DOSSIER

 
23 de dezembro 2015 - às 07:35

DAVID ALBERTO JÁ “A PAZ É UM BEM SAGRADO”

David Alberto Já, Secretário-Geral da Comunidade Muçulmana em Angola, é o nosso convidado em Página Aberta para falarmos sobre um tema da actualidade, mormente ligados à comunidade muçulmana a nível internacional e os atentados terroristas desencadeados em diversos países, tendo em atenção o crescimento dos fiéis dessa comunidade em solo angolano. Durante a conversa, o nosso interlocutor reiterou que os conflitos no Médio Oriente e em alguns países africanos têm motivação política e que é preciso analisar a questão do terrorismo com profundidade. Quanto a Angola, revela que se estima que existam 800 mil muçulmanos mas garante que “podemos dormir descansados” pois não existem correntes radicais no nosso País

 

Figuras&Negócios (F&N) - Como se deu o seu encontro com a religião muçulmana? 

David Alberto Já (D.J.): Quando ainda estava na escola, na oitava classe, li alguns livros sobre o Islão, li um ivro em uma semana e devolvi porque me tinham emprestado, e, depois um segundo. Sou natural do Saurimo, província da Lunda-Sul, em 1992 aquando das escaramuças, no processo em que estavam a prender alguns estrangeiros e a repatriá-los deparei-me com alguns indivíduos provenientes do Leste de África, incluindo o mais velho Tchidiane, que é um indivíduo do Senegal. Nas cadeias, onde na altura eu prestava serviço, porque sou quadro do Ministério do Interior, recebíamos alguns indivíduos estrangeiros que me contavam as suas histórias, mais tarde pediram-me um espaço para que eles, como muçulmanos, tivessem a possibilidade de rezar. Falei com o meu efectivo e eles disponibilizaram o espaço para a prática da oração, e neste contexto  comecei a entrar em contacto com o que era de facto o Islão e acabei por me tornar muçulmano. Em 1998 beneficiei de uma bolsa de estudos, na República do Sudão, onde tive formação superior em Teologia Islâmica e Sociologia, fiz outro curso na Arábia Saudita, de dois anos, e só voltei a Angola em 2002. 2004 foi um período de tensão para a nossa comunidade, muitas mesquitas foram encerradas, principalmente no município do Cazenga, na província de Luanda. Quando se perguntava o motivo, a Polícia dizia que era uma ordem superior, essa ordem superior que nunca aparecia.

F&N: E nesta altura qual é o número de muçulmanos em Angola?

D.J.: Estimamos que sejam oitocentos mil muçulmanos em Angola, as mesquitas estão cheias, muitos fiéis rezam ao relento; por exemplo, a mesquita do Hojy-ya-Henda congrega cerca de 6 mil fiéis. O Islão apareceu em Angola em 1967, as primeiras comunidades foram passando o testemunho e neste momento temos 64 mesquitas em todo país, embora algumas estejam encerradas. Por exemplo, na Lunda-Norte são 12 mesquitas. 

F&N: Sentem pressão em relação ao vosso credo? 

D.J.: Exacto, a lei nº 2, das liberdades de consciência e de religião diz que as pessoas podem rezar livremente, estender a sua confissão religiosa para, no mínimo, dois terços a nível do território nacional, e diz mais: que o culto religioso é lícito e facultativo. A nossa Constituição consagra a liberdade de religião e não pode surgir uma outra lei ordinária a contrariar este direito, sob pena de inconstitucionalidade material.

F&N: Quando rezam em casa as pessoas estão a exercer o seu credo mas quando já se criam mesquitas, essa religião não deveria seguir todos os pressupostos para a sua legalização em Angola?

D.J.: Os pressupostos estão lançados, criar um templo a lei permite, antes de ser legalizado a primeira coisa é fazer o templo, onde poderá reunir 100 mil fiéis, então, como é que vou conseguir 100 mil fiéis se estou a rezar na minha casa? Temos de ter um templo, esse templo tem de ter um nome e para nós chama-se mesquita, para os cristãos chama-se igreja, a lei diz que devemos ter cerca de dois terços dos nossos templos a nível do nosso território nacional, estamos a dizer, aproximadamente em 15 províncias no mínimo, mas quando nós, os muçulmanos, requeremos, cumprimos com os actos administrativos, o nosso pedido é negado. 

F&N: Como é que vê a relação da comunidade muçulmana com o resto da população angolana?

D.J.: Em qualquer canto do mundo o muçulmano sempre é bem-vindo, em minha casa temos pessoas cristãs e a relação é boa, a população é sociável com os nossos irmãos que escolheram Angola como a sua segunda República, têm os seus pequenos negócios, são aceites, até dão crédito de algumas mercadorias aos angolanos. A relação é tão boa! 

F&N: Há muitos angolanos que se  converteram ao Islão?

D.J.: O angolano, pela sua natureza, é religioso, há conversões em todas as mesquitas. Por exemplo, cá em Luanda, onde eu resido há 15 anos, o Islão é aceite, todas as semanas indivíduos convertem-se ao Islão. Temos orações às sextas-feiras em cada mesquita, onde em média cinco pessoas se convertem ao Islão. 

