.: Somos um país que tem um número considerável de diplomas para dar resposta às questões peculiares da sociedade,mas pecamos na falta de implementação e, depois, tudo cai em letra morta.

A promoção pode acontecer de dentro para fora de Angola ou incentivar os escritores, artistas e compositores angolanos que residem no estrangeiro a fazerem parte de um plano de acção previamente concebido pelo departamento ministerial correspondente para o efeito. Confesso que será mais produtivo e menos onerosa a segunda proposta, nesta fase - contudo, permitirá a divulgação e promoção efectiva da nossa cultura no exterior do país. Figuras como Barceló de Carvalho “Bonga”, José Luandino Vieira, Isabel Ferreira, Waldemar Bastos, Orlando Sérgio, Érica James, Dila Moniz, Ondina Ferreira, entre outros, são exemplos claros de promoção da cultura nacional no estrangeiro.

F&N - Como vê hoje o país no novo ciclo político?

E.M.: As sociedades são dinâmicas e é evidente que Angola, em algum momento, iria sofrer mudanças substanciais. Assistimos a alguns indícios políticos e sociais que divisavam novos rumos; era inevitável e é bem chegada a hora da mudança.

O processo é irreversível e a liderança deve ser firme nas suas posições e decisões. Contudo, a prudência aconselha também a tender para uma vertente de concertação interna, de forma a salvaguardar os interesses políticos e sociais já granjeados com muito sacrifício, pois momentos há em que se fica com a impressão de que se está a perder o norte.

F&N – Acha que a sociedade está a conviver da melhor forma com essas mudanças?

E.M.: Com toda a certeza e pelo que observamos, este país viverá um período de mudanças profundas e constantes, a curto e médio prazos, até entrarmos nos carris. Os jovens estão ávidos pelas mudanças!Hoje são agentes activos da política, fala-se e discute-se em liberdade em todos os locais e isso é muito importante. É na juventude que a adrenalina permite aos jovens participarem nos grandes desafios sócio- políticos e sem medida, o fervor patriótico fala mais alto, pois a defesa dos ideais da pátria garantir-lhes-á um futuro melhor.

F&N - Como pensa que a sociedade civil deve actuar, nesse novo quadro político?

E.M.: O procedimento deverá ser participativo. Somos todos chamados a contribuir sem qualquer tipo de distinção e colocar “Angola” em primeiro lugar. Angola é um projecto de todos os angolanos; não podemos nos consubstanciar em minorias.

F&N– De maneira global, que futuro antevê para Angola e quais os principais desafios?

E.M.: Tenho esperança num país melhor, sem desigualdades, onde o Estado desempenhe o seu verdadeiro papel, em atender às necessidades do povo, e desmistificar o dilema em que o povo tenha que agradecer ao governo porque ofereceu energia eléctrica, um pouco de água de um chafariz, um posto médico ou um hospital, escola e saneamento básico.

Espero poder ver resolvidos os problemas da educação, saúde, alimentação, saneamento básico, habitação, assistência aos idosos, redução da pobreza extrema, e dos efeitos da seca, emprego para os jovens, enfim… ainda não estamos bem. 

 

QUEM É ELSA MAJOR ?

Elsa M. Ventura Major C. Castellanos, natural de Namibe - Linguista. Professora de vários níveis de ensino e formadora em diversas áreas.

Membro de organizações desportivas – dirigente desportivo, entre outras exerceu funções públicas e administrativas em alguns Departamentos Ministeriais.

Começou a escrever pequenos versos ainda adolescente para complementar quadros de espectáculos culturais em associação infanto-juvenis e políticas.

Assina epílogos e prólogos de escritores e argumenta discretamente participações nas áreas de escrita e conceitos literários.

 

OBRAS PUBLICADAS 

Versos Confessos” Poesia – 2019 – Edições Colibri – Lisboa;

“Sensações, Emoções, Impressões” Poesia - livro apresentado em Março 2010, Editorial Minerva, Lisboa (Portugal) e em várias províncias de Angola.

Co-autora da Antologia “Do Infinito”, Colectânea de Poesia Lusófona pela Editorial Minerva, (2010) Lisboa (Portugal);

Co-autora em vários volumes da obra “Poesis” , Antologia de Poesia e Prosa Poética Portuguesa Contemporânea - Lusofonia, Editorial Minerva, Lisboa (Portugal) 1999-2011, Lisboa;

Co-autora da obra “Janelas do Uni-verso” Colectânea de conto e Poesia da Lusofonia pela Editorial Minerva, (2010) Lisboa (Portugal);

“Eclética” Colectânea (vários géneros literários)  pela Edições Colibri, Lisboa 2017, Lisboa.

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