DOSSIER

 
23 de dezembro 2015 - às 07:37

DE ONDE VEM O DINHEIRO DO ESTADO ISLÁMICO?

Comércio ilegal de petróleo, sequestros, extorsões e, até mesmo, o tráfico humano estão entre as actividades que têm gerado lucro para a organização terrorista que burla embargos internacionais e já registou ganhos de 1 milhão a 3 milhões de USD por dia em 2014

 

Armas, veículos, salários dos empregados, vídeos de propaganda, viagens internacionais - todas estas coisas custam dinheiro. Os recentes ataques terroristas em Paris, que o Estado Islámico reivindicou como seu próprio trabalho, sugerem que a organização não economiza no financiamento das suas acções. O subsecretário do Departamento do Tesouro e Inteligência Financeira sobre Terrorismo, David Cohen descreveu o Estado Islámico em Outubro passado como "provavelmente a organização terrorista mais bem financiada que temos confrontado", com 'bolsos profundos' que permitiram ao grupo realizar campanhas mortais no Iraque, Síria e outros países.

Mas onde é que o Estado Islámico consegue todo esse dinheiro? Acontece que os métodos de financiamento do grupo são muito diferentes de outras organizações terroristas proeminentes e muito mais difíceis de serem inibidos pelo Estados Unidos e outros países que tentam combatê-lo. Ao contrário de muitos grupos terroristas, que se financiam principalmente através de doadores ricos, o Estado Islámico tem usado o seu controle sobre um território que é aproximadamente do tamanho do Reino Unido e lar de milhões de pessoas para desenvolver canais de receitas diversificadas que o tornam mais resistente às ofensivas internacionais.

Normalmente, os esforços dos EUA para cortar o financiamento aos terroristas se concentram no controle e cancelamento do fluxo de fundos através do sistema internacional. Desde 11/9, os Estados Unidos e outros países bem como as organizações internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e as Nações Unidas criaram iniciativas para detectar e parar o fluxo de fundos para os terroristas. Líderes do Grupo dos 20 emitiram um comunicado depois dos acontecimentos de Paris, chamando  a atenção para uma melhor coordenação, que visa cortar os canais de financiamento a organizações terroristas, incluindo o intercâmbio de informações e congelamento de bens terroristas.

Embora o Departamento do Tesouro diga que estes esforços têm perturbado as redes terroristas e vidas salvas, o Estado Islámico é diferente. O grupo acaba por evitar as finanças internacionais, em busca gerar fundos no seu próprio território ou imediatamente ao longo das suas fronteiras porosas.

"Quanto a interromper as actividades que geram receita ao EI, como extorsão e outros crimes locais, reconhecemos que as ferramentas do Tesouro não são particularmente bem adequadas para a tarefa", disse Cohen em Outubro.

As estimativas sobre o montante exacto que o Estado Islámico ganha com essas actividades tendem a variar muito e oscilam ao longo do tempo, mas o certo é que o grupo é muito diversificado - o que significa que, se uma fonte de financiamento é desligado, o grupo pode ligar para outros parceiros com o objectivo de gerar receita. Os seus principais métodos de geração de dinheiro parecem ser a venda de petróleo e antiguidades, bem como tributação e extorsão. E os recursos financeiros do grupo têm crescido rapidamente, já que ele conquistou mais territórios. De acordo com estimativas da 'Rand Corporation', a receita total do Estado Islámico passou de um pouco menos de 1 milhão de dólares por mês no final de 2008 e início de 2009 para talvez 1 milhão a 3 milhões por dia, em 2014.