F&N: Qual a alternativa para essas pessoas que vivem nas áreas onde as mesquitas foram encerradas?

D.J.: Não estão a rezar, estão impedidos de rezar. É triste, triste ver que você tem uma fé, acredita numa coisa, que é um hábito social que não é violento e é impedido de rezar nas mesquitas. 

F&N: No âmbito disso, como vê as iniciativas de diálogo ecuménico? Em Angola, já podemos falar em diálogo inter-religioso? 

D.J.: Olha, o Papa esteve no Bangui, na República Centro Africana, rezou numa das mesquitas, o Papa tem um diálogo permanente com outras religiões mas cá os nossos irmãos não aceitam dialogar. Eu, na altura, como presidente da Comunidade Muçulmana em Angola, enderecei várias cartas à igreja Católica, o Núncio Apostólico da igreja Católica recebeu-me mas um diálogo inter-religioso, de encontro de fiéis, não existe, por vezes há cortesia, mas um diálogo verdadeiro não tem havido, apesar do apelo. Temos convidado, por exemplo, a igreja Católica, que tem um pendor de igreja/estado.

F&N: Falando da realidade internacional, como é que olha para os últimos acontecimentos onde aparecem pessoas muçulmanas radicais e que se envolvem em atentados? 

D.J.: Bem, como sabe a sociedade não é homogenéa, é interactiva, isso tem, de facto, alguns laivos que se reflectem em casos políticos, ou seja, se tivermos em atenção veremos que os países alvos são aqueles que desestabilizaram outros países e esses cidadãos, como são muçulmanos, por vezes, ao revindicar algo que foi subtraído, então, por vezes, em nome da religião, talvez para chamar atenção dão respostas com alguns actos mais contundentes, que, de certo modo, ofendem o poder e a moral humana no século XXI, onde que o processo da globalização é cada vez mais assente entre as sociedades mais civilizadas. Estamos a falar, por exemplo, de países alvo como a França e Estados Unidos. No contexto de relações internacionais entre os estados, podemos acompanhar o problema do Iraque que foi atacado, assim como a Líbia, na verdade os cidadãos desses países revindicam algum bem que foi subtraído, então, as vezes, em resposta procuram alguns meios menos cívicos para revindicar este direito. 

F&N: O que está a defender é que, na verdade, estamos diante de um conflito político, ao qual a religião também acaba por ser conectada. É essa a essência do problema? 

D.J.: A essência é um assunto político, porque essas pessoas não atacam por atacar. Por exemplo, nunca ouvimos que Portugal, que não se envolveu nessas guerras contra esses países, foi atacado porque as motivações dos ataques não são religiosas, mesmo nos Estados Unidos os muçulmanos estão lá presentes, mais de 12 milhões de habitantes dos Estados Unidos da América são muçulmanos, existem muitos muçulmanos dentro da governação norte -americana. Em causa está, também, o factor económico, por vezes o lobby económico leva a que alguns países depois coloquem as multinacionais para explorar o petróleo, que é o chamariz desses conflitos, a maior parte desses países onde há conflitos são produtores de petróleo. Por exemplo, o Boko Haram, na Nigéria, nas suas acções até mata muçulmanos, de princípio diziam que os muçulmanos estão a atacar os cristãos mas agora as pessoas do Boko Haram estão a atacar todo o mundo. O Presidente da Nigéria é muçulmano e está no encalço desses terroristas, logo não é uma luta com motivação religiosa mas com motivação política, é assim que temos que entender, os média é que dão uma visão errada do problema.

F&N: Não será que isso também é provocado pelo comportamento dessas pessoas muçulmanas, que praticam actos violentos? 

D.J.: Não, e vou justificar: temos de ter um jornalismo investigativo e não de sensacionalismo. Por exemplo, quando em Roma é apanhado alguém que pertence aos grupos de narcotráfico, aos carteis de droga, não se fala que é um católico, os maiores centros de narcotráfico são a Itália, Brasil e Colômbia e são católicos; agora, porquê que um muçulmano, quando prática um acto nocivo, é identificado ou conotado com a sua religião? 

F&N: Tenho que fazer-lhe algumas questões: o autodenominado “Estado Islâmico” diz que quer implementar Sharia, com base no Islão e apresentam-se, inclusive, como grupos islâmicos. Não olha também para essa questão como estando na base do que os muçulmanos envolvidos nestes movimentos, assumem?

D.J.: Não! Por isso digo que o jornalismo deve ser investigativo, quem criou esse grupo, o chamado Estado islâmico, foram os americanos, agora, os interesses mudaram, mesmo o Bin Laden foi criado, ele, na altura jovem da família real lá da Arábia Saudita, o pai dele era engenheiro da construção, quase todas obras na Arábia Saudita foram executadas pela empresa da sua família, Bin Laden foi recrutado pelos Estados Unidos, para combater os Russos que tentavam entrar no Afeganistão, para estancar a expansão do comunismo naquela terra, mas os interesses depois mudaram e Bin Landen tornou-se inimigo, então, é para ver que afinal de contas, no fundo da questão não está a motivação religiosa; é uma motivação de interesse porque na relação de ontem talvez o inimigo era comunismo e as potências viram que agora o inimigo é ideológico. 

