SOCIEDADE

 
2 de maio 2016 - às 08:03

DOENÇA FUROU A FRÁGIL VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA FEBRE AMARELA: DRAMA OU TRAGÉDIA?

No mês de Dezembro transacto, bateu o gongo, o epicentro do surto, depois epidemia, tinha local de “nascimento”: o bairro Zango,em Viana. Foi certamente um caso importado  que passou a nossa frágil vigilância epidemiológica, porque, de facto, não temos um sistema funcional. Lembramos que em 73/74, a febre amarela estava declarada erradicada do território angolano. Assim é mister afirmar que houve distração sanitária

 

Falsos experts falam de associação febre amarela/ lixos/ e quejandos. Redonda mentira. O mosquito da febre amarela, o “aedes aegipt”, adora águas limpas, não o lixo,  e nem sequer as águas paradas, sujas e residuais próprias do saneamento básico deficiente. Assim, são as águas limpas das nossas casas armazenadas em tanques, outros reservatórios não fechados, as garrafas e pneus domésticos, os verdadeiros criadores dos mosquitos da febre amarela, também causador da dengue e do catolotolo.

Para haver doença e disseminação, os mosquitos devem estar contaminados, ou seja, picar primeiro uma pessoa doente e depois depositar a doença em pessoa saudável. Portanto, o mosquito da febre amarela é mais doméstico e não é do lixo, apesar de haver espécies selvagens. Este é um aspecto a não descurar na luta anti-vectorial: mais educação sanitária e vigilância epidemiológica.

O que sentimos ?- Após  7-14 dias (média 10 dias)  da picada do mosquito contaminado, começam as primeiras  queixas, semelhantes à gripe, malária ou outra viroses. Habitualmente, 50% dos casos são letais. A cefaleia, o mal-estar, as dores musculares e a febre leve estão geralmente presente. Nas semanas a seguir, há agravamento  das queixas, da febre, das dores e pode haver sangramento na boca, nariz, ouvidos, órgãos internos, e, daí, os óbitos que são a marca da epidemia que  se saltou de Luanda para o Bié, Huambo e Lubango.

 

O que fazer? - A vacina protege em mais de 95% as pessoas. Três meses depois,  nem metade do país está vacinado. Luanda (epicentro da epidemia) ainda não vacinou metade das pessoas. A desculpa da crise económica não tranquiliza. É preciso acabar com a epidemia rapidamente, com medidas anti-vectoriais, muita educação sanitária e, sobretudo, muita vigilância epidemiológica. 

As brigadas sanitárias deviam inspeccionar com rigor os quintais e casas. O exército pode participar nestes esforços; vacinar é preciso e era para ontem… Apesar dos números ainda pouco alarmantes (cerca de 200 mortos e quase 1000 casos suspeitos, na altura em que redigia estas linhas), não há motivos para tranquilidade.

Nas últimas semanas, com a crise das pediatrias e do sistema público, mostrou-se as fraquezas no combate à doença. A febre amarela e a malária matavam, juntas, 50 crianças por dia em dada altura. Há  drama ou tragédia ? Tranquilidade é que não é certamente. E os discursos não resolvem, mas sim,  acções rápidas e determinadas. 

 

NOVAS E VELHAS EPIDEMIAS EM ÁFRICA

POLÍTICAS SANITÁRIAS SÃO UM DESASTRE

 

Os séculos XX e XXI brindaram ao mundo, em particular à África, com novas, aparentemente novas epidemias, onde a lógica pressupõe a existência de novas estirpes, cada vez mais virulentas e letais. Os mitos e tabus culturais  têm contribuído muito, além  do degradante saneamento básico, da má nutrição e outros ingredientes explosivos,  tal como a gestão das políticas sanitárias no continente-berço da humanidade, tida como imperfeita e absolutamente desastrosa

 

A lepra continua a atacar, a tuberculose associada ao HIV-SIDA continuam a atropelar os sistemas de saúde. A malária (uma eterna maldade), a Ebola voltaram a assustar, o Marburg deixou marcas, a Dengue ainda mata, a febre amarela voltou a atacar, quando já havia sinais de erradicação em muitos países do continente.  Andam por aí o Zika a fazer das suas e a cólera que há mais de dois séculos criou raízes no continente.

Enfim, “epidemia e endemia” não saem do léxico africano. As estatísticas “sanitárias” são negras, da cor do continente berço. O luto, a dor,a “hemorragia” demográfica continua. Cerca de 2 milhões de crianças africanas morrem todos os anos de diarreia e má- nutrição; outras centenas de milhares de pessoas  morrem de tuberculose e a malária molesta 500 milhões de africanos por ano.

Quem salva o continente ? - Milagres existem. Centenas de elefantes brancos (hospitais grandes), não resolvem exclusivamente o problema. A municipalização da saúde ajuda, a maior cobertura vacinal faz de facto profilaxia, os alimentos e a boa qualidade da água minimizam muitas makas.

A eterna “educação sanitária” e a vigilância epidemiológica são o verdadeiro passaporte para o bem estar e saúde em África, longe de focos, surtos e epidemias. É necessário muita investigação, mais laboratórios de referência , pois não bastam Dakar e A.Sul, Joanesburgo.

Os vectores, e agentes devem ser estudados, todos os dias; deve-se prestar atenção às novas estirpes e novos vectores. Portanto, Angola devia ter um laboratório de referência, ao invés das amostras, as viagens para Dakar, para confirmação.

É imprescindível o continente ter um sistema integrado de vigilância epidemiológica, funcional e dinâmico. Seria a “janela sentinela” para a detecção de sinais de surtos. Uma Universidade de Epidemiologia em África seria solução para formar investigadores e vigilantes. Angola podia liderar o processo, aproveitando a presidência rotativa do Conselho de Segurança na ONU.

Em suma, vigilância epidemiológica precisa-se  para vencer os surtos e epidemiológicos. Formação aos magotes destes técnicos vão certamente revolucionar os sistemas de saúde em África, pois os hospitais têm outra vocação; medicina curativa pura e exclusiva. A educação sanitária “ agressiva” continua a ser, a par da vacinação, os melhores métodos de luta contra doenças transmissíveis. 

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