O Estado Islámico tem outras despesas, além da realização de ataques terroristas e guerras que são travadas na Síria e outros países. O grupo terrorista administra escolas, uma força policial religiosa, um sistema de tribunal islâmico e até mesmo uma autoridade da Defesa do Consumidor. Ele supostamente paga aos seus guerrilheiros, cerca de 400 dólares por mês, o que é mais do que o governo iraquiano oferece a muitos dos seus funcionários. O Estado Islámico define e aprova os orçamentos anuais, e ele usa uma figura oficial como chefe financeiro para gerenciar as suas contas. O grupo Também é "exigente" ao documentar um retorno sobre o investimento para os seus financiadores. O Estado Islámico estabeleceu uma espécie de banco central e até mesmo planejou  a sua própria moeda - embora, na prática, o grupo geralmente use a moeda local, como o dinar iraquiano e a lira turca.

O seu controle de um território extenso, obviamente, dá ao Estado Islámico uma valiosa fonte de financiamento e flexibilidade. No entanto, algumas autoridades norte-americanas têm argumentado que a posse de territórios também pode ser vista como uma fraqueza para o grupo. Manter um estado de 8 milhões a 10 milhões de pessoas, em guerra ao redor de suas fronteiras e financiar a realização dos ataques internacionais são tarefas custosas e difíceis. Sem fundos adequados para fornecer serviços para a população local, as pessoas que vivem nos territórios dominados pelo Estado Islámico podem voltar-se contra o grupo, provocando uma reação que pode acabar com a sua permanência no poder, segundo algumas autoridades dos EUA. Além disso, os relatórios do território que está sob domínio do grupo pintam o retrato de uma sociedade brutal de duas camadas, em que os terroristas e suas famílias vivem bem e a maioria dos outros cidadãos sofrem. Sob esta pressão, a economia se esforça para funcionar, deixando o Estado Islámico cada vez mais isento de pagar tributos.

Outros estudiosos têm apontado que um estado sob poder do Estado Islâmico parece bastante pobre, com um orçamento aproximadamente como o do Afeganistão ou da República Democrática do Congo. Mas considerado como uma organização terrorista, o EI parece rico e diversificado.

Confira abaixo, 12 maneiras pelas quais o Estado islámico gera a sua receita:

 

Petróleo - Os campos de petróleo que têm sido tomados na Síria e no Iraque têm sido uma importante fonte de financiamento para o grupo terrorista. Embora seja relativamente fácil para os Estados Unidos e outros países, impedir as exportações em grande escala, vindas do território dominado pelo Estado islâmico, é muito mais difícil controlar o comércio de petróleo no mercado negro, que supostamente floresce ao longo das fronteiras porosas do território controlado pelo Estado islámico e países vizinhos.

O grupo terrorista refina petróleo, principalmente em pequenas refinarias móveis, depois transporta por navios e caminhões, passando por fronteiras como a da Turquia, onde os corretores de petróleo e comerciantes compram ou permutam o produto. Como o comércio é ilegal, a venda é feita com um grande desconto que pode flutuar descontroladamente. Contrabandistas supostamente usam os serviços de mensagens móveis, como WhatsApp para coordenar o intercâmbio de produtos. Alguns comerciantes podem até ter feito a venda de petróleo do Estado Islâmico de volta para o regime de Bashar al-Assad, o qual irónicamente está a combater a organização terrorista na Síria, de acordo com o Boston Globe.

As vendas de petróleo, inicialmente forneceram grande parte das receitas do Estado islámico, mas estas têm diminuido, desde que os Estados Unidos e outros países lançaram uma ampla campanha de ataques aéreos contra instalações de petróleo e gás do grupo, de acordo com um relatório do "Congressional Research Service", em Abril. Em Outubro de 2014, os EUA tinham supostamente destruído cerca de metade da capacidade de refinação do grupo. Os Estados Unidos também têm procurado identificar e matar corretores de petróleo, encorajando a Turquia a reprimir o contrabando na fronteira.

Os lucros obtidos pelo Estado Islámico com as vendas de petróleo e gás também sofreram uma queda, porque muitos dos engenheiros e outros especialistas técnicos necessários para trabalhar com estes produtos fugiram da região ou foram mortos. O grupo terrorista vem se esforçando muito para recrutar pessoas qualificadas, a exemplo de um vídeo publicado pelo líder do Estado Islámico, Abu Bakr al Baghdadi em Julho de 2014, convocando cientistas, engenheiros, médicos e pessoas com experiência administrativa.