F&N: Mas precisamos de abordar a questão na sua essência. A realidade é que são pessoas muçulmanas que pertencem a esses grupos e que, por exemplo, no caso do denominado Estado Islâmico, que actualmente é o mais mediático, apresenta-se como sendo estado islâmico e que quer implantar o islão ao mundo inteiro. Vocês não assumem essa questão? 

DJ: Sim, mas cada realidade é uma realidade, nós somos africanos, somos angolanos, Angola é una e indivisível; no caso desses países do Médio Oriente talvez tenham a sua motivação, a motivação do território. Ter um estado islâmico não é mal nenhum, isso depende das próprias constituições e aceitação do povo de cada país que decide aplicar uma Sharia num estado. Por exemplo, no Irão aplica-se a Sharia, na Nigéria, tratando-se de um Estado Federal, algumas federações aplicam Sharia, acha que isso é um mal? é uma lei que as pessoas aceitam, se somos religiosos, então, temos que viver àquilo que os mandamentos de Deus dizem. Falando do Estado Islâmico, depende da sua motivação, mas ela não pode ser apresentada do ponto de vista religioso. 

F&N: Muitas vezes a média apresenta assim porque são as pessoas que cometem crimes, que ao reivindicarem, apresentam-se como sendo muçulmanos e actuando pelo islão e por Alá. 

D.J.: Sim, eu concordo consigo mas cada caso é um caso, a igreja também pode ser instrumentalizada. No caso da igreja Católica houve o tempo da inquisição, em que em nome da Santa Fé muitas pessoas foram sacrificadas mas não podemos diabolizar a religião. 

F&N: E como é que a comunidade islâmica aqui olhou para os mais recentes casos? refiro-me aos atentados em Paris e no Mali.

DJ - É inaceitável, isso não justifica, eu estava a dizer que a motivação é política, essas pessoas agiram de uma forma irracional, a própria religião diz que não se pode matar, tirar a vida de alguém inocente. Aquela população que morreu é uma população inocente, só que eles dizem: “as bombas que estão a cair aqui nas nossas terras estão a matar o nosso povo, vocês também vão sentir a mesma dose”, é mais ou menos isso, Repito que as motivações são políticas. 

F&N: Em Angola temos algumas tendências ou movimentos com tendência para o radicalismo? 

DJ: Não, não podemos ter porque Angola é um país livre, soberano e temos que rejeitar a influência dos estrangeiros neste sentido. Por exemplo, na Guiné Conacri a maioria é muçulmana mas não há problemas, não podemos ter esse medo, devemos dormir e acordar sossegados que esses ares do estrangeiro aqui não se fazem sentir porque já disse que essas motivações não são religiosas mas sim meramente políticas e o que se pede, também, é que cada um, como angolano, respeite os direitos de outrem; se soubermos viver na diferença poderemos fortalecer a nossa Angola, cada um de nós tem um contributo a dar para Angola.

F&N: Nem temos Imans radicais em Angola?

D.J.: Qual seria a motivação desse radicalismo? Angola nunca atacou, nunca mandou força para atacar o Iraque, Angola nunca interferiu em outros países, aliás, como membro da União Africana Angola defende a não ingerência no que toca a vida dos outros países. Depois de 2002 tivemos a paz definitiva, então muitos países querem vender as suas armas, sabem que Angola tem petróleo, criam conflitos para vender essas armas e aqui em Angola não pode ter esse tipo de espaço. Somos um país cada vez mais atento, o angolano é cívico acima de tudo e é religioso, e esses conflitos e influências externas nunca vão acontecer aqui.

F&N: Mas no mundo global essas mensagens radicais estão nas redes sociais e podem chegar aos jovens angolanos. Vocês têm feito algum trabalho de sensibilização junto da comunidade? 

DJ: Como comunidade, apelamos sempre à tolerância, condenamos veementemente esses tipos de ataques bárbaros que têm sido praticados por alguns indivíduos do Médio Oriente que também são muçulmanos. Uma coisa é estarmos unidos do ponto de vista da fé mas do ponto de vista da prática de cidadania, cada um é livre, porque a religião islâmica é cada vez mais liberal, então, não podemos confundir esses actos de cidadãos desses países com a nossa realidade. A paz é um bem sagrado, que mereceu muito sacrifício e cada um de nós tem de preservá-la.

F&N: Para além do que referiu, que outras actividades a comunidade islâmica desenvolve no nosso País?

DJ: Doação de sangue, por exemplo. Os nossos jovens angolanos têm estado a participar em acções de doação de sangue em alguns hospitais de Luanda e, também, no Uíge. Quando houve a tragédia no Lobito a nossa comunidade ofereceu cerca de três toneladas de bens. 

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