FIGURAS DO MÊS

 
29 de setembro 2015 - às 10:59

ELSA BARBER: PEQUENOS NEGÓCIOS GARANTEM A SATISFAÇÃO DAS FAMÍLIAS

A jurista Elsa Barber lançou recentemente o livro “Negócios Sustentáveis em Angola”, que faz uma interessante e inovadora abordagem de pequenos negócios, exercidos por cidadãos em busca do sustento, um trabalho que serviu de base para uma conversa onde tentamos entender melhor esta realidade e o impacto que tem na nossa economia

 

Figuras & Negócios (F&N) - Acabou de lançar a obra “Negócios Sustentáveis em Angola”, o que a motivou a escrever este livro?

Elsa Barber (E.B.): Em primeiro lugar impressionou-me a diversidade de propaganda, muitas vezes mal escrita na periferia da cidade, dando a conhecer alguns negócios que são desenvolvidos dentro do perímetro daqueles que ali habitam. No início da recolha, intitulei-os de “Negócios Populares”. A minha maior pretensão era fazer o registo, no actual momento da existência das diferentes tipologias destes negócios, exercido por pessoas que na maioria das vezes têm poucos recursos ou seja uma espécie de catalogação dos mesmos e também contribuir para a inclusão económica destas pessoas.

F&N - Na obra fala de pequenos negócios (informais), como foi o processo de recolha de informação? 

E.B.: Embora o maior enfoque seja o sector informal, retrato também alguns negócios que já foram formalizados como por exemplo os táxi, azuis e brancos, bem como outros que devem ser banidos, por perigarem muitas vezes a vida humana. O processo de recolha de informação, foi por sondagem dos vendedores ambulantes e dos vendedores das zonas onde estes negócios proliferam, sondei também administradores de mercados, realizei visitas de estudo, para conhecer as terminologias e as ferramentas financeiras, regentes neste ambiente de negócios. Para finalizar elaborei o mapeamento dos negócios, enquadrando-os por áreas de acção.

F&N - Neste tipo de negócio a maior parte dos comerciantes são mulheres?

E.B.: Em alguns ramos de actividade os maiores actores são mulheres, mas há outras que são maioritariamente exercidos por homens, como no caso dos lavadores e arrumadores de caros e robuteiros.

F&N - Apesar de serem pequenos negócios movimentam elevadas somas de dinheiro?

E.B.: Alguns negócios perduram no tempo e garantem a satisfação diária das necessidades das famílias e de outros cidadãos, movimentando grandes somas de dinheiro. Muitas vezes pelo fraco acesso aos produtos financeiros, estes são movimentados fora do circuito bancário, o que permitem que criem Clubes informais de poupança. Das pessoas que entrevistei, sobretudo mulheres, tinham como prioridades as seguintes: pagamento das propinas dos filhos; construção de uma habitação; Início de um novo negócio.

F&N - Há no livro, por exemplo, o caso dos controladores de carros na rua que chegam a movimentar por mês 313.500 Kwanzas, é uma soma considerável para um mercado informal.

E.B.: O exemplo que cito é de um estudo real, de um jovem da província de Benguela que veio tentar a vida em Luanda, lava os carros na baixa de Luanda, muito cedo, sem deixar rastos no asfalto, face as restrições administrativas do governo da província em relação a esta prática, depois dedica-se a arrumação de carros nas horas seguintes, ajuda a transportar mercadorias dos habitantes em prédios nas redondezas e nos intervalos é engraxador. Movimentam-se somas consideráveis no Mercado Informal, há kixiquilas de 100 pessoas de kz.1.000,00 a kz 5.000,00 ou mais, por vezes de uma semana, 15 dias ou um mês.

F&N - Com este tipo de negócios informais o estado perde muito dinheiro em impostos. É possível fazer algo para colocar estas pessoas no circuito formal?

E.B.: Se estes movimentos de dinheiro fossem feitos no sector bancário haveria maior controlo da nossa moeda. Creio que já existem estratégias para a contribuição desta franja ao erário público, ou seja, uma espécie de imposto social, praticado noutras paragens do mundo. 

F&N - Aborda no livro negócios de alimentos prontos, mas este tipo de comércio nos moldes em que se faz, muitas vezes em meio a lixeira, é uma preocupação para a saúde pública.

E.B.: Os moldes em que muitas vezes os produtos alimentares confecionados são comercializados constituem verdadeiros atentados à saúde pública, mas é preciso educar, sensibilizar de forma contínua, para que haja mudança de hábitos, aliás se as pessoas recorrem a estes negócios é para salvaguardarem a sua subsistência. Infelizmente as pessoas que se dedicam a este negócio têm poucos conhecimentos, poucos recursos, mas precisam de educação contínua e presencial e afinal salvaguardam uma ocupação, um emprego.

F&N - Dirigiu o Instituto Nacional do Consumidor, o que mais a marcou nesta experiência?

E.B.: Tive experiências marcantes, sobretudo na mediação de conflitos com os prestadores de serviços, era gratificante quando resolvíamos conflitos com sucesso, pois o consumidor saía a ganhar. Outra experiência, foi ver os Direitos do Consumidor plasmados na constituição angolana.

F&N - No nosso país há mecanismos suficientes para a defesa dos direitos do consumidor?

E.B.: Existem, os instrumentos legais suficientes, para a garantia dos direitos do consumidor.

F&N - Mas seria necessário um amplo trabalho, antes de mais, de consciencialização do consumidor sobre os seus direitos?

E.B.: Este trabalho tem sido feito para melhor consciencialização dos consumidores atendendo que hoje os direitos dos consumidores vêm consagrados na Constituição. 

F&N - Praticou desporto, que lembranças guarda desta época?

E.B.: Pratiquei Ginástica Rítmica no Petro Atlético de Luanda, fui professora no mesmo Club de ginástica Educativa e Rítmica, não ganhei nenhuma medalha, mas participei num estágio no Benfica de Portugal, ao abrigo do contrato do Abel Campos.

F&N - Nesta altura, em termos profissionais e pessoal, quais são os seus sonhos?

E.B.: Os novos desafios, para mim, são sempre gratificantes, estou sempre disponível para aprender e fazer coisas novas.  

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