 

Extorsão - Como o Estado Islámico controla um território amplo, ele acaba cobrando diversos impostos das pessoas que ali vivem. Alguns desses impostos são semelhantes aos de um governo normal, enquanto outros se assemelham mais a um tipo de extorsão.

O Estado Islámico estabelece impostos sobre diversas coisas, incluindo produtos vendidos, serviços / utilidades, como electricidade e água (os quais nem sempre funcionam - considerando que em algumas áreas, a electricidade só pode ser usada uma hora por dia), empresas de telecomunicações, retiradas de dinheiro de contas bancárias, salários de funcionários, caminhões que entram no território controlado pelo Estado islámico, postos de controle, entre outros. Assaltos a sítios arqueológicos e comunidades não-muçulmanas em geral também acabam sendo uma fonte de renda. Um relatório da "Thomson Reuters" estima que apenas este sistema de extorsão e tributação poderia gerar aproximadamente 360 milhões de dólares por ano para a organização terrorista.

As pessoas que vivem nas áreas dominadas pelo EI descrevem uma espécie de sistema de duas camadas, onde os guerrilheiros do grupo terrorista e suas famílias recebem uma variedade de serviços gratuitos, incluindo habitação e cuidados médicos, enquanto outros são cobrados com impostos abusivos.

 

Seqüestros - Publicado em outubro de 2014, um relatório da ONU, citou estimativas de que o Estado Islámico conseguiu gerar de 35 milhões a 45 milhões de dólares no ano anterior, apenas por meio de seqüestros, com a exigência de pagamentos de resgates.

Os Estados Unidos e o Reino Unido têm tentado limitar esse canal financeiro, tornando ilegal o pagamento de resgates para organizações terroristas. A política pode parecer muito fria para as famílias que são afetadas por sequestro, mas as autoridades afirmam que isto desencoraja os terroristas de sequestrar estrangeiros (norte-americanos e britânicos, por exemplo).

O Estado Islámico também gera uma quantidade significativa de receita por meio de sequestros / cobrança de resgates nas suas próprias comunidades, actos que tendem a não ser denunciados pela imprensa internacional.

 

Patrocinadores - Apesar de o Estado islámico não ser financiado maioritariamente por doadores ricos como outras organizações terroristas são, essas contribuições ainda são uma importante fonte de sua receita.

Algumas estimativas apontam que o Estado Islámico recebeu até 40 milhões de dólares entre 2013 e 2014, doados por empresários, famílias ricas e outros patrocinadores na Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Muitos desses doadores de elite escolheram financiar o Estado islámico por causa do medo e da animosidade do grupo com relação ao Irão e ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Um relatório da Brookings Institution, em 2013 observou que os doadores no Kuwait foram canalizando centenas de milhões de dólares para vários grupos rebeldes sírios.

Depois, então, que a então Secretária de Estado, Hillary Clinton e outros membros da comunidade internacional criticaram esses países pelo financiamento de terroristas, a Arábia Saudita criminalizou em 2013, o apoio financeiro ao Estado islámico, Al-Qaeda e outras organizações terroristas. Os Emirados Árabes Unidos também parecem ter feito progressos na limitação do financiamento ao terrorismo, de acordo com a Brookings. Mas outros canais de financiamento acabam sendo criados através de organizações de caridade não registadas, que canalizam dinheiro para o Estado Islámico.

 

Comércio de Antiguidades - Considerando que o Estado Islámico invade territórios e impõe o seu domínio sobre estes, acaba tomando também o controle de museus, colecções particulares e sítios arqueológicos, como no caso do Grande Palácio do rei assírio Ashurnasirpal II (do século 9 a.C). Isto deu o grupo terrorista uma oferta extensa de arte preciosas e artefatos históricos. No início deste ano, o grupo teve pelo menos 4.500 locais de interesse cultural sob o seu controle, de acordo com o Grupo de Ação Financeira, sediada em Paris.

Algumas destas antiguidades são destruídas, mas outras são revendidas, muitas vezes passando por mercados da Turquia e da Jordânia, e de lá, indo para países da Europa e outros.

Em Novembro de 2014, Matthew Levitt, do Instituto Washington para Política do Médio Oriente disse a um comité da Câmara que a venda de antiguidades - tanto aquelas roubadas de colecções e as que foram recém-escavadas - foi a segunda grande fonte de receitas do grupo, só ficando atrás do comércio ilegal de petróleo. Outras estimativas norte-americanas colocam o volume total do comércio de antiguidades em mais de 100 milhões de dólares por ano.

 

Bancos iraquianos - O Departamento do Tesouro estimou que o Estado islámico ganhou pelo menos meio bilhão de dólares em dinheiro, aproveitando as sucursais de bancos estatais no Iraque setentrional e ocidental, em 2014.

"Antes de Mosul, os seus recursos somavam 875 milhões de dólares. Depois, com o dinheiro que roubou de bancos e do valor gerado pelo saqueamento de suprimentos que seriam destinados a militares, eles poderiam adicionar mais US $ 1,5 bilhão a este montante", informou um oficial da inteligência dos EUA ao jornal 'The Guardian'.

 

Vendas de outros bens saqueados - A tomada de territórios pelo Estado Islámico no Iraque também leva o grupo à aquisição de veículos norte-americanos, armas e munições que podem ser utilizados ou revendidos. O grupo também já teria revendido equipamentos de construção, geradores, cabos eléctricos, animais, móveis e outros bens.

 

Imóveis - De acordo com o site Niqash.org - mantido em parceria com uma organização alemã sem fins lucrativos - o Estado Islámico vem gerando dinheiro com o aluguer e leilão das propriedades de pessoas que foram assassinadas ou fugiram das áreas ocupadas.

De acordo com uma análise de documentos do Estado Islámico de Mosul, os bens que foram confiscados pelo grupo terrorista podem ser alugados para os moradores locais, tornar-se bases para guerrilheiros ou ser reconstruídos com novas estruturas.

 

Combatentes estrangeiros - Alguns combatentes estrangeiros que viajam para participar do Estado Islámico trazem consigo moedas fortes de seus países - embora esta pareça ser uma fonte de financiamento relativamente limitada para a organização terrorista.

 

Agricultura - O Estado Islâmico agora controla algumas das partes mais férteis do Iraque e da Síria, que produzem uma grande quantidade de trigo e cevada. De acordo com a 'Thomson Reuters', se essas culturas forem vendidas com um desconto de 50% no mercado negro, isto ainda poderia gerar mais de 200 milhões de dólares em receita anual para o grupo terrorista.

Outros produtos agrícolas e terras são simplesmente roubadas de agricultores. Um refugiado sírio, entrevistado pelo 'Washington Post' disse que o Estado Islámico assumiu 10% da safra de trigo da sua família. Em alguns casos, o trigo é moído em moinhos de farinha de propriedade do Estado, de acordo com relatórios, e posteriormente vendido para a população local e padarias.

 

Fosfato, cimento e enxofre - A área que o Estado Islámico tem dominado é rica em recursos naturais, incluindo fosfato, cimento e enxofre. A 'Thomson Reuters' estima que os recursos de fosfato podem gerar cerca de 50 milhões de dólares por ano para o Estado Islámico a preços com desconto, enquanto os ácidos sulfúrico e fosfórico podem gerar 300 milhões.

 

Tráfico de seres humanos - Muitos relatórios têm documentado a prática do Estado Islámico de vender mulheres e meninas para "maridos"que as comprem ou para serem escravas sexuais, incluindo muitas mulheres das minorias cristã, yazidi e Shia-Tukoman. 

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